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25 de junho de 2008
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Entrevista: George Smoot
A simplicidade rege o universo


A primeira entrevista de Smoot a VEJA, em 1992:
Big Bang comprovado

O astrofísico americano George Smoot foi entrevistado por VEJA dezesseis anos atrás, logo após a publicação da pesquisa em que apresentou provas do Big Bang e revolucionou os estudos sobre a origem do universo. De seu escritório, na Universidade Berkeley, na Califórnia, Smoot, que recebeu o Prêmio Nobel de Física em 2006, conversou com a repórter Paula Neiva sobre os avanços no conhecimento do cosmo e também sobre as questões que permanecem sem resposta.

Estamos perto de entender completamente a origem do universo? Podemos responder a muitas coisas, mas não a tudo. O que acontece é que as perguntas mais simples às vezes se complicam. Já temos uma idéia do que aconteceu nos momentos seguintes ao Big Bang. É possível que o universo tenha sido muito simples no início e que a complexidade tenha aumentado ao longo do tempo.

Qual a descoberta mais importante na cosmologia nas últimas duas décadas? Sem dúvida é a de que o universo está se acelerando. Essa constatação pode significar que a gravidade age de forma diferente. Sabe-se que ela atrai os corpos. Será possível que também atue para afastá-los? Outra explicação para a expansão do universo seria a existência de alguma substância desconhecida, capaz de afastar os corpos. É possível, ainda, que esse efeito seja causado pela energia escura, que ocupa 75% de todo o universo e se espalha uniformemente. A energia escura continua sendo um dos maiores mistérios a ser desvendados.

As pesquisas sobre a origem do universo colocam a ciência em rota de colisão com as crenças religiosas? Algumas questões não são necessariamente conflitantes com a visão religiosa. O Big Bang, por exemplo, pode ser interpretado do ponto de vista religioso. A ciência também contribui para tornar a vida melhor e mais confortável. Devemos levar em conta que, à medida que avançam as perspectivas e o conhecimento, as religiões mudam bastante. De qualquer forma, o ser humano sempre precisará acreditar em algo mais, até mesmo para que as relações sociais sejam possíveis.
A ciência não fará a fé desaparecer, pois o ser humano busca um significado adicional para sua existência. Isso não impede que as pessoas se tornem mais racionais e queiram que as religiões façam mais sentido.

Quais são as questões mais intrigantes da cosmologia ainda sem resposta? Eu tenho uma lista de oito questões, que divido em dois grupos. O primeiro se refere a coisas que devem ser verdadeiras, mas não conseguimos explicar. São elas: a inflação do universo e o que a causou, o que são a matéria e a energia escura e o que gerou a assimetria entre matéria e antimatéria. O outro grupo envolve acontecimentos possíveis, mas dos quais não se tem certeza. Os principais são a existência de outras dimensões, a comprovação de que as constantes fundamentais da física, como a gravidade, são ou não são constantes, se há forças desconhecidas que regem o universo. Por fim, saber se há fenômenos que existem desde o nascimento do universo e não tenham ainda sido descobertos.

O que o experimento com o LHC poderá acrescentar ao que sabemos sobre o universo? Espero que o LHC forneça pistas sobre outras dimensões. A associação dessas descobertas com aquelas que se fazem do espaço talvez torne possível entender melhor a matéria escura. Estou confiante em que descobertas excitantes estão prestes a ser feitas. Outra contribuição será o lançamento do satélite europeu Planck, nos próximos meses. É a segunda geração após o Cobe, satélite que forneceu evidências cruciais do Big Bang. O LHC reproduzirá um estágio muito primitivo do universo, quando era muito menor, mais quente e denso do que é hoje. O calor fornece energia e o LHC pretende chegar ao maior nível de acumulo energético que já se conseguiu artificialmente. Essas condições facilitam a análise tanto das forças que regem o universo quanto de seus componentes. O LHC e o satélite são duas formas diferentes e complementares de estudar a mesma coisa. Um será em nível microscópico; o outro, em macroscópico. Os primeiros resultados saem no ano que vem. Portanto, ainda vai demorar algum tempo até que possamos ter uma idéia mais completa de quais avanços faremos.

Quais seriam as conseqüências do insucesso do LHC? Minha preocupação é que um fracasso possa inibir investimentos em outros grandes projetos como esse. Por isso torço tanto para que o acelerador forneça evidências de que outras dimensões podem ser acessadas. Seria atraente para o público em geral, e isso bastaria para justificar o investimento.

Em que porcentagem se conhece o universo? É possível que esse conhecimento seja menor que 1% ou de até 85%, se se levar em conta o universo observável. Pode variar drasticamente. O conhecimento do universo é semelhante ao do cérebro humano. Sabe-se bastante sobre determinadas regiões e funções e absolutamente nada sobre outras. Algumas partes, como o início do universo, são razoavelmente conhecidas. Mas isso não exclui a possibilidade de que existam informações às quais ainda não temos acesso e de cuja existência nem sequer desconfiamos. Para ser sincero, acho que, em muitas áreas, não se tem a mínima idéia das perguntas a fazer. Como cientista, prefiro acreditar que o universo é muito simples, pois, se fosse complicado demais, nossas chances de entendê-lo seriam mínimas.

Algumas pessoas temem que o LHC crie buracos negros que engolirão a Terra. Esse temor faz sentido? Não é a primeira vez que se diz isso sobre um experimento científico. Desta vez, o eco é maior, pois o LHC lidará com níveis de energia maiores, que têm chance de mostrar até dimensões extras. Se isso de fato acontecer, a probabilidade de aparecerem buracos negros será enorme. No entanto, o perigo é mínimo, já que eles desapareceriam rapidamente. Na Argentina, onde fica o Observatório Pierre Auger, são captados raios cósmicos cuja concentração de energia também poderia produzir buracos negros.
Mas isso não acontece. A verdade é que as novidades sempre causam preocupação. É possível que, quando o fogo começou a ser usado, tenham pensado que ele poderia incendiar o planeta inteiro se fosse aceso.

Qual é a melhor teoria para explicar o que havia antes do Big Bang? A mais simples me parece a melhor. Um campo como o de energia escura, só que muito mais intenso do que hoje, teria causado a inflação inicial do universo. É como se uma pessoa tivesse uma bola comprimida nas mãos que houvesse se aberto e começado a dispersar seu conteúdo com grande velocidade. Depois, começou a se desacelerar e, mais tarde, a acelerar de novo. Esse modelo permite prever comportamentos e fenômenos que ocorreram no universo.

O senhor acredita que existe vida fora da Terra? Minha aposta é que a vida na Terra se formou o mais rápido que pôde e que isso teria se reproduzido em outros lugares, talvez até originando formas de vida inusitadas, diferentes das que conhecemos e procuramos. Uma única galáxia parecida com a nossa pode ter 100 bilhões de estrelas. Provavelmente, se entendêssemos mais sobre a inflação do universo, encontraríamos um número absurdamente maior de estrelas, talvez infinito. Essa vastidão já é um indicador de que a probabilidade de outras civilizações existirem é enorme. Acredito que haja entre dez e 22 civilizações inteligentes no universo.

Existem várias teorias sobre o fim do universo. Qual é a sua preferida? Em primeiro lugar, será solitário. O universo está se acelerando numa velocidade tão grande que as distâncias entre as galáxias aumentam rapidamente. É possível que as estrelas de nossa galáxia se apaguem e a luz de outras não consiga nos alcançar. Por outro lado, é possível que a energia escura passe por uma transição e, em vez de afastar os planetas, faça com que eles se juntem. Então, haveria um grande choque. É possível que tudo se refaça, ciclicamente.
Mas não é algo tão trivial quanto parece. Seria preciso retornar ao ponto em que a inflação aconteceu e colocar tudo de volta no lugar original, até mesmo a energia escura.

O que mudou em sua vida depois que o senhor comprovou a veracidade da teoria do Big Bang? Fiquei famoso, escrevi um livro, ganhei um Nobel e agora minhas palestras vivem lotadas. Também passei a ter contato com pessoas influentes de todos os lugares do mundo. Nesta semana vou encontrar a presidente do Chile.
Na próxima, verei o rei da Jordânia. São coisas que não aconteciam antes.



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