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VEJA
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| A
Comilança: não
ficou datado |
A Comilança (La Grande Bouffe, França/Itália,
1973. Versátil) Um grupo de amigos se reúne
numa casa de campo onde há comida e prostitutas à
farta com um único objetivo: cair na gandaia e se
empanturrar até morrer. A partir desse mote algo absurdo,
o diretor italiano Marco Ferreri produziu um dos filmes mais originais
e contundentes do começo dos anos 70. A Comilança
é uma metralhadora que atira contra o materialismo e
o chauvinismo, dois dos pilares da visão de mundo burguesa
um tipo de libelo político muito em voga no cinema
da época. Mas o filme vai além do aspecto provocativo,
e não ficou nem um pouco datado. O trunfo de Ferreri é
um quarteto de atores para ninguém botar defeito: Marcello
Mastroianni, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Philippe Noiret. Eles
dão uma aula de como combinar humor e cinismo da forma mais
chamuscante.
Matador
em Conflito (Grosse Pointe Blank, Estados Unidos,
1997. Buena Vista) A certa altura de Matador em Conflito,
o protagonista Martin Q. Blank conta a seu analista que assassinar
o presidente do Paraguai com um garfo já não lhe provoca
tanto prazer quanto no início da carreira. A cena é
hilariante e dá idéia do tipo de humor que move essa
comédia. Matador de aluguel entediado e em crise existencial,
Blank faz um ajuste de contas com seu presente e seu passado ao
voltar à sua cidade natal para uma festa de reencontro de
sua turma de escola, dez anos depois da formatura. O filme é
um dos melhores que o americano John Cusack já fez
além de encarnar o personagem central, o ator responde pelo
roteiro e pela trilha sonora. Esta última, composta de pérolas
do pop dos anos 80, é um show à parte.
LIVROS
Conclave,
de John L. Allen Jr. (tradução de Maria Beatriz Medina;
Record; 255 páginas; 35 reais) Jornalista americano,
o autor desse livro mora em Roma, acompanha o dia-a-dia da Santa
Sé e vem firmando reputação como um bom vaticanista.
Nesse livro, ele explica o funcionamento do Vaticano, quais as atribuições
de um papa e as regras de um conclave, a assembléia secreta
de cardeais que elege um pontífice. Allen também traça
o perfil dos cardeais mais cotados para substituir João Paulo
II no comando da Igreja Católica. É uma lista que
está de acordo com as dos vaticanistas mais reputados da
Itália. Leitura de fácil digestão e muito informativa.
O
Acorde de Tristão, de Hans-Ulrich Treichel (tradução
de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 157 páginas; 28,50
reais) Um dos mais aclamados escritores alemães da
atualidade, Treichel satiriza o mundo das artes nesse romance curto.
O protagonista do livro é Georg, um jovem alemão provinciano
que acaba de se formar em literatura e tem a sorte de receber de
uma editora a incumbência de revisar a autobiografia de um
gênio (fictício) da música erudita, o compositor
Bergmann. Graças a esse trabalho, ele ganha a oportunidade
de observar das margens, é claro a elite cultural.
Porções do enredo passam-se na Escócia, na
Sicília e em Nova York onde o deslumbramento de Georg
atinge seu ápice e fornece material para Treichel refletir
sobre as diferenças entre a América e a Europa. Leia
trechos do livro.
O
Sonho de Cipião, de Iain Pears (tradução
de Ana Luíza Dantas Borges; Objetiva; 400 páginas;
52,90 reais) Além de escritor, o inglês Iain
Pears é ensaísta e historiador da arte e se
vale de toda a sua erudição na hora de conceber seus
romances. Em O Sonho de Cipião, ele narra as trajetórias
de três personagens fictícios que habitaram a região
francesa da Provença em épocas diferentes. As vidas
deles são ligadas pelo tratado filosófico que dá
título ao livro. Um dos protagonistas é um aristocrata
do século V, que assiste com amargura à queda do Império
Romano. Outro, um poeta da Idade Média assolada pela peste
negra. O terceiro, por fim, é um intelectual que se alia
aos colaboracionistas do nazismo, durante a ocupação
da França na II Guerra Mundial. Cada um deles se vê
diante de um dilema e a partir disso Pears faz uma reflexão
sobre as grandes escolhas da existência.
DISCOS
Divulgação
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| Electric
Six: estilo "heavy disco" |
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Fire,
Electric Six (Sum) Natural de Detroit, Estados Unidos, esse
quinteto soa como um cruzamento entre o Kiss e grupos de música
disco seu estilo, aliás, poderia ser batizado como
"heavy disco". A exemplo dos metaleiros do Kiss, escondidos sob
máscaras, os integrantes do Electric Six se ocultam sob pseudônimos
esquisitos. Um dos guitarristas é The Rock-n-Roll Indian,
e o baterista atende por M. Eles são autores de algumas das
canções mais dançantes e irreverentes da atualidade
o que fica claro nas duas faixas de trabalho do álbum.
Danger!
High Voltage é o tipo de música capaz
de levantar o astral de qualquer festa. Gay Bar, por sua
vez, fala de dois governantes que tramam uma guerra nuclear num
boteco. Puro nonsense.
Hoje
Lembrando, Inezita Barroso (Trama) A cantora paulistana
de 78 anos lançou cerca de oitenta discos, mas há
décadas que ela não mostrava um trabalho tão
bem-cuidado e à altura de seu talento. O repertório
de Hoje Lembrando foi escolhido por Inezita e pelo produtor
Fernando Faro (uma autoridade em MPB) e traz canções
de Heitor Villa-Lobos, do compositor alagoano Hekel Tavares (conhecido
pelo epíteto de "Schubert brasileiro", por causa de suas
melodias bem buriladas) e duas preciosidades. São as faixas
Bem Iguais e Recompensa, compostas por Paulo Vanzolini
nos anos 50 e das quais nem ele mesmo tinha registro. Outro destaque
é a participação do violonista Théo
de Barros, cujos arranjos combinam perfeitamente com o vozeirão
de Inezita.
| Literatura
Brasileira |
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Uma
Rosa para Púchkin
Mario
Lorenzi
Códex
191
páginas; 26 reais

Mario
Sabino
A
memorialística é um gênero literário
praticamente inexistente no Brasil. Os empreendimentos
isolados, como as memórias de Pedro Nava, não
são suficientes para compor uma tradição.
Uma das razões para essa lacuna é, possivelmente,
o pudor de nossos autores de expor-se, visto que, para
pintar um painel de uma época da qual se foi
protagonista, é necessário emitir opiniões
nem sempre agradáveis e colocar-se no seu devido
lugar o que pode estilhaçar auto-imagens
lustradas pelo compadrio ou pela adulação
pura e simples, um de nossos esportes nacionais. Perdem-se,
assim, ótimas oportunidades de saber, a partir
do ponto de vista dos atores principais, como chegamos
(e também como não chegamos) a determinados
patamares, seja na política, na economia ou na
cultura. O que há por aqui são memórias
exclusivamente afetivas, desambiciosas no plano intelectual
e de âmbito regional, que se apresentam ora sob
a forma de crônicas, ora sob as vestes do conto
"à clef". A partir dos dados e impressões
nelas garimpados, é possível montar um
panorama interessante, ainda que restrito, de um certo
período. Exemplo desse tipo de iniciativa é
Uma Rosa para Púchkin, de Mario Lorenzi.
Personagem de uma São Paulo marcada pela italianidade,
ele reúne nesse volume, muitas vezes sob o manto
da ficção, reminiscências de sua
vida pendular, entre Europa e América do Sul.
Gracioso no estilo, sutil na observação
do cotidiano burguês, Lorenzi, com Uma Rosa
para Púchkin, oferece um instante de delicadeza
ao leitor.
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