Edição 1808 . 25 de junho de 2003

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A Comilança: não ficou datado


A Comilança
(La Grande Bouffe, França/Itália, 1973. Versátil) – Um grupo de amigos se reúne numa casa de campo – onde há comida e prostitutas à farta – com um único objetivo: cair na gandaia e se empanturrar até morrer. A partir desse mote algo absurdo, o diretor italiano Marco Ferreri produziu um dos filmes mais originais e contundentes do começo dos anos 70. A Comilança é uma metralhadora que atira contra o materialismo e o chauvinismo, dois dos pilares da visão de mundo burguesa – um tipo de libelo político muito em voga no cinema da época. Mas o filme vai além do aspecto provocativo, e não ficou nem um pouco datado. O trunfo de Ferreri é um quarteto de atores para ninguém botar defeito: Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Philippe Noiret. Eles dão uma aula de como combinar humor e cinismo da forma mais chamuscante.

Matador em Conflito (Grosse Pointe Blank, Estados Unidos, 1997. Buena Vista) – A certa altura de Matador em Conflito, o protagonista Martin Q. Blank conta a seu analista que assassinar o presidente do Paraguai com um garfo já não lhe provoca tanto prazer quanto no início da carreira. A cena é hilariante e dá idéia do tipo de humor que move essa comédia. Matador de aluguel entediado e em crise existencial, Blank faz um ajuste de contas com seu presente e seu passado ao voltar à sua cidade natal para uma festa de reencontro de sua turma de escola, dez anos depois da formatura. O filme é um dos melhores que o americano John Cusack já fez – além de encarnar o personagem central, o ator responde pelo roteiro e pela trilha sonora. Esta última, composta de pérolas do pop dos anos 80, é um show à parte.

 

LIVROS

Conclave, de John L. Allen Jr. (tradução de Maria Beatriz Medina; Record; 255 páginas; 35 reais) – Jornalista americano, o autor desse livro mora em Roma, acompanha o dia-a-dia da Santa Sé e vem firmando reputação como um bom vaticanista. Nesse livro, ele explica o funcionamento do Vaticano, quais as atribuições de um papa e as regras de um conclave, a assembléia secreta de cardeais que elege um pontífice. Allen também traça o perfil dos cardeais mais cotados para substituir João Paulo II no comando da Igreja Católica. É uma lista que está de acordo com as dos vaticanistas mais reputados da Itália. Leitura de fácil digestão e muito informativa.

O Acorde de Tristão, de Hans-Ulrich Treichel (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 157 páginas; 28,50 reais) – Um dos mais aclamados escritores alemães da atualidade, Treichel satiriza o mundo das artes nesse romance curto. O protagonista do livro é Georg, um jovem alemão provinciano que acaba de se formar em literatura e tem a sorte de receber de uma editora a incumbência de revisar a autobiografia de um gênio (fictício) da música erudita, o compositor Bergmann. Graças a esse trabalho, ele ganha a oportunidade de observar – das margens, é claro – a elite cultural. Porções do enredo passam-se na Escócia, na Sicília e em Nova York – onde o deslumbramento de Georg atinge seu ápice e fornece material para Treichel refletir sobre as diferenças entre a América e a Europa. Leia trechos do livro.

O Sonho de Cipião, de Iain Pears (tradução de Ana Luíza Dantas Borges; Objetiva; 400 páginas; 52,90 reais) – Além de escritor, o inglês Iain Pears é ensaísta e historiador da arte – e se vale de toda a sua erudição na hora de conceber seus romances. Em O Sonho de Cipião, ele narra as trajetórias de três personagens fictícios que habitaram a região francesa da Provença em épocas diferentes. As vidas deles são ligadas pelo tratado filosófico que dá título ao livro. Um dos protagonistas é um aristocrata do século V, que assiste com amargura à queda do Império Romano. Outro, um poeta da Idade Média assolada pela peste negra. O terceiro, por fim, é um intelectual que se alia aos colaboracionistas do nazismo, durante a ocupação da França na II Guerra Mundial. Cada um deles se vê diante de um dilema – e a partir disso Pears faz uma reflexão sobre as grandes escolhas da existência.

 

DISCOS

 
Divulgação
Electric Six: estilo "heavy disco"  

Fire, Electric Six (Sum) – Natural de Detroit, Estados Unidos, esse quinteto soa como um cruzamento entre o Kiss e grupos de música disco – seu estilo, aliás, poderia ser batizado como "heavy disco". A exemplo dos metaleiros do Kiss, escondidos sob máscaras, os integrantes do Electric Six se ocultam sob pseudônimos esquisitos. Um dos guitarristas é The Rock-n-Roll Indian, e o baterista atende por M. Eles são autores de algumas das canções mais dançantes e irreverentes da atualidade – o que fica claro nas duas faixas de trabalho do álbum. Danger! High Voltage é o tipo de música capaz de levantar o astral de qualquer festa. Gay Bar, por sua vez, fala de dois governantes que tramam uma guerra nuclear num boteco. Puro nonsense.

Hoje Lembrando, Inezita Barroso (Trama) – A cantora paulistana de 78 anos lançou cerca de oitenta discos, mas há décadas que ela não mostrava um trabalho tão bem-cuidado e à altura de seu talento. O repertório de Hoje Lembrando foi escolhido por Inezita e pelo produtor Fernando Faro (uma autoridade em MPB) e traz canções de Heitor Villa-Lobos, do compositor alagoano Hekel Tavares (conhecido pelo epíteto de "Schubert brasileiro", por causa de suas melodias bem buriladas) e duas preciosidades. São as faixas Bem Iguais e Recompensa, compostas por Paulo Vanzolini nos anos 50 e das quais nem ele mesmo tinha registro. Outro destaque é a participação do violonista Théo de Barros, cujos arranjos combinam perfeitamente com o vozeirão de Inezita.

 
Literatura Brasileira

Uma Rosa para Púchkin
Mario Lorenzi
Códex
191 páginas; 26 reais


Mario Sabino

A memorialística é um gênero literário praticamente inexistente no Brasil. Os empreendimentos isolados, como as memórias de Pedro Nava, não são suficientes para compor uma tradição. Uma das razões para essa lacuna é, possivelmente, o pudor de nossos autores de expor-se, visto que, para pintar um painel de uma época da qual se foi protagonista, é necessário emitir opiniões nem sempre agradáveis e colocar-se no seu devido lugar – o que pode estilhaçar auto-imagens lustradas pelo compadrio ou pela adulação pura e simples, um de nossos esportes nacionais. Perdem-se, assim, ótimas oportunidades de saber, a partir do ponto de vista dos atores principais, como chegamos (e também como não chegamos) a determinados patamares, seja na política, na economia ou na cultura. O que há por aqui são memórias exclusivamente afetivas, desambiciosas no plano intelectual e de âmbito regional, que se apresentam ora sob a forma de crônicas, ora sob as vestes do conto "à clef". A partir dos dados e impressões nelas garimpados, é possível montar um panorama interessante, ainda que restrito, de um certo período. Exemplo desse tipo de iniciativa é Uma Rosa para Púchkin, de Mario Lorenzi. Personagem de uma São Paulo marcada pela italianidade, ele reúne nesse volume, muitas vezes sob o manto da ficção, reminiscências de sua vida pendular, entre Europa e América do Sul. Gracioso no estilo, sutil na observação do cotidiano burguês, Lorenzi, com Uma Rosa para Púchkin, oferece um instante de delicadeza ao leitor.

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
 
 
 
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