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Edição 2066

25 de junho de 2008
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Igor, o bom desertor

Como a mudança de lado de um espião soviético
se tornou um estopim da Guerra Fria


Rinaldo Gama

No dia 5 de setembro de 1945, Igor Gouzenko, criptógrafo da embaixada soviética em Ottawa, no Canadá, saiu do emprego para entrar na história. Ao saber que seria substituído no posto que assumira dois anos antes, e receoso do que o aguardava no retorno à URSS, Gouzenko, que na verdade pertencia aos quadros da GRU, o setor de Inteligência do Exército Vermelho, decidiu desertar. Começava ali uma via-crúcis – primeiro solitária e depois feita na companhia da mulher, Anna, em final de gravidez, e do filho de 1 ano e 3 meses – em busca de asilo e proteção. Mais do que isso, tinha início, para Gouzenko e sua família, uma vida marcada pela insegurança: física, financeira e, sobretudo, emocional.

A história dessa extraordinária deserção, e de suas conseqüências, para além do protagonista, é o tema de Como Começou a Guerra Fria: o Caso Igor Gouzenko e a Caçada aos Espiões Soviéticos (Record; tradução de Carlos e Ana Duarte; revisão técnica de Maurício Parada; 362 páginas; 48 reais), lançado em 2006 pela canadense Amy Knight, doutora em política russa pela London School of Economics, que chega agora às livrarias brasileiras.

Não há dúvida de que o Caso Igor Gouzenko tenha relevância na história da Guerra Fria – pela onda de perseguições que contribuiu para incrementar, pelo frenesi que causou nas altas esferas dos governos envolvidos e em órgãos como o FBI, comandado pelo todo-poderoso J. Edgar Hoover. No entanto, trata-se de um exagero situá-lo como marco zero do embate (e a autora acaba sinalizando isso). Muito antes do fim da II Guerra, EUA e Inglaterra já sabiam que a União Soviética deixaria de ser uma aliada quando o conflito se encerrasse; claro: os ideais de democracia do Ocidente não combinavam com a ditadura comunista. Em maio de 1945, o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill escreveu um telegrama ao presidente americano Harry Truman dizendo-se preocupado com os planos de Stalin e cunhando a expressão cortina de ferro: "Não sabemos o que está por trás dela", observou.

Embora não seja uma biografia de Gouzenko (1919-1982), um dos destaques de Como Começou a Guerra Fria é o perfil que ele traz do desertor. Amy, que fez pesquisas em arquivos recém-abertos no Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, o apresenta como um homem inteligente, porém descontrolado: tinha, ou adquiriu, traços paranóides; batia na mulher; não soube fazer bom uso do dinheiro que ganhou com a publicação de suas memórias – levadas ao cinema em 1948 – e de um elogiado romance, A Queda de um Titã (1954).

Nas primeiras audiências oficiais e contatos com a imprensa, Gouzenko costumava dizer que desertara, aos 26 anos, arriscando a pele, para revelar ao mundo as "intenções malévolas" da URSS. Seria, então, um autêntico herói. Amy, entretanto, sublinha que o ex-criptógrafo, depondo a um comitê de senadores dos Estados Unidos, declarou que a deserção nas hostes soviéticas poderia ser estimulada mediante ofertas financeiras, o que levantou a hipótese de que havia deixado escapar assim suas próprias motivações. "Você tem de lembrar que alguém que cresceu naquela cultura e vem para a nossa... sai de tanques para a máquina de lavar – acho que ele queria ter tudo do bom e do melhor", comenta, no livro, um ex-gerente da conta bancária de Gouzenko. E, se foi isso, como culpá-lo por querer trocar a penúria cinzenta da vida soviética pelo conforto da americana?



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