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Edição 2066

25 de junho de 2008
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Auto-retrato
Paulo Blikstein

Arquivo pessoal


Aos 35 anos, o engenheiro Paulo Blikstein acaba de conquistar algo inédito para um brasileiro: ser o primeiro colocado de sua área em cinco dos mais cobiçados concursos para professor do mundo, entre eles os das universidades de Harvard, Stanford e Berkeley. Formado pela Universidade de São Paulo, Blikstein é especialista em tecnologia aplicada à educação. Dos Estados Unidos, onde mora há oito anos, ele falou à repórter Camila Pereira.

Como o senhor conseguiu se destacar de seus colegas nos concursos?
Estudo quinze horas por dia há pelo menos dez anos e publiquei 25 artigos em revistas científicas, o que foi decisivo. Também investi muito tempo durante o processo de seleção. Ensaiei dois meses em frente a platéias de amigos para preparar o que diria aos avaliadores. Não sou um gênio. Só trabalhei duro.

Por que o senhor optou por seguir carreira nos Estados Unidos?
É o país onde estão alguns dos melhores centros de pesquisa do planeta e o que mais recebe cientistas estrangeiros. Certa vez, desenvolvi um software e o coloquei no site do MIT. Em questão de horas, comecei a receber e-mails de gente do mundo todo. Além disso, nas universidades dos Estados Unidos há um sistema consolidado de reconhecimento ao mérito.

O senhor já foi beneficiado por ele?
Eu e todos os outros que avançam em suas pesquisas somos prestigiados e recebemos mais dinheiro. Por outro lado, os pesquisadores picaretas são facilmente identificados e banidos. Existem mecanismos objetivos e rigorosos para avaliar a produtividade no meio acadêmico.

Quais são eles?
Ao ser contratado por uma universidade americana, o professor tem um prazo de sete anos para mostrar a que veio. No fim desse período, uma comissão de pesquisadores avalia cada linha de seu histórico profissional: quantas disciplinas lecionou, o número de artigos científicos que publicou e o impacto do trabalho em determinada área do conhecimento. Só aí o professor ganha o status de livre-docente. Se falhar, é demitido.

O que o fez passar da engenharia à área de tecnologia aplicada à educação?
Ainda na faculdade de engenharia, intrigava-me o fato de que bons alunos não conseguiam aprender o básico. A razão era óbvia: o ensino de ciências se baseava na decoreba de fórmulas e axiomas. Ensinamos no século XXI uma ciência do século XIX. Parte do meu trabalho é justamente voltada a aplicar novas tecnologias na sala de aula de modo a tornar o aprendizado mais vibrante.

Por que tantos especialistas brasileiros tentam mudar o cenário nas escolas, mas a educação avança tão lentamente?
Embora muita gente bem-intencionada queira transformar a educação no Brasil, a maioria ainda se baseia em platitudes e achismos. A essas pessoas, falta o básico: dados e metas. Antes de fundarem uma ONG, elas deveriam estudar estatística.

O senhor já decidiu em que universidade vai lecionar?
Não. São todas instituições nas quais sempre sonhei ensinar. Para tornar minha escolha ainda mais difícil, os chefes de departamento ligam a toda hora melhorando a oferta inicial, algo semelhante ao que ocorre na disputa por um profissional na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, a competição entre universidades é para valer.

O senhor tem planos de voltar para o Brasil?
Certamente. Por enquanto, meu projeto é criar na universidade onde estiver um centro especializado em educação brasileira, com o objetivo de dar alguma base científica a quem até hoje se guiou pela própria intuição.



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