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Livros Como a mudança
de lado de um espião soviético
A história dessa extraordinária deserção, e de suas conseqüências, para além do protagonista, é o tema de Como Começou a Guerra Fria: o Caso Igor Gouzenko e a Caçada aos Espiões Soviéticos (Record; tradução de Carlos e Ana Duarte; revisão técnica de Maurício Parada; 362 páginas; 48 reais), lançado em 2006 pela canadense Amy Knight, doutora em política russa pela London School of Economics, que chega agora às livrarias brasileiras. Não há dúvida de que o Caso Igor Gouzenko tenha relevância na história da Guerra Fria pela onda de perseguições que contribuiu para incrementar, pelo frenesi que causou nas altas esferas dos governos envolvidos e em órgãos como o FBI, comandado pelo todo-poderoso J. Edgar Hoover. No entanto, trata-se de um exagero situá-lo como marco zero do embate (e a autora acaba sinalizando isso). Muito antes do fim da II Guerra, EUA e Inglaterra já sabiam que a União Soviética deixaria de ser uma aliada quando o conflito se encerrasse; claro: os ideais de democracia do Ocidente não combinavam com a ditadura comunista. Em maio de 1945, o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill escreveu um telegrama ao presidente americano Harry Truman dizendo-se preocupado com os planos de Stalin e cunhando a expressão cortina de ferro: "Não sabemos o que está por trás dela", observou. Embora não seja uma biografia de Gouzenko (1919-1982), um dos destaques de Como Começou a Guerra Fria é o perfil que ele traz do desertor. Amy, que fez pesquisas em arquivos recém-abertos no Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, o apresenta como um homem inteligente, porém descontrolado: tinha, ou adquiriu, traços paranóides; batia na mulher; não soube fazer bom uso do dinheiro que ganhou com a publicação de suas memórias levadas ao cinema em 1948 e de um elogiado romance, A Queda de um Titã (1954). Nas primeiras audiências oficiais e contatos com a imprensa, Gouzenko costumava dizer que desertara, aos 26 anos, arriscando a pele, para revelar ao mundo as "intenções malévolas" da URSS. Seria, então, um autêntico herói. Amy, entretanto, sublinha que o ex-criptógrafo, depondo a um comitê de senadores dos Estados Unidos, declarou que a deserção nas hostes soviéticas poderia ser estimulada mediante ofertas financeiras, o que levantou a hipótese de que havia deixado escapar assim suas próprias motivações. "Você tem de lembrar que alguém que cresceu naquela cultura e vem para a nossa... sai de tanques para a máquina de lavar acho que ele queria ter tudo do bom e do melhor", comenta, no livro, um ex-gerente da conta bancária de Gouzenko. E, se foi isso, como culpá-lo por querer trocar a penúria cinzenta da vida soviética pelo conforto da americana?
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