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25 de junho de 2008
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Ciência
A diferença se vê no cérebro

Descoberto que os homossexuais são mais
parecidos com pessoas do sexo oposto


Vanessa Vieira

A discussão sobre a natureza da homossexualidade mobiliza a psicologia e outros campos da ciência. Seria ela determinada por fatores biológicos ou culturais? Até meados do século XX não havia muitas dúvidas sobre a questão. O homossexualismo era catalogado pela Organização Mundial de Saúde como distúrbio mental e a culpa quase sempre recaía sobre a educação recebida dos pais. Freud considerava a homossexualidade uma forma de retardo no desenvolvimento do indivíduo, causado por um pai ausente ou por uma mãe superprotetora. Os estudos mais recentes indicam que, embora as experiências de vida possam concorrer para que alguém se torne homossexual, os fatores biológicos, decididamente, têm um papel nesse processo. Uma pesquisa divulgada na semana passada, feita pelo Stockolm Brain Institute, do Instituto Karolinska, na Suécia, foi recebida pelo meio científico como a prova mais consistente até hoje do peso do fator biológico na homossexualidade. A conclusão da pesquisa mostra que o cérebro de pessoas homossexuais se assemelha mais ao de indivíduos do sexo oposto do que ao de heterossexuais do mesmo sexo.

Na pesquisa, noventa voluntários foram submetidos a exames de tomografia e ressonância magnética no cérebro. Os cientistas viram que tanto homens heterossexuais quanto mulheres homossexuais apresentam uma assimetria: o hemisfério cerebral direito é um pouco maior que o esquerdo. Entre homens homossexuais e mulheres heterossexuais, por outro lado, o volume dos dois hemisférios é equivalente. As imagens mais eloqüentes da pesquisa foram obtidas ao se observar as conexões das amígdalas cerebrais (veja o quadro abaixo). Homens gays e mulheres heterossexuais apresentam mais conexões neuronais na amígdala esquerda, enquanto em lésbicas e homens heterossexuais elas predominam na amígdala direita. "É provável que essas diferenças se estabeleçam ainda no útero ou muito cedo na infância", afirma a coordenadora do estudo, a sueca Ivanka Savic. A relevância da pesquisa sueca é reforçada pelo fato de as imagens terem sido captadas com o cérebro dos voluntários em repouso, ou seja, sem o estímulo de imagens sugestivas ou de tarefas mentais a ser realizadas, como ocorre na maioria dos trabalhos desse tipo.

Velerie Macon/AFP

Direitos conquistados
O ator George Takei (à esq.), o Capitão Sulu do seriado Jornada nas Estrelas, no anúncio de seu casamento com o parceiro, na semana passada, em Hollywood. A Califórnia acaba de oficializar a união entre pessoas do mesmo sexo

Estudos anteriores já haviam demonstrado similaridades entre homossexuais e heterossexuais do sexo oposto. Homens homossexuais e mulheres heterossexuais têm, estatisticamente, desempenho inferior em tarefas de orientação e navegação. Essa função é processada primariamente pelo lobo parietal direito, mais desenvolvido nos homens do que nas mulheres. Por outro lado, mulheres heterossexuais e homens homossexuais costumam sobressair nos testes verbais, o que pode ser explicado pela maior simetria dos circuitos da linguagem no cérebro feminino. Ou seja, elas utilizam os dois lados do cérebro para executar uma tarefa que os homens concentram apenas no hemisfério esquerdo. As pesquisas que chegaram a essas conclusões, no entanto, não tinham como afirmar se as diferentes formas de reagir dos cérebros homo e heterossexual se deviam a razões biológicas ou resultavam da aprendizagem. O estudo do Instituto Karolinska joga a favor da primeira alternativa.

Pesquisas que atribuem origens biológicas ao homossexualismo costumam causar controvérsia entre pessoas que se relacionam com o mesmo sexo. Parte da comunidade gay avalia que elas são positivas porque mostram que o homossexualismo é uma característica inata, tanto quanto a cor dos olhos, e, portanto, algo natural. Mas há quem entenda que essas pesquisas podem levar à conclusão de que o homossexualismo é uma anomalia, uma doença hereditária. Os que partilham dessa opinião temem que se instale a eugenia sexual, com tentativas de intervir nos embriões para prevenir o nascimento de homossexuais. Até os anos 60, os homossexuais eram submetidos a terríveis tratamentos, que incluíam de choques elétricos a transplante de testículos. Só nos anos 70 eles puderam começar a reivindicar a plena aceitação pela sociedade. Os avanços sociais conseguidos ficam claros em acontecimentos como o da semana passada na Califórnia, quando se celebraram centenas de casamentos gays, na esteira de uma lei estadual que oficializou a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre os noivos estava até o ator George Takei, celebrizado como o Capitão Sulu do seriado Jornada nas Estrelas.

Desde a Grécia antiga se procuram explicações para o homossexualismo. Em sua obra O Banquete, escrita no século IV a.C., Platão atribui ao dramaturgo Aristófanes a narrativa que se segue. No início dos tempos, as criaturas eram duplicadas. Havia homens grudados a homens, mulheres a mulheres e homens a mulheres. Essas criaturas se voltaram contra os deuses e tentaram escalar até o céu para investir contra eles. Zeus reagiu e, para enfraquecer as criaturas, partiu-as ao meio. Desde então, cada um dos seres humanos busca sua metade. As metades andróginas se complementam num casal formado por homem e mulher. As mulheres resultantes da criatura feminina buscam outras mulheres e o mesmo acontece com os homens resultantes de uma criatura masculina. Ao comentar a situação dos homens que se apaixonam por outros homens, Aristófanes diz: "Não é por despudor que o fazem, mas por audácia, porque acolhem o que lhes é semelhante". Mais de dois mil anos depois, com menos poesia, cabe à ciência explicar o homossexualismo.

Com reportagem de Carolina Romanini

 
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