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CINEMA
Um pequeno grande monstro
O orçamento de Hulk é o maior
que Ang Lee
já
teve nas mãos. Mas o saldo é o menor

Isabela Boscov
Foto divulgação
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O
Hulk de computação gráfica em ação:
bola gigante de borracha verde
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O
diretor taiwanês Ang Lee parece encarnar um caso singular
de versatilidade no cinema moderno: faz filmes ambientados em qualquer
parte do mundo, e em qualquer período histórico, com
a mesma fluência. Num ano Lee fala das asperezas entre três
filhas e um pai, como em Comer Beber Viver, que rodou em
Taiwan. No outro é capaz de observar a rigidez sufocante
das convenções sociais da Inglaterra do século
XIX, como em Razão e Sensibilidade, e, logo mais adiante,
de retratar a esterilidade da América pós-revolução
sexual, como fez em Tempestade de Gelo. O que essas mudanças
escondem é que, seja qual for o cenário, o registro
do diretor é sempre o mesmo o drama íntimo,
especialmente aquele nascido do conflito entre gerações,
em que os mais jovens têm de enfrentar os erros ou as expectativas
dos mais velhos para se firmar e encontrar uma identidade. Apesar
de todas as acrobacias que encheram os olhos das platéias
de todo o mundo, era esse também o tema de O Tigre e o
Dragão, que até hoje detém o recorde de
bilheteria para um filme estrangeiro nos Estados Unidos. E, na concepção
original de Lee, é isso também o que move o enredo
de Hulk (The Hulk, Estados Unidos, 2003), que
estréia nesta sexta-feira no país. Adaptado dos quadrinhos
criados nos anos 60 por Stan Lee, o mentor da editora Marvel (que
publica ainda Homem-Aranha e X-Men), Hulk tem uma
grande ambição: casar o drama psicológico que
sempre foi o forte do diretor à ação mirabolante
que garante o caixa dos estúdios de Hollywood na temporada
americana de verão. O resultado, porém, mostra que
esse é um romance fadado ao divórcio. Tudo o que Hulk
tem de original e envolvente ao detalhar a trajetória
de seu protagonista tem de implausível e desapontador quando
os efeitos especiais entram em cena e Lee perde o controle de sua
melhor matéria-prima o desempenho dos atores.
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Jennifer
e Eric Bana: cuidado, moça, com o "eu" interior do rapaz
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Depois
do sucesso de O Tigre e o Dragão (rodado na China
com um orçamento de apenas 12 milhões de dólares,
contra os 150 milhões de Hulk), Lee recebeu dezenas
de ofertas para dirigir superproduções. Recusou-as
todas, e foi atrás de um projeto que ainda estava em seus
estágios iniciais leia-se, sem nenhum astro já
atrelado ao roteiro. O que atraiu o diretor em Hulk foi o caso extremo
de repressão vivido pelo personagem. Bruce Banner (o australiano
Eric Bana) foi adotado ainda na infância, depois de perder
os pais em circunstâncias de que não se recorda. Tornou-se
um cientista e um caso aparentemente irrecuperável de bloqueio
emocional, ao menos na opinião de sua ex-namorada (Jennifer
Connelly), que desistiu de tentar fazer com que ele se abra. O que
nem ela nem Bruce suspeitam é que é melhor que seja
assim mesmo. O cientista é, na verdade, uma vítima
dos experimentos genéticos de seu pai adotivo (Nick Nolte).
Quando um acidente no laboratório o expõe a uma dose
excessiva de radiação, as alterações
no seu DNA são ativadas e começam a trazer à
tona o verdadeiro eu de Bruce: um monstro verde e incontrolável
de ira. "Eu quis fazer de Hulk uma metáfora de tudo de selvagem
que existe dentro de nós e que procuramos ocultar, inclusive
de nós mesmos", disse o diretor a VEJA, acrescentando que,
como oriental, esse comportamento reprimido e repressivo é
algo que ele conhece em primeira mão.
Enquanto segue nessa linha, Hulk é quase um grande
filme. Bana, Jennifer e Nolte ajudam, com suas atuações
contidas, a criar um crescendo de suspense sobre o protagonista:
a platéia sabe que ele vai virar algo terrível, mas
a questão que realmente interessa é como ele vai chegar
lá. Lee emprega toda a sua capacidade visual em prol dessa
missão. Das paisagens que são metáforas para
as emoções dos personagens ao recurso de dividir a
tela como se ela fosse uma página de quadrinhos, tudo funciona
à perfeição. Aí se chega à grande
virada, a transformação de Bruce em Hulk, e esse belo
trabalho vai por terra. O Hulk de computação gráfica
é gigantesco, mas não tem peso e move-se como uma
grande bola de borracha verde, o que adiciona um elemento cômico
involuntário, e completamente deslocado, ao monstro. Há
que se considerar ainda a sua limitadíssima "interpretação":
Hulk se comporta como um Neandertal (no que o roteiro passa a acompanhá-lo).
Depois do Gollum de O Senhor dos Anéis, não
há mais como negar que personagens finalizados em computador
podem ser tão ricos quanto aqueles vividos por atores de
carne e osso. O mais grave é que, a partir do momento em
que se decide usar esse recurso, um filme se torna refém
dele: toda a sua credibilidade passa a repousar ali, sobre a veracidade
do personagem. No caso de Hulk, isso significa a tragédia,
no mau sentido. O que preocupava Lee, depois de toda uma carreira
passada no universo dos baixos orçamentos, é que o
projeto de Hulk lhe parecia muito maior do que ele. Não
é. É bem menor.
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