BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2066

25 de junho de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Diogo Mainardi
J.R. Guzzo
Lya Luft
Millôr
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 

Cidades
Todas querem ser Dubai

Em busca da modernidade, outros centros
do Golfo se transformam em canteiros de obras


Duda Teixeira

Dubai é o cenário vistoso de uma experiência econômica e cultural sem precedentes no mundo árabe. Minúsculo, com seu petróleo prestes a se esgotar, o emirado se reinventou como um porto seguro para empresas estrangeiras, investidores e turistas. Fez isso por meio de obras espetaculares, legislação camarada para com o capital externo e doses surpreendentes de tolerância cultural, uma raridade no Golfo Pérsico, região que concentra 60% das reservas conhecidas de petróleo. Como conseqüência, a economia dos Emirados Árabes Unidos cresceu mais de 9% ao ano desde 2003 – sem contar a produção de petróleo. As inovações agora servem de exemplo para as capitais dos países vizinhos Barein, Catar, Omã e também para as demais cidades-estado dos Emirados Árabes Unidos, dos quais Dubai faz parte. Apesar de a elevação no preço do barril ter triplicado o produto interno bruto desses países desde 2000, seus governantes compartilham a idéia de que não podem depender apenas da exploração de petróleo, que é finito. A ordem é estimular a educação, a pesquisa científica, a atração de investimentos externos e o turismo. Não fosse a recusa de estabelecer estados laicos, eles poderiam ser considerados os déspotas esclarecidos da atualidade.

Há três décadas, ao perceber que suas reservas de petróleo estavam minguando, Dubai decidiu se tornar o principal entreposto comercial no golfo. Começou por construir um porto artificial, criou zonas francas e, mais recentemente, iniciou uma série de construções megalomaníacas para atrair turistas e impressionar investidores. Ilhas artificiais no formato de palmeiras, shopping centers e mais de uma centena de hotéis foram inaugurados há pouco ou estão em fase de construção. O número anual de turistas já supera em cinco vezes a população do emirado. O modelo Dubai sustenta-se na combinação de estabilidade, tolerância e progresso – em meio a uma região em que são poucos os países com qualquer um desses elementos, quanto mais os três juntos. Isso ajuda a entender por que jovens qualificados de todo o Oriente Médio estão se mudando para as cidades de Doha, no Catar, Manama, no Barein, e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde se sentem em casa culturalmente, mas também podem levar um estilo de vida mais moderno.

O Catar é a estrela nessa constelação. O emirado assumiu recentemente o posto de nação com a maior renda per capita do mundo e no seu subsolo estão 15% das reservas de gás natural do planeta. A Al Jazira, o maior canal de notícias árabe, é uma das novidades modernizantes do governo de Doha. Em 1971, ao se tornar independente da Inglaterra, o Catar recusou-se a se integrar aos Emirados Árabes Unidos, que reúnem as cidades-estado do Golfo. Agora, faz o possível para se aproximar dos vizinhos e do mundo. Depois de derrubar o próprio pai em 1995, o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani instituiu novidades como a liberdade de culto e de expressão. Dois anos atrás, passou a investir 2,8% do PIB em pesquisas científicas, proporção superior à adotada na União Européia e nos Estados Unidos. Há dez anos, foi inaugurada a Cidade da Educação, um campus com seis filiais de universidades americanas, entre elas Georgetown e Virginia Commonwealth, a VCU. Seis de cada dez estudantes são do próprio Catar e não pagam nada pelos cursos. Os demais alunos vêm, sobretudo, de outros países do Golfo. "Em uma mesma sala é comum haver alunas usando jeans e outras cobertas com véu, todas desenhando sapatos de salto alto ou vestidos de noite modernos", disse a VEJA a americana Karen Videtic, diretora do departamento de moda da VCU. No início, a universidade aceitava apenas mulheres. Recentemente, abriu vagas para homens. Quando se considera que na vizinha Arábia Saudita as mulheres não podem sequer dirigir um carro e os sexos são inteiramente segregados no local de trabalho, trata-se quase de uma revolução.

A crescente, ainda que tímida, liberdade para as mulheres é acompanhada de maior participação política da população. Nenhum desses países é uma democracia. Omã é uma monarquia absolutista, Barein e Catar são monarquia e emirado constitucionais. Mas há certa disposição em descentralizar o poder. O Barein promoveu eleições parlamentares em 2002 e tem um Judiciário independente. O Catar realiza eleições municipais desde 1999. Omã, o mais fechado de todos e o que menos dá autonomia às mulheres, tem um Parlamento com funções consultivas (as leis são feitas pelo sultão), com participação feminina. O sultanato, a exemplo de Dubai, dispõe de reservas pequenas de petróleo e aposta alto no turismo. Com uma natureza exuberante, Omã oferece seis resorts, quatro deles cinco-estrelas, cachoeiras e praias belíssimas. Espera multiplicar por dez sua receita com o turismo até 2020.

Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos, vai inaugurar filiais dos museus do Louvre e Guggenheim até 2012. Outros dois museus e um teatro estão sendo construídos. Manama, no Barein, focou nos negócios. Com a instabilidade política e os conflitos que assolam o Líbano, Manama passou a disputar com Beirute o posto de centro financeiro do mundo árabe. A ilha tem 25 bancos comerciais, mais do que o dobro de toda a Arábia Saudita, e outras cinqüenta instituições financeiras têm sua sede regional para o Oriente Médio instalada no paraíso fiscal. O setor da economia que mais cresce nos países do Golfo é a construção civil. Atualmente, há 1 trilhão de dólares em projetos em andamento. Para erguer os arranha-céus no deserto, a região recebeu 17 milhões de trabalhadores migrantes, a maioria vinda da Índia, do Paquistão e das Filipinas. Em Doha, capital do Catar, mais de 100 edifícios estão sendo erguidos, o que vai quadruplicar a quantidade de prédios na cidade. São tantas casas e edifícios em obras em Dubai que o emirado precisaria aumentar sua população de 1,3 milhão para 4 milhões até 2020 para conseguir ocupar todos eles. O objetivo final de todas essas transformações é um só: preparar os países do Golfo para o mundo pós-petróleo.

De repente, seis novas cidades

Emaar Development Via The New York Times
Maquete da Cidade Rei Abdullah: canais inspirados nos de Amsterdã

Maior exportador de petróleo, a Arábia Saudita tem agora o segundo maior canteiro de obras do mundo e está perto de suplantar o campeão, o emirado de Dubai. Aproveitando o lucro proporcionado pela alta no preço do barril, o rei Abdullah encomendou a construção de nada menos que seis cidades planejadas. A principal delas, a Cidade Econômica Rei Abdullah, terá suas primeiras casas entregues no fim deste ano. Em uma área quase do tamanho do Recife, comportará um porto, um centro financeiro, um campus universitário e diversos distritos industriais. Como é de esperar no religioso reino saudita, o clero muçulmano foi amplamente contemplado – a nova cidade terá 550 mesquitas. Para deixar o ambiente agradável, estão projetados canais inspirados nos de Amsterdã e 75 quilômetros de calçadão para caminhadas e corrida.

Aos 83 anos, o rei saudita tem três bons motivos para investir nas novas cidades. O primeiro é que está sobrando dinheiro. Na falta de opções de investimento doméstico, no ano passado os sauditas compraram a divisão de plásticos da General Electric, a segunda maior empresa americana. Outro motivo é que o país precisa arrumar com urgência casa e emprego para seus jovens. Devido à alta taxa de natalidade, a população saudita deverá crescer de 24 milhões para 40 milhões em 2025. As novas cidades têm o objetivo de criar 1 milhão de empregos e servir de residência para 2 milhões de pessoas. O terceiro motivo é que, apesar de ainda flutuar sobre reservas de petróleo, o governo da Arábia Saudita está acordando para o fato de que, um dia, terá de deixar de ser um país onde tudo se importa e nada se produz. O plano é instalar indústrias petroquímicas, de produção de alumínio, aço e fertilizantes nas cidades que estão nascendo nas areias do deserto.



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |