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| Ilustração sobre fotos de Orlando Brito e Egberto Nogueira |
Já passava das 11 da noite de segunda-feira passada
quando o telefone tocou no apartamento do ministro Sergio
Motta, das Comunicações. Era Dora Kramer, colunista do
Jornal do Brasil, perguntando sobre o jantar a dois entre
o presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-prefeito
Paulo Maluf que estava acontecendo naquele momento, no
Palácio da Alvorada. "Como? Não estou
sabendo", disse o ministro, homem forte do PSDB,
sócio e amigo do presidente. Sergio Motta desligou e,
imediatamente, discou o número do Alvorada. O presidente
veio ao telefone, pediu que chamasse de novo dentro de
dez minutos -- pois naquela hora, justamente, estava se
despedindo de Paulo Maluf. Ao voltar ao telefone,
Fernando Henrique ficou apreensivo quando Sergio Motta
disse que, como o encontro fora secreto, a imprensa
deveria noticiá-lo no dia seguinte com tinturas de
conspiração.
-- Mas não teve nada secreto -- disse o presidente. --
Está cheio de repórter aí na frente.
-- Mas como nem o Tasso, nem o Serra, nem o Covas, nem eu
sabíamos...
-- Mas eu dei uma entrevista hoje para a Globo News
dizendo que ia me encontrar com o Maluf -- atalhou
Fernando Henrique. -- E também disse que meu candidato
ao governo de São Paulo é o Covas.
Após uma pausa, o presidente continuou, como quem dá um
esclarecimento, e não como quem faz uma advertência:
-- E, depois, eu sou o presidente da República, não
preciso dar explicações a toda hora. Ainda mais quando
estou me encontrando com um líder político importante.
Embora Paulo Maluf tenha escondido a viagem até mesmo de sua assessoria mais íntima, a ponto de só momentos antes do embarque ter avisado o secretário Roque Carneiro de que estavam a caminho de Brasília e não de Porto Alegre, como lhe dissera dias antes, o encontro de Fernando Henrique com o ex-prefeito veio a público, mas, paradoxalmente, continuou secreto. Fernando Henrique e Maluf fizeram um pacto de não contar nada -- nem o que comeram e beberam -- sobre o que conversaram durante as duas horas e quinze minutos em que estiveram juntos. Nem os amigos mais chegados de ambos tiveram direito a um relato completo do encontro. Há três meses, em telefonemas esporádicos, nos quais se tratam de "Paulo" e "Fernando", eles vinham conversando sobre o jantar. Foi Fernando Henrique quem ofereceu a primeira data, numa noite de abril. Maluf se desculpou, mas perguntou se não seria possível encontrar outro espaço na agenda -- aquele dia, explicou, era aniversário de dona Sylvia, sua mulher.
Às gargalhadas -- O encontro fez bem a Maluf, derrotado em sua campanha contra a reeleição, quando chegou a dizer "o Planalto chefia a grande máquina de corrupção do país". Denunciando o uso excessivo de medidas provisórias, na época Maluf ainda teve o mau gosto de comparar o presidente com Mussolini, Hitler e Stálin, por "empurrar medidas goela abaixo do Congresso". Na semana passada, o ex-prefeito demorava-se em elogios ao presidente, extensivos mesmo à primeira-dama Ruth Cardoso, a quem ele define, agora, como "a primeira-dama ideal" -- um sinal de que, conformado em disputar a sucessão estadual em 1998, em breve poderá estar chamando o Mussolini da máquina de corrupção de "presidente ideal". Para mostrar que se sente muito à vontade como aliado do presidente, ao longo da semana Maluf disparou dezenas de telefonemas a parlamentares pedindo ajuda na votação das reformas -- como se esse tema fosse capaz de ocupar seriamente sua atenção, ou a do presidente. Mostrando serviço, Maluf ligou até para o deputado Aloysio Nunes Ferreira, do PMDB paulista e velho aliado do governo, que lhe agradeceu o empenho às gargalhadas.
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Cartaz da campanha de
Fernando Henrique a prefeito de São Paulo, em
1985: o passado virou futuro |
| Foto: Jorge Rosenberg |
O encontro do Alvorada marcou a estréia, em grande estilo, da estratégia de Fernando Henrique para a campanha de sua reeleição em 1998: esterilizar e desmontar qualquer candidatura que possa surgir à direita da frente PT-PDT e os pequenos satélites que gravitam a seu redor. Em Minas Gerais, o governador tucano Eduardo Azeredo começa a sentir a estratégia na própria pele -- os sinais de estímulo que o Planalto tem enviado a Itamar Franco, antecessor e padrinho de Fernando Henrique, para se candidatar não à Presidência, e sim ao governo de Minas. Para tanto, Azeredo teria de desistir de tentar reeleger-se. Em Brasília, as conversas do Planalto com Joaquim Roriz, do PMDB, provocam o humor do senador tucano José Carlos Arruda, que contava com a caravana presidencial para ser candidato.
Marido traído -- Fernando Henrique é pragmático. Nos Estados, ele pretende estar junto com o candidato com mais chance de vencer e quer que o segundo colocado nas pesquisas não lhe faça oposição. Na campanha de São Paulo, por exemplo, é difícil imaginar que deixe de subir no palanque de Mário Covas. Mas o jantar da semana passada mostra que ele não está disposto a jogar a sua popularidade e o prestígio do Real contra Maluf. E é isso justamente o que Maluf quer: poder atacar Covas e elogiar FHC. E Covas, que os cartunistas pintaram como o marido traído, sentia-se muito à vontade para falar com realismo sobre o jantar no Alvorada. "O presidente me deu tantas satisfações públicas sobre esse encontro que é óbvio que não se fechou nenhum acordo", afirma o governador. Político experimentado, Covas teve uma atitude esperta ao dizer: "Eu não sei se o presidente vai estar em meu palanque, se é que terei algum, mas eu sei que estarei no dele". Ou seja, mesmo tomando cautelas, ele disse que é candidato à reeleição, e Fernando Henrique terá de apoiá-lo, ao menos formalmente.
Vaga -- "O que orienta a política do presidente é uma reeleição magnífica", afirma o deputado Almino Afonso, do PSDB paulista. "Se o preço a pagar for mandar o PSDB para o beleléu, ele não vê nenhum problema." Ele é capaz de grandes ousadias e alianças. Em 1978, rompeu uma velha camaradagem com o então deputado e seu padrinho Franco Montoro para enfrentá-lo numa disputa pelo Senado, ficando em segundo lugar. Em 1986, anunciou que abandonava o governo de José Sarney às vésperas do Plano Cruzado, mas voltou atrás para se eleger senador, com 6 milhões de votos. Em 1991, flertou com Collor. Essa mesma ousadia lhe permitiu, em 1993, com uma hiperinflação batendo às portas, aceitar o Ministério da Fazenda de um presidente-topete como Itamar Franco, e até imaginar -- corretamente -- que teria respaldo para levar à frente um plano que contrariava o grosso das convicções da escola pão-de-queijo de economia política.
A amizade com Maluf, a boa vontade com suas ambições políticas, é outro passo nessa categoria. Muitos eleitores se lembram de sua campanha pela prefeitura em 1985, quando colocava Maluf, o adversário Jânio Quadros e Delfim Netto na vala comum de um passado a ser enterrado. Há três anos, Fernando Henrique foi muito criticado, pelo mesmo PSDB que agora faz cara de zangado, quando deu o braço para o PFL, selando um acordo para a campanha presidencial. O tricô do Alvorada é um passo ainda mais ousado. O PFL é um partido de imensa base nordestina, e seu governismo radical o levou a adaptar-se a qualquer presidente de plantão -- pode-se apostar que, se um dia o PC do B estiver na Presidência da República, haverá um quinhão do ministério reservado ao PFL. Já o PPB de Maluf é o thatcherismo brasileiro e, mais do que isso, a encarnação do mal na geração de políticos democráticos que, como Fernando Henrique, a mistura original do PSDB e do PMDB, enfrentaram as dores do regime militar, a prisão e o exílio. Pior ainda: tucanos e malufistas são facções com origem na política paulista, em que disputam prefeituras, empregos e até prestígio em universidades.
Ao abrir o ninho do governo para o PPB, Fernando Henrique realiza um movimento para trazer a velha ordem de volta ao palácio. Desde a Nova República que o país vem sendo administrado por formações políticas que incorporam os velhos políticos, os partidos de sempre. Houve o jaquetão de José Sarney, as camisetas de Collor, o topete de Itamar. E todos governaram com o PMDB, o PFL e pedaços do PSDB. Fernando Henrique está apenas reproduzindo esse velho bordado do conservadorismo nacional.
Luta de resistência -- Isso acontece quando o PSDB exibe provas sucessivas de que se está esfarelando, virando um partido daqueles que buscam cargos e verbas. A velha-guarda encontra-se marginalizada, sem poder de mando, e às vezes até sem voz. "Antes o PSDB era um partido que se reunia para tomar decisões graves, mas agora não se reúne nunca, nem para festas", diz uma raposa da legenda. "O PSDB está muito descaracterizado. São alianças inimagináveis e correligionários impossíveis. Há uma grande desmotivação entre os sobreviventes", avalia o ex-deputado Euclides Scalco, tucano histórico, hoje recolhido à presidência da Itaipu Binacional. Até a ala cômico-nordestina do PSDB já está reclamando. Num artigo publicado na sexta-feira no Jornal do Brasil, o ex-governador Ciro Gomes, cabo eleitoral de Fernando Henrique em 1994, quando foi o grande animador do Plano Real, assinando medidas que fizeram explodir a balança comercial apenas para não permitir abalos na campanha eleitoral, agora está convocando os tucanos a uma luta de resistência. "Chega de passividade diante de absurdos", escreveu Ciro Gomes.
Com reportagem de Andréa Barros
Copyright © 1997, Abril S.A.