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Auto-retrato Paulo
Blikstein Arquivo
pessoal
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Aos
35 anos, o engenheiro Paulo Blikstein acaba de conquistar algo inédito
para um brasileiro: ser o primeiro colocado de sua área em cinco dos mais
cobiçados concursos para professor do mundo, entre eles os das universidades
de Harvard, Stanford e Berkeley. Formado pela Universidade de São Paulo,
Blikstein é especialista em tecnologia aplicada à educação.
Dos Estados Unidos, onde mora há oito anos, ele falou à repórter
Camila Pereira.
Como o senhor conseguiu
se destacar de seus colegas nos concursos? Estudo quinze horas por dia
há pelo menos dez anos e publiquei 25 artigos em revistas científicas,
o que foi decisivo. Também investi muito tempo durante o processo de seleção.
Ensaiei dois meses em frente a platéias de amigos para preparar o que diria
aos avaliadores. Não sou um gênio. Só trabalhei duro. Por
que o senhor optou por seguir carreira nos Estados Unidos? É o
país onde estão alguns dos melhores centros de pesquisa do planeta
e o que mais recebe cientistas estrangeiros. Certa vez, desenvolvi um software
e o coloquei no site do MIT. Em questão de horas, comecei a receber e-mails
de gente do mundo todo. Além disso, nas universidades dos Estados Unidos
há um sistema consolidado de reconhecimento ao mérito. O
senhor já foi beneficiado por ele? Eu e todos os outros que avançam
em suas pesquisas somos prestigiados e recebemos mais dinheiro. Por outro lado,
os pesquisadores picaretas são facilmente identificados e banidos. Existem
mecanismos objetivos e rigorosos para avaliar a produtividade no meio acadêmico.
Quais são eles? Ao
ser contratado por uma universidade americana, o professor tem um prazo de sete
anos para mostrar a que veio. No fim desse período, uma comissão
de pesquisadores avalia cada linha de seu histórico profissional: quantas
disciplinas lecionou, o número de artigos científicos que publicou
e o impacto do trabalho em determinada área do conhecimento. Só
aí o professor ganha o status de livre-docente. Se falhar, é demitido.
O que o fez passar da engenharia
à área de tecnologia aplicada à educação?
Ainda na faculdade de engenharia, intrigava-me o fato de que bons alunos não
conseguiam aprender o básico. A razão era óbvia: o ensino
de ciências se baseava na decoreba de fórmulas e axiomas. Ensinamos
no século XXI uma ciência do século XIX. Parte do meu trabalho
é justamente voltada a aplicar novas tecnologias na sala de aula de modo
a tornar o aprendizado mais vibrante. Por
que tantos especialistas brasileiros tentam mudar o cenário nas escolas,
mas a educação avança tão lentamente? Embora
muita gente bem-intencionada queira transformar a educação no Brasil,
a maioria ainda se baseia em platitudes e achismos. A essas pessoas, falta o básico:
dados e metas. Antes de fundarem uma ONG, elas deveriam estudar estatística. O
senhor já decidiu em que universidade vai lecionar? Não.
São todas instituições nas quais sempre sonhei ensinar. Para
tornar minha escolha ainda mais difícil, os chefes de departamento ligam
a toda hora melhorando a oferta inicial, algo semelhante ao que ocorre na disputa
por um profissional na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, a competição
entre universidades é para valer. O
senhor tem planos de voltar para o Brasil? Certamente. Por enquanto, meu
projeto é criar na universidade onde estiver um centro especializado em
educação brasileira, com o objetivo de dar alguma base científica
a quem até hoje se guiou pela própria intuição.
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