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Edição 2066

25 de junho de 2008
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Comportamento
Da primeira panela
a gente não se esquece

Nem das outras dez, ou vinte. Quem acha que fazer
comida nos fins de semana é coisa muito séria quer
uma cozinha à altura. Custe o que custar


Bel Moherdaui

Paulo Vitale
O diretor financeiro Mazza com o filho Bruno e uma de suas coleções: panelaço de quase 15 000 reais

O paulistano Eduardo Mazza, 41 anos, trabalha de segunda a sexta como diretor financeiro de uma construtora. Nos momentos de lazer, vai ao cinema, viaja ou bate bola com o filho Bruno, de 8 anos. O almoço com a família nos domingos é sagrado. Por trás dessa perfeita normalidade, Mazza alimenta um vício incontrolável, que o leva a gastar milhares de reais em questão de minutos: ele é louco por utensílios de cozinha. Em nome da compulsão, calcula já ter torrado uns 15.000 reais em vinte panelas de ferro fundido esmaltado, todas da marca francesa Le Creuset, na cor vermelho flamejante. São caçarolas, frigideiras, jarras, tigelinhas e até um elegante recipiente para fazer pratos marroquinos como cuscuz e tagine (690 reais). Com orgulho de colecionador, Mazza acomoda-os num armário com portas de vidro especialmente instalado em frente ao fogão. "É um exagero mesmo. Já tenho tudo de que preciso em matéria de panelas e talheres. Também troquei recentemente todos os pratos e tenho um jogo de doze facas fantástico, que inclui uma para desossar e outra de serra, faca para cortar tomate, filetar cebola, preparar sushi", descreve, entusiasmado. Mazza é um exemplar típico de uma espécie em constante evolução, os chefs de fim de semana, em geral profissionais bem-sucedidos que gostam de exibir seus dotes culinários. O fato de que o façam nos melhores equipamentos que o dinheiro pode comprar produz fenômenos que escapam à compreensão dos cozinheiros eventuais, aqueles do macarrão e da omelete, como pagar 56.000 reais por um imenso fogão da marca Viking com dois fornos, chapa, grelha e seis bocas (todas capazes de reproduzir o efeito banho-maria); 45.000 reais por uma geladeira Sub-Zero, que regula sozinha as variações de temperatura e umidade conforme a porta é aberta; 18.000 reais por uma coifa Wolf, que sobe e desce, por controle remoto; e 8.000 reais pela gaveta térmica, também da Viking, que mantém a pipoca crocante por várias horas (no muito improvável caso de a tigela não ser abatida em quinze minutos). É um mercado aquecido, em todos os sentidos do termo. "De 2006 para 2007, notamos um crescimento de 50% nas vendas", avalia Beatriz Zwarg, gerente de marketing da americana Viking, uma espécie de Versace dos eletrodomésticos, cujo fogão mais vendido é um monumento de quase 1 metro de largura que custa 30.260 reais. O equivalente a um carro médio, mas quem consegue fazer crème brûlée sobre quatro rodas?

Divulgação

Esplendor vitoriano: os lustres são a marca do escocês Clive Christian, o preferido de Rod Stewart e Oprah Winfrey

A "cozinha dos sonhos", incluindo eletrodomésticos de primeiríssima qualidade (fogão, dois fornos, sendo um para doces e outro para salgados, coifa italiana, geladeira side by side com filtro e gelo na porta, cooktop vitrocerâmico e máquina de café embutida) mais os sempre caros armários e piso, fica em torno de 250.000 reais, o preço de um bom apartamento de dois dormitórios em São Paulo. "São valores estratosféricos. Em vez de comprar uma magnífica obra de arte, a pessoa gasta na cozinha", admira-se o arquiteto Arthur de Mattos Casa. Em seu escritório, 70% dos projetos incluem a chamada cozinha gourmet, aquela reservada para os donos da casa. "Cozinhar é moda, como já foi usar charuto. Qualquer apartamento com mais de 200 metros quadrados já vem com espaço gourmet. A cozinha hoje é o bar inglês de décadas atrás", compara. Como o charuto e o bar, é um hobby predominantemente masculino. "Para eles a cozinha é como o carro ou o vinho: querem o melhor de todos e pagam por isso", atesta a decoradora Jóia Bergamo, de São Paulo.

Trocar a ambientação e os equipamentos da cozinha como quem se livra de uma roupa em perfeito estado, mas ligeiramente fora de moda, faz parte do furor culinário. Segundo os modismos do momento, inox já era e revestimento de eletrodomésticos agora é espelhado ou de vidro preto; pia, só de corian, um material sintético altamente moldável que não tem emendas e chega a custar o triplo do granito; misturador (ou torneira, para quem não é do ramo) que não se dispensa é o torneirão com uma mola em volta do bico e pressão forte, para encher mais rápido a panela de água. "A pessoa que se preocupa com as panelas e os eletrodomésticos não quer qualquer torneirinha. Nem é tanto para encher a panela em três segundos. Ela quer o design", diz Eduardo Achcar, diretor comercial da Metalbagno, onde um "monocomando" (o nome técnico) desenhado pelo francês Phillipe Starck, muito charmoso mas que nem dispõe de alta pressão, custa 4 500 reais e é campeão de vendas. "Cozinha, hoje, é uma questão de glamour, de charme, de entretenimento", enumera André Cutait, diretor da Spicy, loja de produtos para cozinha cujas vendas cresceram 20% de 2006 a 2007. No recém-aberto Espaço Santa Helena, loja de utensílios em São Paulo, um dos três andares é todo dedicado a produtos de cozinha em geral. Segundo o diretor José Eduardo Sanches, ali é fácil identificar o chef amador – e gastador: "Ele conhece a panela, a faca, a frigideira, o eletrodoméstico. Começa comprando as marcas mais básicas e os produtos de melhor valor agregado, mas vai se sofisticando". O mercado acompanha. Na Casa Cor, mostra anual de decoração atualmente em exposição em São Paulo, a cozinha criada pela designer Simone Goltcher funciona por comando de voz: diz-se "Acender a luz", e pronto, ela se acende. "Quis fazer a cozinha do sonho de consumo", descreve Simone.

Roberto Setton
O casal de chefs Ana Luiza e Corderon na cozinha do apartamento novo: em casa de especialistas, tudo foi discutido

É fácil perceber a diferença entre o chef eventual e o verdadeiramente dedicado à culinária: basta virar uma panela e verificar as marcas de uso. A primeira categoria também tende mais aos excessos e a utensílios de utilidade discutível. "A cozinha tem de ser prazerosa. Se você não pensa na praticidade, vai ter mais trabalho e pouco prazer", ensina Ana Luiza Trajano, duplamente perita no assunto: além de chef e dona de restaurante, seu marido, o francês Yann Corderon, replica as mesmas especificações. Os dois se mudaram recentemente para um apartamento reformado onde a cozinha, claro, ocupou o centro das discussões. "A arquiteta queria colocar o forno longe do cooktop. Achei que não era prático porque muitas vezes grelhamos alguma coisa na frigideira e finalizamos no forno. Da mesma forma, tirei a pia da bancada, porque preciso de espaço para a preparação de massas e doces", exemplifica Ana Luiza. Detalhe importante: em casa, ela prepara inteiramente apenas as sobremesas; nos demais pratos, o marido só lhe permite ser assistente e olhe lá.

Com todos os exageros, o mercado brasileiro ainda está distante das dimensões e do escopo do dos Estados Unidos, onde, em 2007, os americanos gastaram 22 bilhões de dólares só em equipamentos de cozinha e predomina um estilo decorativo cheio de curvas e rococós. O rei dessa escola é o escocês Clive Christian, criador do que chama de "cozinha clássica vitoriana", coberta de colunas, frontões e lustres de cristal – tudo assim, no plural. Em suas mais de trinta lojas mundo afora, Christian monta cozinhas a partir do equivalente a 160.000 reais – só os armários de um projeto bem pequenininho, sem eletrodomésticos. Cozinhas de famosos como o roqueiro Rod Stewart e a apresentadora Oprah Winfrey custam muito, muito mais. Devido à demanda por novidades, não é impossível que cozinheiros amadores brasileiros venham a exibir seus dotes em ambientes grandiosos como castelos quase góticos, à la Christian. Principalmente porque não precisarão limpar a gordura dos pingentes do lustre.

 

 
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Fotos Divulgação



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