Edição 1808 . 25 de junho de 2003

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ESPECIAL
A força do arco-íris


Camila Antunes


Fotos Reuters

Até algum tempo atrás, para encontrar amigos e namorar sem ser molestados, os gays se isolavam em guetos. Confinavam-se normalmente num trecho de praia ou em pequenos bares, saunas e certos cinemas localizados no centro das cidades. O gueto sempre funcionou para a comunidade GLS (iniciais de gays, lésbicas e simpatizantes) como uma carapaça de proteção contra a homofobia. A discriminação sexual resiste, mas há sinais de que a luta contra o preconceito atravessa uma fase de transformação significativa. Em vez de manter o confinamento como técnica de defesa, os gays começam a se expor, a se exibir, a emergir. Existem algumas indicações concretas dessa nova fase de exposição.

De acordo com o site Mix Brasil, voltado ao público homossexual, em 1995 havia quarenta endereços GLS em São Paulo, boa parte deles na chamada boca-do-lixo, região decadente da cidade onde se concentra a baixa prostituição. Hoje há 180 locais, vários deles situados em bairros valorizadíssimos da capital paulista. O site lista os endereços declaradamente gays. Não contabiliza a infinidade de estabelecimentos que recebem com hospitalidade os casais homossexuais sem que possam ser chamados de estabelecimentos "temáticos". São Paulo vem sendo classificada por muita gente como a São Francisco da América do Sul, referência à cidade americana conhecida como a meca dos homossexuais. "Além do crescimento em número, o conceito dos bares, restaurantes e boates mudou. Agora se investe para atrair o público gay, que tem bom poder aquisitivo e é exigente", diz André Fischer, editor do site. Muitos dos estabelecimentos comerciais, identificados na porta com a bandeirinha do arco-íris, são também freqüentados livremente por heterossexuais.

 
Selmy Yassuda

CASAL VIP DO RIO
O estilista Carlos Tufvesson (à esq.) e o arquiteto André Piva estão juntos há oito anos. O casal aparece no livro Sociedade Brasileira, de Helena Gondim, uma espécie de "quem-é-quem" no high society carioca.

Uma forte indicação de mudança de atitude dos gays poderá ser conferida neste domingo, em São Paulo, na VII Parada do Orgulho Gay. Em 1997, a primeira passeata reuniu apenas 2.000 gatos-pingados. Na edição do ano passado, mais de 500.000 pessoas desfilaram. No ranking mundial, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo tornou-se o segundo maior evento homossexual do mundo, atrás apenas da passeata de Nova York. Espera-se uma multidão ainda maior neste fim de semana. Entre junho e julho, o Brasil será palco de outras 25 paradas gays, que acontecem de Norte (Manaus) a Sul (Porto Alegre). Tamanha é a força das paradas que elas passaram a atrair políticos e artistas, todos de olho no poder eleitoral e de consumo da comunidade gay, estimada em cerca de 10% da população mundial segundo a maior parte dos estudos demográficos. Os números podem ser imprecisos porque as pesquisas sobre comportamento sexual padecem de um defeito de origem. Idades aferem-se na carteira de identidade. Renda confere-se na declaração entregue à Receita Federal. Já as práticas sexuais não podem ser checadas. Os pesquisadores precisam acreditar no que ouvem. De qualquer forma, é com estatísticas dessa ordem que as pessoas trabalham quando precisam estimar a população gay de determinado lugar. Em 2003, uma equipe do Hospital das Clínicas de São Paulo preparou uma pesquisa com 7.000 entrevistados, homens e mulheres, de 18 a 70 anos, pertencentes a todas as classes sociais e regiões. Nessa mostra, 10% disseram-se gays.

É fácil perceber que alguma coisa diferente está acontecendo no universo homossexual e ela não se materializa apenas nas paradas. No shopping center, na academia de ginástica, no bar, no restaurante, na fila do cinema, na galeria de arte, na livraria, na danceteria, os gays parecem estar em toda parte. Não se trata de uma falsa impressão. "Há cada vez mais gente assumindo sua homossexualidade para o público", escreveu sobre o assunto a cantora Vange Leonel, militante lésbica. "Embora alguns achem tratar-se apenas de sem-vergonhice e exibicionismo, não é. Dizemos em alto e bom som que somos gays porque não queremos viver à sombra", conclui. Entre os gays, dá-se como certo que aumentou o número de homossexuais que revelaram sua verdadeira orientação sexual, bem como o total de casamentos gays.

 
Claudio Rossi

UNIÃO ESTÁVEL
As publicitárias
Elza Mioko (à esq.) e Cecília Pinheiro fogem à regra segundo a qual os casamentos homossexuais duram menos que os heterossexuais. Elas estão juntas há 22 anos.

Erra quem acha que o número total de homossexuais cresceu por causa disso. Tudo indica que a comunidade assumida aumentou na mesma proporção em que se reduziu a banda mais reclusa. "Nós não estamos nos multiplicando", comenta em tom de brincadeira o tradutor paulista Luiz Ramires, que preside um grupo de apoio a homossexuais. "Mas era importante sairmos do mundinho para impor respeito", afirma Ramires. O atual processo de sociabilização dos gays talvez seja a maior conquista já registrada na história no que diz respeito ao tratamento reservado aos homossexuais.

Os gays já foram considerados criminosos – e julgados por isso. A Inglaterra do século XIX enforcou dezenas deles. Na mesma época, as autoridades russas mandavam o muzhelozhstvo (que quer dizer "homem que dorme com homem") passar até cinco anos na Sibéria. A Alemanha nazista deu aos homossexuais o mesmo tratamento reservado aos judeus. Num dos mais famosos julgamentos da história, ocorrido em 1895, o escritor irlandês Oscar Wilde foi acusado de sodomia e comportamento indecente. Diante do juiz, definiu a atração física entre dois homens como o "amor que não ousa dizer o nome". Wilde acabou condenado e sentenciado a dois anos de prisão e trabalhos forçados. Numa fase seguinte, os homossexuais passaram a ser tratados não mais como criminosos, mas como doentes, "portadores de uma anomalia" que podia conduzi-los à depressão e ao suicídio, donos de uma propensão especial à prática de crimes. Somente há pouco mais de dez anos a Organização Mundial de Saúde retirou o homossexualismo da Classificação Internacional de Doenças. Atualmente, os especialistas já não discutem o que leva alguém ao homossexualismo. Trata-se de uma mistura de fatores, resultado de influências biológicas, psicológicas e socioculturais, sem peso maior para uma ou para outra – nunca uma determinação genética ou uma opção racional. Evoluiu a conceituação, eliminaram-se os empecilhos, mas continua a ser difícil assumir a homossexualidade. "Se a sexualidade dependesse de uma escolha puramente racional, as pessoas não seriam gays", afirma a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, de São Paulo.

O psicólogo paulista Klecius Borges, de 50 anos, concorda com o raciocínio de Carmita Abdo. "Se a sexualidade pudesse ser resolvida de forma intelectual, sem componentes emocionais, eu seria heterossexual. É muito mais fácil. Não frustraria ninguém, não quebraria expectativas", afirma. Durante duas décadas, Klecius trabalhou como executivo de recursos humanos para corporações como BankBoston, American Express e JP Morgan e se esforçava para manter em segredo sua orientação sexual. Temia que a revelação comprometesse seu futuro profissional. "Trabalhava muito, como se quisesse compensar o 'defeito' de ser gay", explica o psicólogo. "Nunca mostrei fotos de namorados nem contei detalhes sobre minha vida particular", recorda-se. A maioria dos homossexuais se acostumou a viver de forma velada, escondendo de parentes e amigos sua preferência amorosa. Apenas os parceiros do "amor que não ousa dizer o nome" ficam sabendo da vida dupla. Em rodas de amigos, muitos deles suportam calados comentários sobre o jeito efeminado de um colega do escritório e são chamados a palpitar sobre as formas generosas da secretária do chefe. Entre os que resolvem contar alguma coisa para alguém, o mais comum é tratar do assunto apenas com o médico e os amigos mais chegados – e tentar preservar a verdadeira identidade sexual no trabalho e na vida social. Poucos são os que assumem a homossexualidade diante de todos os conhecidos. Viver na sombra sempre foi parte integrante da cultura gay.


Pedro Rubens

COLEGAS DO BALÉ
Daniela Hristov, de joelhos, e Miriam Bastos não têm vergonha de namorar em público. "O pior foi o processo de aceitação interno", diz Daniela.


O caso do galã de Hollywood Richard Chamberlain é extraordinário para entender a angústia de "sair do armário", expressão criada pelos próprios homossexuais para se referir aos que assumem a verdadeira identidade. Ele só decidiu revelar sua homossexualidade agora, aos 69 anos. Na autobiografia Amor Partido, ele fala do pavor que tinha de ser estigmatizado e dos efeitos nocivos que, em sua avaliação, a verdade poderia acarretar a sua carreira. Há várias barreiras diante das pessoas que decidem tornar pública a homossexualidade. A primeira delas é individual. Como admitir para si mesmo que, ao contrário do que esperavam papai e mamãe, você sente atração por alguém do mesmo sexo? E como criar coragem para transformar essa emoção em ação? "No fundo, no fundo, a gente acaba se enganando", conta a professora de dança Daniela Hristov, uma paulistana de 27 anos, que namora há um a bailarina Miriam Bastos, de 25 anos, natural de Santos, litoral de São Paulo. As duas se conheceram em Salvador, durante um curso de dança. Miriam foi a primeira mulher na vida de Daniela. "Desde adolescente, eu me encantava por minhas amigas, mas não assumia que era paixão. Reprimia o desejo. Hoje noto que sempre senti atração pelo corpo feminino. Trabalhava isso em minha cabeça explicando o interesse como uma curiosidade própria das bailarinas ou porque eu talvez gostasse da idéia de ter aquele corpo para mim. Agora sei o que significava", conclui.

A maior parte dos jovens divide com os amigos detalhes do primeiro beijo e da primeira relação sexual. No caso do rapaz ou da moça homossexuais, essa satisfação costuma ser reprimida como coisa vergonhosa. "Essa etapa, ligada ao autoconhecimento, é longa e profundamente desgastante", afirma a psicóloga paulista Ceres Alves de Araujo. "Então, vencida essa fase, vem a preocupação clássica do que os outros vão pensar", conclui Ceres. No caso da bailarina Daniela, o processo de auto-aceitação foi mais penoso que as etapas ligadas à aceitação por parte da sociedade. "Depois de admitir que a Miriam havia despertado em mim uma paixão que eu não conhecia, até esqueço que muitas vezes estamos sendo observadas", conta a dançarina, que saiu do armário, portanto, sem muita dificuldade. Pelo menos quando se compara seu caso ao do advogado Sérgio Malheiros, de 37 anos, de Curitiba. "Fui casado durante mais de quinze anos com uma mulher e tive um filho, hoje com 5 anos", conta o advogado. "Imagine a dificuldade envolvida na decisão de abandonar tudo isso por causa de um amor gay." No ano passado, Malheiros se casou com Sérgio Grossmann, um funcionário público de 28 anos. "Quando o conheci ainda era casado e percebi que sentia por ele algo que jamais senti por minha mulher nem por nenhuma outra mulher que conheci", diz o advogado. Malheiros comenta que até mesmo sua disposição para o sexo aumentou quando trocou a parceira pelo parceiro. "Nós nos relacionamos com uma freqüência bem maior do que em meu casamento hétero", afirma Malheiros.

Os estudiosos dizem que as pessoas misturam diversos sentimentos quando descobrem que seus amigos, colegas, artistas de televisão ou astros do rock são gays. Negativos, na maior parte das vezes. Uma primeira reação é de surpresa, seguida de rejeição. "Rejeitamos tudo o que consideramos diferente. Isso faz parte do natural temperamento intolerante do indivíduo", afirma Alexandre Saadeh, psiquiatra do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Outro sentimento comum que surge quando alguém de nossas relações revela ser gay é o de traição. "Para muita gente, aquela pessoa querida mudou a orientação sexual especialmente para nos atingir", afirma a psicóloga Ceres. Essa explosão de sensações é esperada, mas a ela se associam outras idéias a respeito da homossexualidade, que configuram o preconceito. Um preconceito é achar que o gay, por definição, é um indivíduo promíscuo. Essa visão sempre existiu, mas ganhou força com o surgimento da Aids, que numa primeira fase ficou conhecida como "peste gay". A visão distorcida começou a mudar quando o número de mulheres vitimadas pela doença cresceu e se descobriu que a síndrome não tinha ligação com a orientação sexual, mas com hábitos de risco. Outro preconceito é achar que pertencem a um só balaio gays, lésbicas e travestis. Uma coisa é um homem ou uma mulher que escolheu manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Outra coisa é quando uma pessoa modifica seu corpo à base de cirurgias e vive de shows ou da prostituição.

 
AP
PAPAI E PAPAI
O último levantamento diz que há pelo menos 2 milhões de crianças morando com casais gays só nos Estados Unidos.

Apesar do preconceito, o panorama se tornou menos hostil aos gays em função de uma série de vitórias computadas aqui e ali. Uma grande conquista foi de ordem legal. Em graus variados, a maioria dos países adotou leis de proteção às diferenças. Dezenas de nações ainda tratam a homossexualidade como crime, entre elas Argélia, Irã e Paquistão. Mas, analisados apenas os países mais civilizados, há avanços notáveis. Holanda e Bélgica dão a gays que se casam os mesmos direitos dos não-gays. No Canadá, as autoridades consideraram inconstitucional a definição de casamento como "união entre homem e mulher". Na França, na Alemanha e em países escandinavos, há estatutos semelhantes ao da união civil estável para casais do mesmo sexo. Recentemente, a Justiça argentina decidiu que uniões homossexuais em Buenos Aires devem ter todos os direitos civis dos casamentos heterossexuais. Há algum tempo, o Parlamento europeu aprovou resolução recomendando aos países da União Européia que reconheçam e estabeleçam garantias legais para as famílias formadas por homossexuais. Para educar a sociedade, em alguns casos são aprovadas leis específicas. Na Inglaterra, no ano passado, as autoridades de ensino de uma região de Londres detectaram algumas manifestações de hostilidade contra gays. Imediatamente, estudantes do ensino secundário daquele lugar foram obrigados a freqüentar um curso destinado a erradicar a homofobia. Em muitos países, os casais gays têm direito à adoção. De acordo com a última pesquisa, há pelo menos 2 milhões de crianças morando com casais homossexuais apenas nos Estados Unidos.

Mesmo no Brasil, onde a legislação não é das mais avançadas, os gays registram diversas conquistas. Por decisão da Justiça gaúcha, o Instituto Nacional de Seguridade Social, órgão público responsável pelo pagamento das aposentadorias, vem sendo obrigado a custear a pensão a viúvos e viúvas de homossexuais. Os casos de outros Estados ainda são resolvidos na Justiça, mas percebe-se uma boa vontade legal em proteger as uniões de mesmo sexo. Em Minas Gerais, a Justiça recusou o pedido de uma mãe biológica que queria ficar com a guarda do filho. O garoto morava num lar gay, com seu pai e o "padrasto". A decisão mais famosa ocorreu em janeiro do ano passado pós a morte da cantora Cássia Eller. A Justiça carioca resolveu que Chicão, o filho da cantora, poderia ficar provisoriamente com a companheira dela, Maria Eugênia Vieira Martins, que viveu com Cássia durante catorze anos. "A questão da homossexualidade não tem importância", escreveu o juiz na sentença. "O essencial foi assegurar o interesse superior de Chicão." O respeito aos gays e a seus direitos produz um efeito imediato na vida deles, mas também inocula na sociedade uma preocupação crescente em respeitar as diferenças individuais, não apenas de ordem sexual, mas de classe social e cor, por exemplo.

No Brasil, os casos de preconceito e manifestações de intransigência, ainda que violentas, em geral são isolados. Até alguns anos atrás, a legislação deixava espaço para que aqueles que desrespeitassem um homossexual não fossem punidos. Hoje, isso é praticamente impossível. Há cerca de quinze anos, as publicitárias Maria Cecília Pinheiro, de 41, e Elza Mioko, de 45, passaram pela experiência desagradável de ser expulsas de um bar no interior de São Paulo. "Nós estávamos falando alto e levantando muitos brindes. Alguém chamou o garçom e ele trouxe a conta sem que tivéssemos pedido", relata Maria Cecília. "Hoje, isso seria impensável. Todo mundo sabe que essa atitude é ilegal." O casal, unido há 22 anos, aprendeu a enfrentar os dissabores da vida a dois gay. "Olha como éramos bobas, tínhamos muita culpa por ser lésbicas", comenta Cecília. As duas tiveram um início de vida conjugal bem conturbado. "Saí de casa, sem dinheiro, porque me sentia incompreendida", diz Cecília. "A Elza era meu único apoio", completa.

 
Jader da Rocha

O CASO DOS SÉRGIOS
O advogado Sérgio Malheiros (à esq.) deixou um casamento de quinze anos e foi viver com o funcionário público Sérgio Grossmann. "Assumir me fez bem", diz Malheiros.

Além dos avanços de natureza legal, há outra conquista igualmente importante de caráter econômico. Como a maior parte dos gays não tem família para criar nem escola de criança para pagar, suas despesas mensais fixas são mais baixas que as dos heterossexuais. Isso aumenta significativamente seu poder de compra, o que os torna bem-vindos nas lojas, agências de viagens, corretoras de imóveis. Esse conforto material produz um estilo de vida. O empresário carioca Fabiano Cid, 33 anos, dono de uma empresa de tradução, é um bom exemplo. Cid gosta de se vestir bem, de comer bem (com cuidado para não engordar), de sair para dançar e de estar sempre reunido com os amigos. "Isso tudo custa dinheiro, mas o prazer é que importa. Adoro a vida gay. Tem tudo a ver comigo", diz. Estudo recente feito nos Estados Unidos com base em dados do Instituto de Estatística americano mostra que os casais de gays e lésbicas estudam mais que os casados heterossexuais e ganham 25% mais. Mais endinheirados que a média da sociedade heterossexual e amparados pela Justiça, os gays foram à luta quando um número crescente deles passou a sentir a necessidade de se casar, de constituir família. E é impossível fazer isso sem se expor, sem se "misturar". Quando os gays se casam, surge a necessidade de comprar uma casa para morar, de pegar financiamento no banco, de adquirir um plano de saúde. E, nessa hora, os casais acabam exibindo sua sexualidade.

É o que acontece quando um casal gay viaja e na recepção do hotel pede ao atendente um quarto com cama de casal. "Ninguém pensa em sexo quando pedido semelhante é feito por um casal heterossexual", comenta o chef de cozinha gaúcho Carlos Rosa, 40 anos, casado há seis com o decorador César Siqueira, 35. Os dois namoraram um ano antes de morar juntos. "Mas, se sou eu e meu namorado, sinto que meu comportamento está sendo analisado", diz o chef. Outro constrangimento freqüente aparece quando um dos dois integrantes do casal recebe um convite para um casamento ou festa válido para duas pessoas. A psicóloga paulista Maria Lima, 56 anos, se recorda até hoje do dia em que compareceu à festa de 50 anos de seu irmão junto com sua companheira e foi barrada pelo segurança. "Acabamos sendo colocadas para dentro depois de muita discussão", lembra-se Maria.

 
Reuters

PAÍS AVANÇADO
Em 2001, a Holanda celebrou os primeiros casamentos de gays e lésbicas. Lá e na Bélgica, casais homo e hétero possuem os mesmos direitos civis quando se unem.

A vida a dois envolve objetivos comuns, sejam os casais gays ou não. O casamento funciona para todos como uma opção de cura para a solidão e a sensação de vazio dos solteiros. Há outras semelhanças na vida conjugal – seja ela de gays ou de héteros. Ambos discutem a relação, ambos lutam para evitar que a convivência caia na monotonia que assola a maioria dos casamentos, ambos temem que o parceiro ceda à tentação de trair. Outra semelhança é uma discussão constante sobre o papel doméstico de cada cônjuge. Passar, lavar, arrumar a casa. Gays e não-gays vivem debatendo para saber a quem cabe cada tarefa. A relação estável e monogâmica não é a única forma de convivência entre os sexos, mas está sacramentada como a mais conveniente entre os heterossexuais. Na comunidade gay, essa opção parece estar virando moda. Há, no entanto, algumas especificidades na relação a dois entre gays. A união heterossexual mistura amor, atração e um terceiro motor, igualmente importante, o impulso de perpetuação da espécie. O casamento gay não envolve reprodução. Essa diferença é poderosa. A existência de filhos faz com que casais heterossexuais contornem as dificuldades ligadas ao fim do estado da paixão em nome da estabilidade da união. Na observação dos estudiosos, os casamentos gays acabam sendo menos longevos em função disso.

Essas são, digamos, as diferenças de ordem sentimental. Mas o casamento gay enfrenta dificuldades ligadas a certas restrições legais. Uma delas é a impossibilidade de conceituar a união entre duas pessoas do mesmo sexo como família. Pelo Código Civil, família é tão-somente a união formada por um homem e uma mulher. Não há alternativas. Na vida prática, isso impede que os casais gays comprem títulos familiares em clubes, o que baratearia as despesas. O código proíbe também a declaração conjunta do imposto de renda. Não permite a adoção de crianças pelo casal, apenas por solteiros. Dificulta ainda a composição de renda para compra da casa própria. Nem todos têm a sorte das professoras universitárias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luciana Nunes, 33 anos, e Suzi Camey, 32 anos, que conseguiram juntar renda para comprar uma casa financiada pela Caixa Econômica Federal. "O papel do empréstimo foi o primeiro documento conjunto de uma união de doze anos", diz Luciana. E o direito a herança acontece apenas se o viúvo ou viúva entrar na Justiça e provar que havia entre os dois uma sociedade. "Acho indecente que, se um dia eu enfrentar a dor do falecimento do meu companheiro, eu ainda tenha de brigar por direitos que são inquestionáveis para qualquer casal heterossexual", afirma o estilista Carlos Tufvesson, do Rio de Janeiro, casado há oito anos com o arquiteto André Piva, de 36 anos. Os dois integram há muitos anos o livro Sociedade Brasileira, de Helena Gondim, uma espécie de agenda "quem-é-quem" no high society carioca.

Daí por que gays e lésbicas têm tanto interesse na aprovação do projeto de lei que regulamenta a união entre pessoas do mesmo sexo. A vida deles ficaria mais fácil com a aprovação do projeto, que está no Congresso Nacional desde 1995. Os estudiosos do assunto dizem que, quando têm pela frente principalmente desafios de ordem prática, isso quer dizer que os gays já enfrentaram a maior das barreiras. "Eles estão convencidos de que fizeram a opção sexual correta e se sentem à vontade para enfrentar as conseqüências ligadas à nova orientação", diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo. "A fase mais difícil já passou."

 
Reginaldo Teixeira
OS PASSEIOS GAYS
Uma agência de São Paulo especializada em turismo para homossexuais e folhetos de alguns dos passeios oferecidos ao redor do mundo.

 
 
 
 
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