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TELEVISÃO
O novelão de Giulia:
ser ou não ser?
A atriz Giulia Gam faz sucesso
como
a obsessiva Heloísa em
Mulheres
Apaixonadas. Mas longe
da
TV só interpreta papéis densos

Marcelo
Marthe
Selmy Yassuda
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| Giulia
Gam: ela "ficou" com o diretor Gerald Thomas e perdeu Tony Bellotto
para a amiga Malu Mader |
A
atriz Giulia Gam tem algo de Hamlet, o célebre personagem
de Shakespeare: vive dividida entre ser ou não ser. No começo
da carreira, inquietava-se: tinha ou não talento para ser
atriz? Com o sucesso, a dúvida mudou: devia ceder ao comercialismo
da televisão ou manter-se fiel ao teatro? Mais tarde, quando
seu casamento com o apresentador Pedro Bial terminou, sobreveio
um novo dilema: devia assumir o papel de mãe do rebento Theo
em tempo integral ou retomar a carreira? "Sempre tive muitos questionamentos.
Mas isso me fez amadurecer e hoje estou em ótima fase", diz
Giulia, de 36 anos. A atriz realmente voltou à cena com tudo.
Na TV, faz sucesso como a ciumenta e obsessiva Heloísa, cujos
arroubos garantem picos de audiência a Mulheres Apaixonadas.
No teatro, é destaque de Os Sete Afluentes do Rio
Ota, uma peça na linha papo-cabeça, em cartaz
em São Paulo. A montagem tem cinco horas de duração
e sete atos que dramatizam a trajetória da humanidade desde
a bomba de Hiroshima até o surgimento da Aids. Pois é,
dá-lhe dramatização. Para interpretar uma cantora
marcada por tragédias, Giulia dá vazão a um
turbilhão de emoções e entoa Gershwin. É
um papel denso bem a seu gosto e o oposto das personagens
folhetinescas que ela vive nas novelas.
Giulia é o rosto mais conhecido de uma categoria peculiar:
a dos atores que, antes de chegar à televisão, construíram
a carreira no teatro de vanguarda. Ela trabalhou com três
diretores que são referência nesse meio: Antunes Filho,
Gerald Thomas e José Celso Martinez Corrêa. Aos 15
anos, tão logo ingressou no grupo de Antunes Filho, passou
por uma catequese sobre o papel de resistência e a função
social do teatro. Assim se arraigaram as convicções
que fariam Giulia passar por tantos conflitos quando as portas da
TV se abriram para ela, no fim dos anos 80. "Embora atuasse em novelas,
eu era contra a televisão, contra o aburguesamento do ator
num esquema industrial. Só recentemente comecei a me livrar
dessas idéias", conta ela. A atriz se recorda até
hoje de uma reunião em que diretores globais tentavam convencê-la
de que atuar no folhetim Que Rei Sou Eu? não era o
fim do mundo. "Passei uma tarde inteira chorando, pois estava traindo
o Antunes no grau mais profundo", diz. Pois é, traição
às vezes faz bem.
Para artistas como Giulia, atuar na televisão não
é mesmo um paraíso. Mas dá dinheiro. "Com as
peças, perco mais do que ganho", reconhece ela. Giulia, por
princípio, prefere não ser contratada fixa da Globo.
Como atriz convidada, recebe cerca de 30.000 mensais para encarnar
a tresloucada Heloísa. Para se ter uma idéia do seu
amor pelo teatro, o que ela deverá faturar por toda a temporada
de sua peça não chega a um mês desse salário.
Giulia se dedica intensamente ao palco, mas nem sempre a crítica
tem paciência com suas peças. Seu espetáculo
anterior, uma adaptação da tragédia grega As
Fenícias que recorria a acrobacias e capoeira, foi malhado
sem dó por críticos como Barbara Heliodora, do jornal
O Globo. "Barbara é muito conservadora com espetáculos
de linguagem experimental", retruca Giulia.
Fotos divulgação
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| Como
a maluca da novela (à esq.) e na peça em
cartaz em São Paulo: a moça esfaqueia, mas também
canta Gershwin |
Dividida
entre ser ou não ser uma estrela da TV, a atriz desenvolveu
um mecanismo de autodefesa: depois de cada novela, mergulha numa
produção teatral ainda mais cabeça para "expiar
a culpa". Na seqüência de Que Rei Sou Eu?, trabalhou
com o diretor Gerald Thomas na peça Fim de Jogo. "Foi
uma experiência masoquista. Gerald me usava como exemplo da
atriz bonitinha da TV que não entendia a linguagem do teatro
dele e eu não entendia mesmo", relata Giulia. Vejamos
o que diz o outro lado. "O fato de eu estar tendo, ao mesmo tempo,
um caso com ela e com outra atriz do elenco tornou nossa relação
conturbada", afirma Thomas. Giulia admite que "ficou" com o diretor
duas ou três vezes. "Eu realmente tentei de tudo para entender
o processo criativo do Gerald", diverte-se. Isso é que é
vanguarda: sem retaguarda e sem medo de ser feliz.
A atriz teve outros namorados famosos. Um deles foi o guitarrista
Tony Bellotto, dos Titãs. Os dois acabaram se separando quando
Bellotto conheceu sua atual mulher, Malu Mader. "Ela era minha amiga
e roubou meu namorado", reclama Giulia. Em 1996, iniciou um romance
com o jornalista Pedro Bial. A relação terminou há
quatro anos, e desde então ambos ficaram sob os holofotes
em razão de uma disputa nos tribunais pela guarda do filho
Theo. Em janeiro passado, a atriz obteve a guarda definitiva do
garoto, hoje com 5 anos a Justiça chegou a tirá-lo
da mãe. Foi um período difícil, em que Giulia
recorreu inclusive a antidepressivos. "Depois do nascimento do Theo,
perdi a segurança. Senti-me só e sem amigos, abandonei
minha carreira e vi meu casamento desmoronar", conta ela. "As pessoas
pensaram que tive depressão pós-parto, mas o correto
é chamar esse processo de crise vital."
A mãe da atriz, a psicóloga Daise Gam, tem presença
evidentemente marcante em sua vida e nesses momentos difíceis
não foi diferente. Durante a crise conjugal, Daise chegou
a registrar um boletim de ocorrência por ter sido supostamente
agredida pelo genro Bial. "Ela quis me ajudar, mas não o
fez da melhor forma", diz Giulia. Quando a separação
se consumou, a atriz foi para Nova York, onde se refugiou no apartamento
da mãe. Em tempo: seu pai, um arquiteto de origem dinamarquesa,
morreu em 1994. Giulia nasceu em Perugia, na Itália, onde
ele fazia uma extensão universitária. Daí o
nome italiano da atriz.
Para participar de Mulheres Apaixonadas, Giulia fez dieta
para livrar-se dos 10 quilos que ganhara desde sua volta de Nova
York. Ela diz que, a princípio, se assustou com a neurose
de Heloísa. A personagem, vale recapitular, já esfaqueou
o marido e sofreu um acidente causado por sua maluquice. Num capítulo
exibido na semana passada, confessou às colegas do grupo
Mulheres que Amam Demais Anônimas, o Mada, ter feito uma esterilização
para não dividir as atenções do parceiro com
um filho. Giulia não se cansa de afirmar que os dramas de
Heloísa nada têm a ver com os seus. "Quando fui ao
Mada, até perguntaram se era por causa dos meus problemas
ou da novela", diz. Brasileiro é um problema, adora confundir
fato e ficção. "Mas que a Giulia é ciumenta,
isso ela é. E bota um caminhão de ciúmes nisso",
brinca um de seus ex-namorados.
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