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PONTO
DE VISTA: Stephen Kanitz
Não
é fácil ser pai
"Todo
brasileiro tem duas famílias
para sustentar, a sua e o governo"
Se seu pai anda cansado, abatido, desmotivado e sem pique para conversar
com você, quero apontar uma das razões desse desânimo.
O Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)
acaba de realizar um estudo mostrando que a carga de impostos sobre
a população brasileira chegou a 41% do PIB, neste
primeiro trimestre de 2003. Nada a ver com o governo Lula, mas fruto
de leis anteriores. Quando você nasceu, dezoito anos atrás,
pagavam-se 20% do PIB em impostos. Mas esses valores não
contam toda a verdade. O IBGE inclui no seu cálculo do PIB
uma economia informal de 10%, na qual ninguém paga imposto.
Portanto, o correto seria dizer que a CARGA TRIBUTÁRIA é
de 45,5%, paga por 90% da população honesta. O governo
só recebe 41% porque 10% da população não
paga nada. Mas o drama não pára aí. Com a privatização
de empresas públicas, quem custeia hoje os investimentos
em telefonia, siderurgia, mineração, bancos, eletricidade
e pedágios é a população. Os impostos
deveriam ter diminuído com as economias da privatização,
mas isso não aconteceu.
Ilustração Ale Setti
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Em 1994, foi implantado um imposto sobre pequenas fortunas que ninguém
percebeu, nem aprovou, muito menos calcula. Todo contribuinte de
classe média tem de pagar todo ano de 15% a 20% sobre a inflação
incidente em cima do seu pequeno patrimônio, incluindo casa,
ações e aplicações financeiras. É
que desde 1994 não se corrigem mais os valores da declaração
de bens, e de lá para cá todos já estão
devendo 25% de seus bens para o Erário, pagos no dia em que
forem vendidos. Seu patrimônio tem os dias contados. Mas isso
deixarei para os tributaristas e os contadores comentarem.
Como a taxação da renda chegou ao limite do politicamente
aceitável, estudiosos estão recomendando taxar o patrimônio
da classe média via outro imposto. Inicialmente, um imposto
sobre as grandes fortunas e um aumento no imposto sobre herança
para 45%, além de aumentos do IPTU e da manutenção
da CPMF.
E tem mais: embora dívidas do governo não sejam consideradas
imposto, elas são recursos que o governo gasta hoje e que
você terá de saldar amanhã, com impostos futuros.
Essas dívidas aumentaram nos últimos anos entre 2%
e 4% ao ano. Se alguém fizer todas as contas, talvez chegue
à conclusão de que já ultrapassamos em muito
os 50% de taxação. E como sempre acontece com as médias,
metade da população paga acima dela. Nesse caso, quem
paga é a classe média. Rico tem paraíso fiscal,
pobre tem pouca renda para taxar. Seu pai talvez já esteja
na faixa dos 55%.
Todo brasileiro, portanto, tem duas famílias para sustentar,
a sua e o governo. Além dos impostos, seus pais têm
de pagar gastos com a saúde da família, a educação,
a segurança e a previdência privada, antes função
do Estado, e que segundo o mesmo estudo do IBPT aumentaram para
30% do PIB. Na Suécia, onde os impostos são elevados,
o Estado devolve esse valor em serviços.
Deduzindo tudo isso, mais os custos fixos da família, mais
os antidepressivos e o seu presente de Natal, não sobra nem
10% para o seu abnegado pai gastar egoisticamente com ele mesmo,
tomando um chope com os amigos de vez em quando.
Mas nem isso é possível, a classe média recebe
pedidos constantes das igrejas, das ONGs, inclusive meus, no sentido
de que doem 10% de sua renda para uma campanha ou para a filantropia.
Trabalhar para ficar com zero no fim do mês é muito
desanimador. Com o aumento da carga tributária, essas doações
foram, obviamente, as primeiras que a classe média reduziu.
Por isso, a fome aumentou e os nossos problemas sociais cresceram.
Razão pela qual mais impostos serão necessários.
Em resumo, seus pais trabalham que nem uns loucos para os outros.
Essa abnegação altruística, esse trabalho voluntário,
esse sacrifício para o bem público e da família
são dignos de um santo.
Você não precisa agradecer o sacrifício, nenhum
filho pediu para nascer, nem criou essa enxurrada de impostos. Mas,
em lugar de recriminá-lo pelas horas que ele trabalha, motive-o
de vez em quando. Beije-o cada vez que ele chegar em casa, abra
mão da sua mesada e agradeça todo dia pela sua luta
incansável em prol dos outros. Ele ficará extremamente
feliz. E estude bastante, porque um dia quem pagará esses
impostos será você.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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