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ESPECIAL
A força do arco-íris

Camila
Antunes
Fotos Reuters
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Até algum tempo atrás, para encontrar amigos e namorar
sem ser molestados, os gays se isolavam em guetos. Confinavam-se
normalmente num trecho de praia ou em pequenos bares, saunas e certos
cinemas localizados no centro das cidades. O gueto sempre funcionou
para a comunidade GLS (iniciais de gays, lésbicas e simpatizantes)
como uma carapaça de proteção contra a homofobia.
A discriminação sexual resiste, mas há sinais
de que a luta contra o preconceito atravessa uma fase de transformação
significativa. Em vez de manter o confinamento como técnica
de defesa, os gays começam a se expor, a se exibir, a emergir.
Existem algumas indicações concretas dessa nova fase
de exposição.
De acordo com o site Mix Brasil, voltado ao público homossexual,
em 1995 havia quarenta endereços GLS em São Paulo,
boa parte deles na chamada boca-do-lixo, região decadente
da cidade onde se concentra a baixa prostituição.
Hoje há 180 locais, vários deles situados em bairros
valorizadíssimos da capital paulista.
O site lista os endereços declaradamente gays. Não
contabiliza a infinidade de estabelecimentos que recebem com hospitalidade
os casais homossexuais sem que possam ser chamados de estabelecimentos
"temáticos". São Paulo vem sendo classificada por
muita gente como a São Francisco da América do Sul,
referência à cidade americana conhecida como a meca
dos homossexuais. "Além do crescimento em número,
o conceito dos bares, restaurantes e boates mudou. Agora se investe
para atrair o público gay, que tem bom poder aquisitivo e
é exigente", diz André Fischer, editor do site. Muitos
dos estabelecimentos comerciais, identificados na porta com a bandeirinha
do arco-íris, são também freqüentados
livremente por heterossexuais.
Selmy Yassuda
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CASAL
VIP DO RIO
O
estilista Carlos Tufvesson (à esq.) e o arquiteto
André Piva estão juntos há oito anos.
O casal aparece no livro Sociedade Brasileira, de Helena
Gondim, uma espécie de "quem-é-quem" no high
society carioca.
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Uma
forte indicação de mudança de atitude dos gays
poderá ser conferida neste domingo, em São Paulo,
na VII Parada do Orgulho Gay. Em 1997, a primeira passeata reuniu
apenas 2.000 gatos-pingados. Na edição do ano passado,
mais de 500.000 pessoas desfilaram. No ranking mundial, a Parada
do Orgulho Gay de São Paulo tornou-se o segundo maior evento
homossexual do mundo, atrás apenas da passeata de Nova York.
Espera-se uma multidão ainda maior neste fim de semana. Entre
junho e julho, o Brasil será palco de outras 25 paradas gays,
que acontecem de Norte (Manaus) a Sul (Porto Alegre). Tamanha é
a força das paradas que elas passaram a atrair políticos
e artistas, todos de olho no poder eleitoral e de consumo da comunidade
gay, estimada em cerca de 10% da população mundial
segundo a maior parte dos estudos demográficos. Os números
podem ser imprecisos porque as pesquisas sobre comportamento sexual
padecem de um defeito de origem. Idades aferem-se na carteira de
identidade. Renda confere-se na declaração entregue
à Receita Federal. Já as práticas sexuais não
podem ser checadas. Os pesquisadores precisam acreditar no que ouvem.
De qualquer forma, é com estatísticas dessa ordem
que as pessoas trabalham quando precisam estimar a população
gay de determinado lugar. Em 2003, uma equipe do Hospital das Clínicas
de São Paulo preparou uma pesquisa com 7.000 entrevistados,
homens e mulheres, de 18 a 70 anos, pertencentes a todas as classes
sociais e regiões. Nessa mostra, 10% disseram-se gays.
É
fácil perceber que alguma coisa diferente está acontecendo
no universo homossexual e ela não se materializa apenas nas
paradas. No shopping center, na academia de ginástica, no
bar, no restaurante, na fila do cinema, na galeria de arte, na livraria,
na danceteria, os gays parecem estar em toda parte. Não se
trata de uma falsa impressão. "Há cada vez mais gente
assumindo sua homossexualidade para o público", escreveu
sobre o assunto a cantora Vange Leonel, militante lésbica.
"Embora alguns achem tratar-se apenas de sem-vergonhice e exibicionismo,
não é. Dizemos em alto e bom som que somos gays porque
não queremos viver à sombra", conclui. Entre os gays,
dá-se como certo que aumentou o número de homossexuais
que revelaram sua verdadeira orientação sexual, bem
como o total de casamentos gays.
Claudio Rossi
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UNIÃO
ESTÁVEL
As publicitárias Elza
Mioko (à esq.) e
Cecília Pinheiro fogem à regra segundo a qual
os casamentos homossexuais duram
menos que os
heterossexuais. Elas
estão juntas há
22 anos.
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Erra
quem acha que o número total de homossexuais cresceu por
causa disso. Tudo indica que a comunidade assumida aumentou na mesma
proporção em que se reduziu a banda mais reclusa.
"Nós não estamos nos multiplicando", comenta em tom
de brincadeira o tradutor paulista Luiz Ramires, que preside um
grupo de apoio a homossexuais. "Mas era importante sairmos do mundinho
para impor respeito", afirma Ramires. O atual processo de sociabilização
dos gays talvez seja a maior conquista já registrada na história
no que diz respeito ao tratamento reservado aos homossexuais.
Os gays já foram considerados criminosos e julgados
por isso. A Inglaterra do século XIX enforcou dezenas deles.
Na mesma época, as autoridades russas mandavam o muzhelozhstvo
(que quer dizer "homem que dorme com homem") passar até cinco
anos na Sibéria. A Alemanha nazista deu aos homossexuais
o mesmo tratamento reservado aos judeus. Num dos mais famosos julgamentos
da história, ocorrido em 1895, o escritor irlandês
Oscar Wilde foi acusado de sodomia e comportamento indecente. Diante
do juiz, definiu a atração física entre dois
homens como o "amor que não ousa dizer o nome". Wilde acabou
condenado e sentenciado a dois anos de prisão e trabalhos
forçados. Numa fase seguinte, os homossexuais passaram a
ser tratados não mais como criminosos, mas como doentes,
"portadores de uma anomalia" que podia conduzi-los à depressão
e ao suicídio, donos de uma propensão especial à
prática de crimes. Somente há pouco mais de dez anos
a Organização Mundial de Saúde retirou o homossexualismo
da Classificação Internacional de Doenças.
Atualmente, os especialistas já não discutem o que
leva alguém ao homossexualismo. Trata-se de uma mistura de
fatores, resultado de influências biológicas, psicológicas
e socioculturais, sem peso maior para uma ou para outra nunca
uma determinação genética ou uma opção
racional. Evoluiu a conceituação, eliminaram-se os
empecilhos, mas continua a ser difícil assumir a homossexualidade.
"Se a sexualidade dependesse de uma escolha puramente racional,
as pessoas não seriam gays", afirma a psiquiatra e sexóloga
Carmita Abdo, de São Paulo.
O psicólogo paulista Klecius Borges, de 50 anos, concorda
com o raciocínio de Carmita Abdo. "Se a sexualidade pudesse
ser resolvida de forma intelectual, sem componentes emocionais,
eu seria heterossexual. É muito mais fácil. Não
frustraria ninguém, não quebraria expectativas", afirma.
Durante duas décadas, Klecius trabalhou como executivo de
recursos humanos para corporações como BankBoston,
American Express e JP Morgan e se esforçava para manter em
segredo sua orientação sexual. Temia que a revelação
comprometesse seu futuro profissional. "Trabalhava muito, como se
quisesse compensar o 'defeito' de ser gay", explica o psicólogo.
"Nunca mostrei fotos de namorados nem contei detalhes sobre minha
vida particular", recorda-se. A maioria dos homossexuais se acostumou
a viver de forma velada, escondendo de parentes e amigos sua preferência
amorosa. Apenas os parceiros do "amor que não ousa dizer
o nome" ficam sabendo da vida dupla. Em rodas de amigos, muitos
deles suportam calados comentários sobre o jeito efeminado
de um colega do escritório e são chamados a palpitar
sobre as formas generosas da secretária do chefe. Entre os
que resolvem contar alguma coisa para alguém, o mais comum
é tratar do assunto apenas com o médico e os amigos
mais chegados e tentar preservar a verdadeira identidade
sexual no trabalho e na vida social. Poucos são os que assumem
a homossexualidade diante de todos os conhecidos. Viver na sombra
sempre foi parte integrante da cultura gay.
Pedro Rubens
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COLEGAS
DO BALÉ
Daniela Hristov, de joelhos, e Miriam Bastos não têm vergonha
de namorar em público. "O pior foi o processo de aceitação
interno", diz Daniela.
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O caso do galã de Hollywood Richard Chamberlain é
extraordinário para entender a angústia de "sair do
armário", expressão criada pelos próprios homossexuais
para se referir aos que assumem a verdadeira identidade. Ele só
decidiu revelar sua homossexualidade agora, aos 69 anos. Na autobiografia
Amor Partido, ele fala do pavor que tinha de ser estigmatizado
e dos efeitos nocivos que, em sua avaliação, a verdade
poderia acarretar a sua carreira. Há várias barreiras
diante das pessoas que decidem tornar pública a homossexualidade.
A primeira delas é individual. Como admitir para si mesmo
que, ao contrário do que esperavam papai e mamãe,
você sente atração por alguém do mesmo
sexo? E como criar coragem para transformar essa emoção
em ação? "No fundo, no fundo, a gente acaba se enganando",
conta a professora de dança Daniela Hristov, uma paulistana
de 27 anos, que namora há um a bailarina Miriam Bastos, de
25 anos, natural de Santos, litoral de São Paulo. As duas
se conheceram em Salvador, durante um curso de dança. Miriam
foi a primeira mulher na vida de Daniela. "Desde adolescente, eu
me encantava por minhas amigas, mas não assumia que era paixão.
Reprimia o desejo. Hoje noto que sempre senti atração
pelo corpo feminino. Trabalhava isso em minha cabeça explicando
o interesse como uma curiosidade própria das bailarinas ou
porque eu talvez gostasse da idéia de ter aquele corpo para
mim. Agora sei o que significava", conclui.
A maior parte dos jovens divide com os amigos detalhes do primeiro
beijo e da primeira relação sexual. No caso do rapaz
ou da moça homossexuais, essa satisfação costuma
ser reprimida como coisa vergonhosa. "Essa etapa, ligada ao autoconhecimento,
é longa e profundamente desgastante", afirma a psicóloga
paulista Ceres Alves de Araujo. "Então, vencida essa fase,
vem a preocupação clássica do que os outros
vão pensar", conclui Ceres. No caso da bailarina Daniela,
o processo de auto-aceitação foi mais penoso que as
etapas ligadas à aceitação por parte da sociedade.
"Depois de admitir que a Miriam havia despertado em mim uma paixão
que eu não conhecia, até esqueço que muitas
vezes estamos sendo observadas", conta a dançarina, que saiu
do armário, portanto, sem muita dificuldade. Pelo menos quando
se compara seu caso ao do advogado Sérgio Malheiros, de 37
anos, de Curitiba. "Fui casado durante mais de quinze anos com uma
mulher e tive um filho, hoje com 5 anos", conta o advogado. "Imagine
a dificuldade envolvida na decisão de abandonar tudo isso
por causa de um amor gay." No ano passado, Malheiros se casou com
Sérgio Grossmann, um funcionário público de
28 anos. "Quando o conheci ainda era casado e percebi que sentia
por ele algo que jamais senti por minha mulher nem por nenhuma outra
mulher que conheci", diz o advogado. Malheiros comenta que até
mesmo sua disposição para o sexo aumentou quando trocou
a parceira pelo parceiro. "Nós nos relacionamos com uma freqüência
bem maior do que em meu casamento hétero", afirma Malheiros.
Os estudiosos dizem que as pessoas misturam diversos sentimentos
quando descobrem que seus amigos, colegas, artistas de televisão
ou astros do rock são gays. Negativos, na maior parte das
vezes. Uma primeira reação é de surpresa, seguida
de rejeição. "Rejeitamos tudo o que consideramos diferente.
Isso faz parte do natural temperamento intolerante do indivíduo",
afirma Alexandre Saadeh, psiquiatra do Projeto Sexualidade do Hospital
das Clínicas de São Paulo. Outro sentimento comum
que surge quando alguém de nossas relações
revela ser gay é o de traição. "Para muita
gente, aquela pessoa querida mudou a orientação sexual
especialmente para nos atingir", afirma a psicóloga Ceres.
Essa explosão de sensações é esperada,
mas a ela se associam outras idéias a respeito da homossexualidade,
que configuram o preconceito. Um preconceito é achar que
o gay, por definição, é um indivíduo
promíscuo. Essa visão sempre existiu, mas ganhou força
com o surgimento da Aids, que numa primeira fase ficou conhecida
como "peste gay". A visão distorcida começou a mudar
quando o número de mulheres vitimadas pela doença
cresceu e se descobriu que a síndrome não tinha ligação
com a orientação sexual, mas com hábitos de
risco. Outro preconceito é achar que pertencem a um só
balaio gays, lésbicas e travestis. Uma coisa é um
homem ou uma mulher que escolheu manter relações sexuais
com pessoas do mesmo sexo. Outra coisa é quando uma pessoa
modifica seu corpo à base de cirurgias e vive de shows ou
da prostituição.
AP
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PAPAI
E PAPAI
O último levantamento diz que há pelo menos 2 milhões de crianças
morando com casais gays só nos Estados Unidos. |
Apesar
do preconceito, o panorama se tornou menos hostil aos gays em função
de uma série de vitórias computadas aqui e ali. Uma
grande conquista foi de ordem legal. Em graus variados, a maioria
dos países adotou leis de proteção às
diferenças. Dezenas de nações ainda tratam
a homossexualidade como crime, entre elas Argélia, Irã
e Paquistão. Mas, analisados apenas os países mais
civilizados, há avanços notáveis. Holanda e
Bélgica dão a gays que se casam os mesmos direitos
dos não-gays. No Canadá, as autoridades consideraram
inconstitucional a definição de casamento como "união
entre homem e mulher". Na França, na Alemanha e em países
escandinavos, há estatutos semelhantes ao da união
civil estável para casais do mesmo sexo. Recentemente, a
Justiça argentina decidiu que uniões homossexuais
em Buenos Aires devem ter todos os direitos civis dos casamentos
heterossexuais. Há algum tempo, o Parlamento europeu aprovou
resolução recomendando aos países da União
Européia que reconheçam e estabeleçam garantias
legais para as famílias formadas por homossexuais. Para educar
a sociedade, em alguns casos são aprovadas leis específicas.
Na Inglaterra, no ano passado, as autoridades de ensino de uma região
de Londres detectaram algumas manifestações de hostilidade
contra gays. Imediatamente, estudantes do ensino secundário
daquele lugar foram obrigados a freqüentar um curso destinado
a erradicar a homofobia. Em muitos países, os casais gays
têm direito à adoção. De acordo com a
última pesquisa, há pelo menos 2 milhões de
crianças morando com casais homossexuais apenas nos Estados
Unidos.
Mesmo no Brasil, onde a legislação não é
das mais avançadas, os gays registram diversas conquistas.
Por decisão da Justiça gaúcha, o Instituto
Nacional de Seguridade Social, órgão público
responsável pelo pagamento das aposentadorias, vem sendo
obrigado a custear a pensão a viúvos e viúvas
de homossexuais. Os casos de outros Estados ainda são resolvidos
na Justiça, mas percebe-se uma boa vontade legal em proteger
as uniões de mesmo sexo. Em Minas Gerais, a Justiça
recusou o pedido de uma mãe biológica que queria ficar
com a guarda do filho. O garoto morava num lar gay, com seu pai
e o "padrasto". A decisão mais famosa ocorreu em janeiro
do ano passado pós a morte da cantora Cássia Eller.
A Justiça carioca resolveu que Chicão, o filho da
cantora, poderia ficar provisoriamente com a companheira dela, Maria
Eugênia Vieira Martins, que viveu com Cássia durante
catorze anos. "A questão da homossexualidade não tem
importância", escreveu o juiz na sentença. "O essencial
foi assegurar o interesse superior de Chicão." O respeito
aos gays e a seus direitos produz um efeito imediato na vida deles,
mas também inocula na sociedade uma preocupação
crescente em respeitar as diferenças individuais, não
apenas de ordem sexual, mas de classe social e cor, por exemplo.
No Brasil, os casos de preconceito e manifestações
de intransigência, ainda que violentas, em geral são
isolados. Até alguns anos atrás, a legislação
deixava espaço para que aqueles que desrespeitassem um homossexual
não fossem punidos. Hoje, isso é praticamente impossível.
Há cerca de quinze anos, as publicitárias Maria Cecília
Pinheiro, de 41, e Elza Mioko, de 45, passaram pela experiência
desagradável de ser expulsas de um bar no interior de São
Paulo. "Nós estávamos falando alto e levantando muitos
brindes. Alguém chamou o garçom e ele trouxe a conta
sem que tivéssemos pedido", relata Maria Cecília.
"Hoje, isso seria impensável. Todo mundo sabe que essa atitude
é ilegal." O casal, unido há 22 anos, aprendeu a enfrentar
os dissabores da vida a dois gay. "Olha como éramos bobas,
tínhamos muita culpa por ser lésbicas", comenta Cecília.
As duas tiveram um início de vida conjugal bem conturbado.
"Saí de casa, sem dinheiro, porque me sentia incompreendida",
diz Cecília. "A Elza era meu único apoio", completa.
Jader da Rocha
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O
CASO DOS SÉRGIOS
O advogado Sérgio Malheiros (à esq.)
deixou um casamento de quinze anos e foi viver com o funcionário
público Sérgio Grossmann. "Assumir me fez bem",
diz Malheiros.
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Além dos avanços de natureza legal, há outra
conquista igualmente importante de caráter econômico.
Como a maior parte dos gays não tem família para criar
nem escola de criança para pagar, suas despesas mensais fixas
são mais baixas que as dos heterossexuais. Isso aumenta significativamente
seu poder de compra, o que os torna bem-vindos nas lojas, agências
de viagens, corretoras de imóveis. Esse conforto material
produz um estilo de vida. O empresário carioca Fabiano Cid,
33 anos, dono de uma empresa de tradução, é
um bom exemplo. Cid gosta de se vestir bem, de comer bem (com cuidado
para não engordar), de sair para dançar e de estar
sempre reunido com os amigos. "Isso tudo custa dinheiro, mas o prazer
é que importa. Adoro a vida gay. Tem tudo a ver comigo",
diz. Estudo recente feito nos Estados Unidos com base em dados do
Instituto de Estatística americano mostra que os casais de
gays e lésbicas estudam mais que os casados heterossexuais
e ganham 25% mais. Mais endinheirados que a média da sociedade
heterossexual e amparados pela Justiça, os gays foram à
luta quando um número crescente deles passou a sentir a necessidade
de se casar, de constituir família. E é impossível
fazer isso sem se expor, sem se "misturar". Quando os gays se casam,
surge a necessidade de comprar uma casa para morar, de pegar financiamento
no banco, de adquirir um plano de saúde. E, nessa hora, os
casais acabam exibindo sua sexualidade.
É
o que acontece quando um casal gay viaja e na recepção
do hotel pede ao atendente um quarto com cama de casal. "Ninguém
pensa em sexo quando pedido semelhante é feito por um casal
heterossexual", comenta o chef de cozinha gaúcho Carlos Rosa,
40 anos, casado há seis com o decorador César Siqueira,
35. Os dois namoraram um ano antes de morar juntos. "Mas, se sou
eu e meu namorado, sinto que meu comportamento está sendo
analisado", diz o chef. Outro constrangimento freqüente aparece
quando um dos dois integrantes do casal recebe um convite para um
casamento ou festa válido para duas pessoas. A psicóloga
paulista Maria Lima, 56 anos, se recorda até hoje do dia
em que compareceu à festa de 50 anos de seu irmão
junto com sua companheira e foi barrada pelo segurança. "Acabamos
sendo colocadas para dentro depois de muita discussão", lembra-se
Maria.
Reuters
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PAÍS
AVANÇADO
Em 2001, a Holanda celebrou os primeiros casamentos de gays
e lésbicas. Lá e na Bélgica, casais homo e hétero possuem
os mesmos direitos civis quando se unem.
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A
vida a dois envolve objetivos comuns, sejam os casais gays ou não.
O casamento funciona para todos como uma opção de
cura para a solidão e a sensação de vazio dos
solteiros. Há outras semelhanças na vida conjugal
seja ela de gays ou de héteros. Ambos discutem a relação,
ambos lutam para evitar que a convivência caia na monotonia
que assola a maioria dos casamentos, ambos temem que o parceiro
ceda à tentação de trair. Outra semelhança
é uma discussão constante sobre o papel doméstico
de cada cônjuge. Passar, lavar, arrumar a casa. Gays e não-gays
vivem debatendo para saber a quem cabe cada tarefa. A relação
estável e monogâmica não é a única
forma de convivência entre os sexos, mas está sacramentada
como a mais conveniente entre os heterossexuais. Na comunidade gay,
essa opção parece estar virando moda. Há, no
entanto, algumas especificidades na relação a dois
entre gays. A união heterossexual mistura amor, atração
e um terceiro motor, igualmente importante, o impulso de perpetuação
da espécie. O casamento gay não envolve reprodução.
Essa diferença é poderosa. A existência de filhos
faz com que casais heterossexuais contornem as dificuldades ligadas
ao fim do estado da paixão em nome da estabilidade da união.
Na observação dos estudiosos, os casamentos gays acabam
sendo menos longevos em função disso.
Essas são, digamos, as diferenças de ordem sentimental.
Mas o casamento gay enfrenta dificuldades ligadas a certas restrições
legais. Uma delas é a impossibilidade de conceituar a união
entre duas pessoas do mesmo sexo como família. Pelo Código
Civil, família é tão-somente a união
formada por um homem e uma mulher. Não há alternativas.
Na vida prática, isso impede que os casais gays comprem títulos
familiares em clubes, o que baratearia as despesas. O código
proíbe também a declaração conjunta
do imposto de renda. Não permite a adoção de
crianças pelo casal, apenas por solteiros. Dificulta ainda
a composição de renda para compra da casa própria.
Nem todos têm a sorte das professoras universitárias
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luciana Nunes, 33 anos,
e Suzi Camey, 32 anos, que conseguiram juntar renda para comprar
uma casa financiada pela Caixa Econômica Federal. "O papel
do empréstimo foi o primeiro documento conjunto de uma união
de doze anos", diz Luciana. E o direito a herança acontece
apenas se o viúvo ou viúva entrar na Justiça
e provar que havia entre os dois uma sociedade. "Acho indecente
que, se um dia eu enfrentar a dor do falecimento do meu companheiro,
eu ainda tenha de brigar por direitos que são inquestionáveis
para qualquer casal heterossexual", afirma o estilista Carlos Tufvesson,
do Rio de Janeiro, casado há oito anos com o arquiteto André
Piva, de 36 anos. Os dois integram há muitos anos o livro
Sociedade Brasileira, de Helena Gondim, uma espécie
de agenda "quem-é-quem" no high society carioca.
Daí por que gays e lésbicas têm tanto interesse
na aprovação do projeto de lei que regulamenta a união
entre pessoas do mesmo sexo. A vida deles ficaria mais fácil
com a aprovação do projeto, que está no Congresso
Nacional desde 1995. Os estudiosos do assunto dizem que, quando
têm pela frente principalmente desafios de ordem prática,
isso quer dizer que os gays já enfrentaram a maior das barreiras.
"Eles estão convencidos de que fizeram a opção
sexual correta e se sentem à vontade para enfrentar as conseqüências
ligadas à nova orientação", diz a psicóloga
Ceres Alves de Araujo. "A fase mais difícil já passou."
Reginaldo Teixeira
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OS
PASSEIOS GAYS
Uma agência de São Paulo especializada em turismo para homossexuais
e folhetos de alguns dos passeios oferecidos ao redor do mundo.
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