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Edição 2066

25 de junho de 2008
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Internacional
O custo do populismo

A Argentina ganhou na loteria com o boom das
commodities – e está desperdiçando a chance
com as maluquices do casal Kirchner


Marcio Aith

Marcos Brindicci/Reuters
A volta dos panelaços: argentinos protestam contra a ressaca econômica do modelo de desenvolvimento dos Kirchner

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Quando a Argentina se recuperou quase milagrosamente de sua crise de 2001, causada pelo colapso da insustentável paridade entre 1 dólar e 1 peso, muitos acreditaram estar diante de um novo modelo de desenvolvimento: o paradigma autóctone do presidente peronista Néstor Kirchner, cujos preceitos se resumiam a pôr a culpa por todos os problemas do país nos investidores estrangeiros, no FMI e nos mercados globalizados. Compreende-se parte desse fascínio. Embora tal modelo tenha isolado ainda mais a Argentina do mercado financeiro mundial, do qual se distanciou depois do calote de sua dívida externa, a economia cresceu num ritmo alucinante: em média 8,5% ao ano desde 2004. Com isso, o êxito político de Kirchner foi fulminante, a ponto de catapultar sua mulher, Cristina, à Presidência, no fim do ano passado, com 45% dos votos válidos (seu marido fora eleito em 2003 com apenas 22% dos sufrágios).

Passados seis meses com Cristina na Casa Rosada, os argentinos agora descobrem que o crescimento econômico dos últimos anos se deveu mais à valorização das cotações internacionais de produtos agrícolas produzidos pelo país do que às idéias amalucadas do casal Kirchner. Percebem também que o festejado paradigma autóctone os está conduzindo rapidamente de volta ao caos. Nas mãos do casal Kirchner, a Argentina encontra-se em sua pior crise econômica e política desde a queda de Fernando de la Rúa, em 2001. O abismo está cada vez mais perto. Falta comida nos supermercados, a inflação disparou para perto de 30% ao ano e há panelaços diários contra a política do governo nas ruas das principais cidades do país. O epicentro da crise está no campo, onde os produtores bloqueiam há 100 dias as principais rodovias em protesto contra a elevação de um tributo sobre exportações agrícolas destinado a financiar a distribuição de renda em favor dos "descamisados" e a concessão crescente de benefícios sociais e previdenciários – pedras basilares do legado de Juan Domingo Perón, o caudilho que governou a Argentina de 1946 a 1955 e fez dos sindicatos e do clientelismo a base de sustentação do seu poder. O imposto sobre a exportação de grãos existe na Argentina desde 1865. Nos últimos sete anos, no entanto, algumas de suas alíquotas quadruplicaram. Além disso, Cristina inovou ao criar por decreto, em março passado, uma tributação variável segundo a cotação dos alimentos exportados. Quanto mais alta é a cotação internacional do produto, maior é a alíquota a que se submetem os exportadores – uma aberração tributária que anula as oportunidades criadas pelo boom mundial das commodities. Ainda que tenha simulado um recuo na semana passada, ao conceder em enviar a proposta ao Congresso, o governo subiu o tom de suas acusações contra os produtores rurais, a quem chama de golpistas privilegiados.

Handout-Presidency/Reuters
O casal Kirchner, em manifestação de seus seguidores: popularidade em queda livre

"A rápida deterioração do governo de Cristina Kirchner não seria grave se ela estivesse no fim de seu mandato. Mas é uma queda muito grande para um governo recém-iniciado", diz o analista político argentino Rosendo Fraga. "Seu descrédito se deve a três causas: a perda do apoio rural em decorrência do aumento dos impostos, a perda de apoio popular devido à inflação e o mal-estar crescente da classe média em razão de um estilo que percebem como autoritário. A isso se soma a evidência de que Néstor, e não Cristina, é quem realmente exerce o poder, o que contribui para debilitar a imagem de sua mulher." No mês passado, o ex-presidente consolidou-se como líder inconteste do legado de Juan Domingo Perón ao assumir a presidência do Partido Justicialista. Já no ato de posse hostilizou seu padrinho político, o ex-presidente Eduardo Duhalde, que caiu em desgraça por apoiar os produtores agrícolas sublevados. Duhalde agora é tratado como golpista. Outros peronistas, entre eles governadores, também viraram alvo dos Kirchner após aderir aos panelaços e criticar a instituição do tributo sobre as exportações agrícolas. 

Essa solidariedade generalizada dos argentinos ao setor rural mostra que o país finalmente compreendeu os verdadeiros promotores de crescimento nos últimos quatro anos. Os pampas argentinos têm um dos três solos mais férteis do mundo (os outros dois estão na Ucrânia e no cinturão do milho, nos Estados Unidos), o que torna desnecessário o uso de fertilizante e reduz custos. Só com isso os produtores argentinos já saem à frente de seus competidores. Na Argentina, o custo para produzir 1 tonelada de soja é de 170 dólares. No Brasil, é de 200 dólares. Com o aumento no preço mundial das commodities, iniciado justamente após o colapso da paridade cambial, a Argentina ganhou na loteria. Em dezembro de 2001, a tonelada da soja era negociada a 160 dólares. Hoje a cotação está em 550 – ou seja, um aumento de 240%. Falida, a Argentina viu-se subitamente inundada pelo dinheiro proveniente de suas exportações agrícolas. Entraram no país cerca de 50 bilhões de dólares desde então, um valor superior ao do remanescente de seu calote externo, de pouco mais de 30 bilhões de dólares. "Pode-se dizer que o solo e a tecnologia agrícola argentinos são, em grande parte, responsáveis pela recuperação econômica do país", disse a VEJA o argentino Gustavo Grobocopatel, um dos maiores produtores de soja do continente. "O problema é que, com a tributação excessiva das exportações, já é mais lucrativo plantar no Uruguai, no Paraguai e no Brasil."

Além de ter enxotado os investidores privados e taxado os produtores agrícolas, o casal Kirchner não vem aproveitando o reforço de caixa para ampliar a infra-estrutura. Falta gás natural, fundamental para o aquecimento e essencial na produção de energia – mais da metade da eletricidade consumida no país vem de térmicas. Não se estão prospectando novas reservas, e o país, antes auto-suficiente em gás, agora se vê dependente das importações. No ano passado, houve apagões durante o inverno. Algo semelhante ocorre com o setor de petróleo. Há dez anos, existiam 200 poços sendo explorados; até o início do ano passado, não havia mais que dez. É esse o resultado da interferência dos Kirchner nos contratos com as empresas de petróleo.

A recente crise argentina faz lembrar a reflexão do historiador inglês Paul Johnson, que resumiu assim, em uma entrevista, sua impressão sobre o incrível processo de involução política e econômica do país. "Quando penso na Argentina, fico maluco. É um dos poucos casos para os quais não encontro ao menos uma droga de explicação. Sempre que vou embora de lá, saio cheio de tristeza. Fico incomodado por não ser mais a potência que era antes desse homem espantoso, Perón. Suponho que grande parte da culpa seja da elite política do país, que não serve para nada." Faz sentido. Mas não se deve esquecer que são os eleitores que escolhem os seus dirigentes.

Receita do caos

Como o casal Kirchner destrói a economia argentina

1 Nacionalismo - Por meio de ameaças ou rompimento de contratos, os Kirchner expulsaram da Argentina grupos estrangeiros como o francês Suez (energia e infra-estrutura) e a instituição financeira italiana Banca Nazionale del Lavoro

2 Anacronismo - Os Kirchner recorrem aos piores métodos para controlar a inflação patrocinada por eles mesmos: manipulam o índice oficial de preços, proíbem e taxam exportações, impõem tabelamentos e organizam milícias de fiscais para ameaçar empresários

3 Populismo - O casal alicia as classes sociais de menor poder aquisitivo com programas assistencialistas. O transporte público, o leite e a carne são subsidiados, assim como as tarifas de luz e o preço da gasolina

4 Clientelismo - Como Perón, os Kirchner fizeram dos sindicatos a base de sustentação de seu poder. Em troca de apoio político, deram aos dirigentes sindicais o controle de parte do orçamento social do governo

5 Corrupção - Uma ética frouxa impera sob a retórica raivosa dos Kirchner. Foi apreendida uma mala com 800 000 dólares vindos da Venezuela para a campanha presidencial de Cristina. A ex-ministra da economia Felisa Miceli escondia dinheiro no banheiro de seu gabinete

 

Outro fanfarrão bolivariano

Editorial Perfil
D’Elia (à esq.): truculência financiada pelo estado

Ele não tem cargo público nem posição de destaque na estrutura sindical argentina – um conjunto de entidades que apóia, por dinheiro, qualquer projeto político da extrema direita à extrema esquerda. Mesmo assim, Luiz D’Elia transformou-se no representante máximo dos métodos truculentos que marcam o estilo Kirchner de governar. Quando o ex-presidente Néstor atacou a ganância da petrolífera Shell, D’Elia e seu exército de piqueteiros logo "encamparam" trinta postos de gasolina com a bandeira da companhia. Quando a população de Buenos Aires ensaiou, há três meses, um panelaço contra Cristina Kirchner na Praça de Maio, D’Elia e seus arruaceiros expulsaram os manifestantes a socos. Quando um jornalista ousa criticar o governo em programas de rádio ou televisão, ele o ameaça (às vezes por telefone, ao vivo). D’Elia tem vários bordões. "Tenho ódio e nojo dessa oligarquia branca" é o mais freqüente.

Admirador do ditador venezuelano Hugo Chávez, de quem já admitiu ter recebido dinheiro, ele surgiu na cena política argentina como líder dos piqueteiros – trabalhadores demitidos durante a reestruturação industrial dos anos 90, que não encontravam representatividade nos tradicionais sindicatos peronistas. Quando Néstor assumiu o governo, em 2003, tinha apenas 22% dos votos e não contava com uma base social. Cooptar os piqueteiros foi uma forma de obtê-la rapidamente. Ele convidou D’Elia a ocupar um cargo público, ligado à coordenação de verbas sociais. O piqueteiro perdeu o posto depois de opinar que o serviço secreto de Israel estaria por trás do atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), ocorrido em julho de 1994, no qual 85 pessoas morreram. "Não tenho nada contra os judeus. Só desconfio da versão difundida pelo serviço secreto americano", diz ele. Hoje, D’Elia dirige a Federação Terra e Moradia, uma entidade de 150 000 piqueteiros financiada com dinheiro público. É um fanfarrão a soldo de um estado desmoralizado.



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