O dono da maior rede
de lojas do país fala dos sonhos de consumo dos brasileiros
de baixa renda e diz: eles adoram produtos de marca
Monica Weinberg
Lailson Santos
"Não
existe mais no Brasil
aquela classe C a quem se
podia vender um produto
ordinário que ela comprava"
Pouca gente entende
tão bem dos gostos e hábitos da classe C brasileira
quanto o empresário Michael Klein, 57 anos. Ele aprendeu
o que sabe nas Casas Bahia, empresa onde trabalha desde os 18
anos e que comanda há três. Trata-se da primeira
rede de varejo no Brasil a mirar sobretudo a classe C, ainda
na década de 50. No ano passado, as lojas de Michael
faturaram 13 bilhões de reais, mais do que todos os concorrentes
juntos. Por seu sucesso, a fórmula para vender aos estratos
de renda mais baixos, aplicada na rede de 560 lojas esparramadas
em dez estados, tornou-se objeto de estudo nas melhores escolas
de negócios do mundo, entre elas a da Universidade Harvard.
Boa parte das estratégias foi concebida por seu pai,
Samuel Klein, hoje com 85 anos, que deixou a Alemanha no pós-guerra
juntamente com Michael, então com 1 ano. Depois de trabalhar
como mascate, Samuel abriu a primeira de suas lojas em São
Caetano do Sul, onde fica o escritório do filho. Não
é tão fácil encontrar Michael por lá.
Dia sim, dia não, ele visita uma loja diferente. Casado
pela segunda vez e pai de dois filhos, Michael deu a VEJA a
seguinte entrevista.
Veja A nova
classe C é muito diferente daquela que freqüentava
as lojas cinqüenta anos atrás? Klein Sem dúvida.
Uma diferença fundamental diz respeito à primeira
pergunta feita pelo cliente ao entrar na loja. No passado, ela
era sempre a mesma: "Moço, o que vocês têm
de mais barato aí?". O preço era o que, de
longe, mais definia a compra, ainda que o produto em questão
fosse de baixa qualidade. Hoje, as pessoas não só
ambicionam comprar uma TV maior ou uma geladeira nova como querem
uma boa marca e já conhecem todas. Isso tem evidente
relação com a expansão do crédito,
que lhes permite gastar mais, mas também se deve a uma
mudança fundamental na classe C: ela está muito
mais informada e instruída. Na década de 60, havia
40% de analfabetos no Brasil. O número caiu para 10%.
Essas pessoas, naturalmente, se tornaram mais exigentes. Não
é mais aquela classe C a quem podíamos oferecer
o produto mais ordinário que ela comprava.
Veja Que
tipo de artigo costumava atrair a classe C e hoje deixou de
fazer sucesso? Klein Além
de caçar pechinchas, outro padrão do passado era
optar pelo produto maior e mais vistoso. As pessoas levavam
para casa caixas de som gigantescas achando que tamanho conferia
status e significava qualidade, quando era justamente o contrário.
De um colchão, elas queriam saber apenas da espessura:
era a filosofia do quanto mais alto melhor. Não se importavam
se ele era ortopédico ou se tinha boa espuma. Hoje, fogem
desses produtos e se pautam por critérios bem mais objetivos
na hora de tomar uma decisão. Surpreende o grau de sofisticação
das variáveis que elas pesam no momento da compra. A
questão ambiental, por exemplo, começou a preocupar
a classe C no Brasil. É comum que perguntem: "Vem
cá, que tipo de gás essa geladeira libera?".
A lição que se extrai disso é simples
e só quem a entende vai conseguir vender para gente de
baixa renda: esses brasileiros já almejam o melhor.
Veja Diante
desse cenário, que adaptações o senhor
precisou fazer em seu negócio? Klein Decidi inverter
a lógica nas prateleiras. Trinta anos atrás, apenas
20% dos produtos tinham uma boa marca. Hoje é o contrário.
Ao longo do tempo, vender móveis e eletrônicos
de baixa qualidade à classe C demonstrou ser um mau negócio
por uma razão bem prática: os produtos quebravam
enquanto as pessoas ainda não haviam quitado suas prestações
e elas desistiam de continuar a pagar a dívida
na mesma hora. Quando perguntadas sobre a motivação
para o calote, afirmavam coisas do tipo: "Se esse som não
toca nada, não vou pagar por ele". Com a experiência,
aprendi que vender artigos ruins só faz aumentar a inadimplência.
Veja O que
explica o fato de as taxas de inadimplência serem menores
nas faixas de renda mais baixas do que nas classes A e B? Klein Isso se
deve, basicamente, a uma necessidade das pessoas de classe C
de preservar o nome limpo. Sem isso, elas não conseguem
contrair novos empréstimos nem arranjar emprego. Afinal
de contas, ninguém quer contratar um mau pagador. Já
nos estratos de renda mais altos, a história é
outra. Trata-se de pessoas para as quais, por ter patrimônio
e alguma renda, o acesso ao crédito não é
tão definidor. O pensamento típico delas é:
"Como estou vivendo bem, limpo meu nome quando der".
Elas não têm o senso de urgência. Já
para os consumidores de classe C, o nome é praticamente
tudo o que têm, daí a maior propensão para
saldarem suas dívidas. Não é por outra
razão que as taxas de inadimplência no crediário,
forma de pagamento preferencial das faixas de renda mais baixas,
giram em torno de 10% cerca de metade daquela registrada
em cartões de crédito e cheques especiais, usados
sobretudo pelas classes A e B.
Veja Como
evitar os maus pagadores? Klein Muita gente
ainda acha que se resolve o problema negando crédito
a quem não tem como comprovar renda. Isso espanta todos
os brasileiros que trabalham na informalidade metade
da população ativa e não se vai
à raiz da questão. O fato é que, com ou
sem comprovante de renda, essas pessoas não vivem com
muito dinheiro e precisam ser assessoradas na hora da compra
para não gastar mais do que têm. Não adianta
empurrar uma TV de plasma para alguém que ganha dois
salários mínimos por mês. Por essa razão,
os vendedores nesse meio devem funcionar como uma espécie
de consultor. É deles a missão de chamar a atenção
para a prateleira certa, aquela em que estão dispostos
produtos compatíveis com o orçamento de cada cliente.
Essa é, sem dúvida, uma técnica eficaz
para diminuir a inadimplência. A outra diz respeito à
entrevista que precede a aprovação do crédito,
peça-chave num negócio como esse.
Veja Como,
numa entrevista, é possível distinguir um bom
de um mau pagador? Klein Mesmo o
comerciante mais amador já sabe: cliente que mente tem
menos probabilidade de pagar. Esse aprendizado tão elementar
no varejo deve estar na base de qualquer entrevista para concessão
de crédito. A que fazemos nas lojas é justamente
para flagrar as pessoas numa eventual mentira. As perguntas
chamam a atenção pela trivialidade. Indagamos
a alguém que se apresenta como pintor, por exemplo, quantos
galões de tinta são necessários para cobrir
uma parede. Se ele demonstrar total ignorância em relação
ao assunto, temos um problema. Esse tipo de entrevista não
dura mais de dez minutos. O importante é ter funcionários
treinados para rastrear os mentirosos. Com isso, reduzem-se
os riscos de inadimplência e é possível
conceder crédito a quem não tem como comprovar
renda. No nosso caso, essas pessoas já respondem por
dois terços das vendas.
Veja O que
a classe C mais compra? Klein O
item mais vendido nas lojas é o celular. Foram 3,6 milhões
de aparelhos só no ano passado. As pesquisas mostram
que muita gente de classe C compra celular porque a rede fixa
ainda não chegou aos lugares em que vive, seja nas zonas
rurais, seja na periferia de grandes cidades. Curiosamente,
essas pessoas sujeitas a condições de moradia
tão precárias não procuram um modelo simples.
Querem, ao contrário disso, um celular com câmera.
É um claro contraste em relação à
classe C do passado. No Brasil dos anos 50, o grande hit eram
os colchões de espuma. O sonho das pessoas era se livrar
de seus velhos modelos à base de palha ou daqueles de
molas barulhentas. Muitas entravam na loja se queixando de dor
nas costas. As mudanças de lá para cá são,
também, um sinal de como o país evoluiu.
Veja O
que jamais muda no padrão de consumo das faixas de renda
mais baixas? Klein A
atração por móveis de verniz sobreviveu
intacta às décadas. Bote brilho num armário
e ele venderá como água. Ao pesquisar as razões
disso, cheguei a uma conclusão interessante: além
de "embelezar", essas pessoas atribuem ao verniz um
efeito de limpeza, algo que prezam acima de tudo. Também
amam portas espelhadas. Passamos a vender muito mais desde que
tomamos a decisão de trocar enfeites por espelhos nos
armários. Eles fazem tanto sucesso porque conferem amplitude
às casas populares, nas quais os cômodos são
cada vez mais espremidos. Espelhos e móveis envernizados
também dão certa sensação de status,
tanto quanto a cozinha planejada. Ela lembra a da classe A.
O que muda é o material.
Veja Para
seu negócio, quais são os efeitos da expansão
acelerada da classe C? Klein Aparecem
nas lojas 3 milhões de novos clientes por ano desde 2003,
o que não é pouco. Por outro lado, há mais
gente no Brasil mirando a classe C pessoas que, antes,
não viam muito atrativo nesse público. A concorrência,
portanto, aumentou. Mas é preciso ressaltar que ela melhorou
de nível. Digo isso porque no setor em que atuo predominava
a informalidade. Ele era tomado por pequenos comerciantes que
conseguiam oferecer preços mais baixos por causa da sonegação
de impostos. Essa não é uma prática totalmente
extinta no setor, mas a situação avançou
muito depois do surgimento de outras redes de varejo, com as
quais passamos a competir em igualdade de condições.
Veja Vocês
estão perdendo mercado para algumas delas? Klein A guerra
pela classe C nunca esteve tão acirrada e, evidentemente,
gente que poderia estar comprando nas minhas lojas acaba na
concorrência. Outra questão é que os brasileiros
de renda mais baixa estão às voltas com muitos
sonhos de consumo, entre eles o de comprar a casa própria.
A competição que enfrento hoje, portanto, não
é apenas entre lojas populares de móveis ou eletrodomésticos.
O interessante em negócios como o meu, no entanto, é
que eles acabam se beneficiando mesmo quando as pessoas preferem
investir na compra de uma casa. Será uma questão
de tempo para que apareçam nas lojas à procura
de novos eletrodomésticos. Num país que cresce,
o mercado só estica.
Veja O PIB
do Nordeste cresce a um ritmo duas vezes maior que a média
brasileira e algumas redes de varejo começam a
se beneficiar disso. É um erro não estar lá?
Klein Nunca
tive lojas no Nordeste por causa de uma conta simples: os custos
com a logística para fazer entregas a 2 000 quilômetros
de distância dos nossos fornecedores não compensariam
o fato de os nordestinos gastarem no varejo, ainda hoje, a metade
do que gastam as pessoas no Sul ou no Sudeste. O faturamento
não justificaria o investimento. Essa é a situação
atual, mas ela está mudando rapidamente. Com taxas de
crescimento tão altas, posso afirmar: será uma
questão de tempo chegarmos ao Nordeste.
Veja O senhor
está preocupado com a inflação? Klein Sem dúvida.
Ela é um freio de mão. Basta dizer que, quando
crescia na casa dos dois dígitos, tínhamos 150
lojas. Com a inflação controlada, esse número
quadruplicou. Em três meses de Plano Real, passamos a
vender sete vezes mais. Algo parecido se passou no restante
do varejo. O fenômeno tem relação direta
com o que aconteceu na vida das pessoas: a inflação
deixou de lhes corroer o salário e começou a sobrar
mais dinheiro no fim do mês. O impulso para comprar veio
ainda de outro efeito positivo do fim da inflação:
o valor das prestações diminuiu. Divido a história
de meu negócio em antes e depois dela. Todos os empresários
brasileiros tiveram de se profissionalizar para sobreviver num
ambiente sem inflação.
Veja Por
que o senhor diz isso? Klein A inflação
maquiava os erros. Se um empresário negociava mal uma
compra com os fornecedores, resolvia o problema aumentando o
preço da mercadoria na loja. Todo mundo perdia. De um
lado, eles vendiam menos. De outro, um número menor de
pessoas tinha acesso a certos produtos. Minha convivência
com empresários brasileiros mostra que só agora
eles dão sinais de ter aprendido o básico: fazer
uma análise objetiva de custos e conferir às mercadorias
o valor correto.
Veja Quarenta
por cento de seu faturamento se deve aos financiamentos. O senhor
não acha os juros cobrados em suas lojas extorsivos? Klein Não.
Extorsão é coisa de agiota, que cobra 10% ao mês
de juros por um empréstimo. Eu cobro 4%. Isso é
alto? Em relação à média brasileira,
não. Emprestar dinheiro no Brasil é, afinal, um
bom negócio caso contrário, não
estaria nele. Mas a classe C também se beneficia disso:
sem essa possibilidade, não estaria conseguindo comprar
tanto.
Veja Quais
perspectivas o senhor vê para empresas como a sua no Brasil?
Klein Nunca foi
tão bom fazer negócio no país e
só melhora: as instituições funcionam,
a economia é razoavelmente previsível e o PIB
cresce. Não quer dizer que antigos problemas não
continuem a atrapalhar, como o excesso de impostos e os altos
encargos trabalhistas. No trabalho, incomoda-me ainda a sensação
de insegurança que tenho ao visitar as lojas, o que faço
dia sim, dia não. Tenho medo de ser vítima de
assalto e seqüestro. Como medida preventiva, evito andar
em carros caros demais. Dependendo do lugar, escolho até
um modelo com proteção antifuzil. É bem
raro sair de casa sem a escolta de seguranças. Às
vezes, ando com seis deles. Pode parecer exagero de rico, mas
circulo muito e não quero correr riscos.
Veja Seus
amigos freqüentam as lojas? Klein Já
tiveram preconceito. Hoje, fazem uma pesquisa de preço
e, caso o nosso seja menor, vão lá e compram.
Eles querem ser recebidos com tapete vermelho, mas estão
longe de ser os únicos. É exatamente essa a expectativa
da nova classe C.