Edição 1808 . 25 de junho de 2003

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CINEMA
Um pequeno grande monstro

O orçamento de Hulk é o maior que Ang Lee
já teve nas mãos. Mas o saldo é o menor


Isabela Boscov

 
Foto divulgação

O Hulk de computação gráfica em ação: bola gigante de borracha verde


Especial Hulk: fotos e trailer do filme

O diretor taiwanês Ang Lee parece encarnar um caso singular de versatilidade no cinema moderno: faz filmes ambientados em qualquer parte do mundo, e em qualquer período histórico, com a mesma fluência. Num ano Lee fala das asperezas entre três filhas e um pai, como em Comer Beber Viver, que rodou em Taiwan. No outro é capaz de observar a rigidez sufocante das convenções sociais da Inglaterra do século XIX, como em Razão e Sensibilidade, e, logo mais adiante, de retratar a esterilidade da América pós-revolução sexual, como fez em Tempestade de Gelo. O que essas mudanças escondem é que, seja qual for o cenário, o registro do diretor é sempre o mesmo – o drama íntimo, especialmente aquele nascido do conflito entre gerações, em que os mais jovens têm de enfrentar os erros ou as expectativas dos mais velhos para se firmar e encontrar uma identidade. Apesar de todas as acrobacias que encheram os olhos das platéias de todo o mundo, era esse também o tema de O Tigre e o Dragão, que até hoje detém o recorde de bilheteria para um filme estrangeiro nos Estados Unidos. E, na concepção original de Lee, é isso também o que move o enredo de Hulk (The Hulk, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. Adaptado dos quadrinhos criados nos anos 60 por Stan Lee, o mentor da editora Marvel (que publica ainda Homem-Aranha e X-Men), Hulk tem uma grande ambição: casar o drama psicológico que sempre foi o forte do diretor à ação mirabolante que garante o caixa dos estúdios de Hollywood na temporada americana de verão. O resultado, porém, mostra que esse é um romance fadado ao divórcio. Tudo o que Hulk tem de original e envolvente ao detalhar a trajetória de seu protagonista tem de implausível e desapontador quando os efeitos especiais entram em cena e Lee perde o controle de sua melhor matéria-prima – o desempenho dos atores.

 

Jennifer e Eric Bana: cuidado, moça, com o "eu" interior do rapaz

Depois do sucesso de O Tigre e o Dragão (rodado na China com um orçamento de apenas 12 milhões de dólares, contra os 150 milhões de Hulk), Lee recebeu dezenas de ofertas para dirigir superproduções. Recusou-as todas, e foi atrás de um projeto que ainda estava em seus estágios iniciais – leia-se, sem nenhum astro já atrelado ao roteiro. O que atraiu o diretor em Hulk foi o caso extremo de repressão vivido pelo personagem. Bruce Banner (o australiano Eric Bana) foi adotado ainda na infância, depois de perder os pais em circunstâncias de que não se recorda. Tornou-se um cientista e um caso aparentemente irrecuperável de bloqueio emocional, ao menos na opinião de sua ex-namorada (Jennifer Connelly), que desistiu de tentar fazer com que ele se abra. O que nem ela nem Bruce suspeitam é que é melhor que seja assim mesmo. O cientista é, na verdade, uma vítima dos experimentos genéticos de seu pai adotivo (Nick Nolte). Quando um acidente no laboratório o expõe a uma dose excessiva de radiação, as alterações no seu DNA são ativadas e começam a trazer à tona o verdadeiro eu de Bruce: um monstro verde e incontrolável de ira. "Eu quis fazer de Hulk uma metáfora de tudo de selvagem que existe dentro de nós e que procuramos ocultar, inclusive de nós mesmos", disse o diretor a VEJA, acrescentando que, como oriental, esse comportamento reprimido e repressivo é algo que ele conhece em primeira mão.

Enquanto segue nessa linha, Hulk é quase um grande filme. Bana, Jennifer e Nolte ajudam, com suas atuações contidas, a criar um crescendo de suspense sobre o protagonista: a platéia sabe que ele vai virar algo terrível, mas a questão que realmente interessa é como ele vai chegar lá. Lee emprega toda a sua capacidade visual em prol dessa missão. Das paisagens que são metáforas para as emoções dos personagens ao recurso de dividir a tela como se ela fosse uma página de quadrinhos, tudo funciona à perfeição. Aí se chega à grande virada, a transformação de Bruce em Hulk, e esse belo trabalho vai por terra. O Hulk de computação gráfica é gigantesco, mas não tem peso e move-se como uma grande bola de borracha verde, o que adiciona um elemento cômico involuntário, e completamente deslocado, ao monstro. Há que se considerar ainda a sua limitadíssima "interpretação": Hulk se comporta como um Neandertal (no que o roteiro passa a acompanhá-lo). Depois do Gollum de O Senhor dos Anéis, não há mais como negar que personagens finalizados em computador podem ser tão ricos quanto aqueles vividos por atores de carne e osso. O mais grave é que, a partir do momento em que se decide usar esse recurso, um filme se torna refém dele: toda a sua credibilidade passa a repousar ali, sobre a veracidade do personagem. No caso de Hulk, isso significa a tragédia, no mau sentido. O que preocupava Lee, depois de toda uma carreira passada no universo dos baixos orçamentos, é que o projeto de Hulk lhe parecia muito maior do que ele. Não é. É bem menor.

 
 
 
 
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