Emoção abaixo de zero

Repletas de brasileiros, as estações de esqui da América do Sul prometem muita neve e agitação neste ano

Thomas Traumann


Foto: Claudio Versiani
Las Leñas, na Argentina: uma
montanha de gelo na porta do hotel

O programa de 15.000 brasileiros neste inverno será acordar cedo, enfrentar temperaturas abaixo de 5 graus negativos e tentar deslizar sobre esquis nas encostas de montanhas cobertas de neve. À noite, freqüentar restaurantes que servem carne de caça, dar uma esticada até uma danceteria ou arriscar a sorte numa mesa de cassino. As 28 estações de esqui da América do Sul oferecem tudo isso e atraem dez vezes mais turistas brasileiros que na década passada. A invasão é tão grande que San Carlos de Bariloche, a principal cidade turística da Argentina no inverno, ganhou até um apelido: Brasiloche. E este será um inverno especial. Promete a desforra nas estações de esqui. No ano passado, o frio foi pouco, quase não nevou em Bariloche e o número de turistas caiu pela metade. Neste ano, a animação é geral. Desde maio neva quase toda semana nessas regiões. Na última quarta-feira, havia mais de 2 metros de neve na estação chilena Valle Nevado -- o nível perfeito para a prática do esqui.


Foto: Marcos Sá Corrêa
 
Bariloche: novos equipamentos
e pista de snowboard
 

Como não neva no Brasil, a não ser ocasionalmente em cidades serranas do Sul, esquiar era programa de gente endinheirada até que a classe média brasileira começou a viajar mais, de alguns anos para cá. Um pacote na neve, na alta temporada -- da segunda quinzena de julho até a primeira semana de agosto --, custa a partir de 1100 reais, o mesmo que uma semana na Disney. Inclui passagem aérea, hotel, café da manhã, traslados, passeios e, em alguns casos, aulas de esqui. Fora desse período, o preço cai 25%. Além da diversão, o esqui ajuda a manter a silhueta. Uma hora deslizando na neve queima 500 calorias, mais do que três horas de flexões abdominais. Os equipamentos podem ser alugados por 150 dólares semanais. Bariloche é o destino ideal para quem quer ver neve, mas não está seguro de se arriscar sobre um par de esquis. Ao contrário das outras estações, é uma cidade turística bem estruturada, com 180 hotéis e bangalôs, lojas de griffes famosas e restaurantes de boa qualidade. Na alta temporada, há congestionamento de carros europeus e japoneses nas ruas e as danceterias fervem à noite. A estação de esqui mais famosa de Bariloche é Cerro Catedral, a 19 quilômetros do centro. Neste ano, investiu 20 milhões de dólares na compra de novos teleféricos e quarenta canhões que fabricam flocos artificiais de neve. Ali funciona também o primeiro espaço exclusivo para a prática do snowboard, o surfe sobre a neve, que virou mania no mundo todo.

Menos badalada, Las Leñas é a nova coqueluche brasileira no inverno. É difícil sair de lá sem aprender a esquiar. Os três grandes hotéis da estação ficam na base das montanhas, e até uma visita ao supermercado pode ser feita de esquis. Para famílias grandes, existe a comodidade do berçário Mini Leñas, que aceita de bebês de 2 meses a crianças de 3 anos. Para adultos, há cassinos e danceterias. Com o seu desnível de 1.100 metros, Las Leñas é a estação mais moderna da América do Sul. É o local do campeonato brasileiro de esqui e nesta estação, enquanto é verão no Hemisfério Norte, serve de centro de treinamento das equipes dos EUA, da Áustria e da Suíça.

Valle Nevado, no Chile, é outro refúgio dos esquiadores. Ali, os cursos de esqui custam em torno de 130 dólares, e a maioria das escolas promete devolver o dinheiro se o aluno não aprender a esquiar. Inaugurada em 1988, a estação é uma das poucas que se mantêm cobertas de neve até outubro. Neste ano, uma das promoções dos hotéis oferece uma viagem de helicóptero até o pico das montanhas para quem quer esquiar em neve virgem e passeios noturnos em motos para neve. Existem planos de elevar a área de esqui até 4.000 metros de altura -- hoje é de 3.670 metros. Isso transformará Valle Nevado na mais alta base de esqui do mundo.

"Qualquer pessoa precisa de, no máximo, uma semana para aprender a esquiar ou surfar na neve o suficiente para se divertir. Os equipamentos estão cada vez mais seguros e a chance de alguém se machucar é pequena. Ao escolher uma estação, leve em conta duas alternativas: as que ficam junto a cidades, como Bariloche, na Argentina, e as chamadas skiin, onde até para sair do hotel é preciso calçar esquis. É o caso de Las Leñas e Valle Nevado, ambas no Chile. Em todas elas, os iniciantes podem fazer cursos coletivos ministrados por profissionais experientes. No começo, é preciso ter calma. Esquiar é cansativo e o corpo estranha a diferença de altitude. Nessas estações, há equipamentos a preços razoáveis (veja alguns exemplos). Só quem costuma esquiar com muita freqüência deve comprá-los. Alugar sai bem mais em conta."

Sylvio Monti Neto, esquiador, representou
o Brasil em dois campeonatos mundiais

Fotos: Marcelo Zocchio

Copyright © 1997, Abril S.A.