Edição 1808 . 25 de junho de 2003

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MINISTÉRIO
A carga está pesada

Os poderes de José Dirceu, que incluem leque
imenso de tarefas, vão passar por uma lipo


Policarpo Junior

O ministro José Dirceu, o todo-poderoso chefe da Casa Civil, é a figura mais relevante da república petista depois do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De seu gabinete, Dirceu coordena a articulação política do governo, esgrimindo contra a própria bancada petista e atendendo aos pleitos dos parlamentares da base aliada. Também comanda as conexões internas do governo, cumprindo um papel parecido ao exercido, na gestão anterior, pelo ministro Pedro Parente. Além disso, ainda controla o preenchimento de quase 20.000 cargos de confiança na administração federal. Parece trabalho demais para um único ministro – e é mesmo. José Dirceu continua sendo a sombra mais poderosa de Brasília, mas, em breve, seu vasto cardápio de atribuições será submetido a uma lipoaspiração. No futuro próximo, ainda sem data definida, o governo pode até criar um novo órgão, talvez um novo ministério, para absorver as funções burocráticas exercidas pela Casa Civil. A partilha do poder, pelo menos, já foi decidida pelo presidente Lula. Resta executá-la.

José Dirceu já vem sendo poupado de algumas tarefas. Lula já aliviou o ministro de comandar as reuniões de coordenação entre os ministérios, destinadas a cobrar resultados e harmonizar funções de pastas afins. Nos ministérios da área social, por exemplo, a articulação está sendo gradativamente transferida às mãos da assessora especial da Presidência, Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel. A José Dirceu caberá fazer apenas a supervisão geral, sem envolver-se nas questões operacionais. Desde a semana passada, a responsabilidade pelo preenchimento dos cargos do terceiro escalão do governo também está sendo dividida com os demais ministros. Antes, até a nomeação de uma secretária para atender ao telefone em alguma repartição pública tinha de passar pela aprovação do chefe da Casa Civil – o que é o paroxismo da concentração de poderes burocráticos. "É humanamente impossível dar conta de tudo isso", diz um petista que priva da intimidade do presidente e tomou conhecimento das mudanças em estudo.

A sobrecarga de Dirceu já criou dificuldades políticas ao governo que poderiam ter sido evitadas com um simples telefonema. O deputado Beto Albuquerque, do PSB gaúcho, por exemplo, ficou uma arara por não ter sido convidado a integrar a caravana presidencial que, na semana passada, visitou a cidade de Pelotas, sua base eleitoral. "Eu nem fui avisado da viagem. Foi um desrespeito", reclamou o deputado ao ministro José Dirceu. "Os ministros também não estão recebendo ninguém", esperneia o líder do PMDB, Eunício Oliveira, cujo partido é um recém-chegado à base aliada. O presidente Lula acredita que a divisão de funções da Casa Civil, deixando-a mais livre para cuidar da articulação parlamentar, tende a evitar que problemas dessa ordem voltem a acontecer. São atropelos miúdos, mas todo mundo sabe da repercussão negativa que provocam entre os parlamentares, sempre tão carentes de qualquer gesto de afago do poder central.

A redução dos encargos de José Dirceu pode acontecer antes da reengenharia que Lula quer fazer no seu ministério depois que as reformas tributária e previdenciária forem aprovadas pelo Congresso Nacional, o que, obviamente, só acontecerá no segundo semestre do ano. Desde já, porém, o presidente tem feito uma avaliação semanal do desempenho de cada um de seus auxiliares, tanto para evitar a paralisia do governo quanto para pavimentar o caminho da reforma ministerial. Lula tem se mostrado bem impressionado com a atuação de alguns ministros e não esconde sua insatisfação com o desempenho de outros. Numa recente reunião de avaliação no Palácio do Planalto, segundo o relato de um dos presentes à mesa, o presidente fez um balanço. Elogiou a ministra Dilma Rousseff, das Minas e Energia, pela firmeza com que vem reorganizando o setor energético, comentou o sucesso da política externa conduzida pelo chanceler Celso Amorim e enalteceu a lealdade de Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional. Do outro lado da gangorra, Lula mostrou-se decepcionado com a falta de apoio dos intelectuais ao governo, responsabilizando o ministro Roberto Amaral, da Ciência e Tecnologia, mostrou-se preocupado com a lentidão na área dos transportes, comandada por Anderson Adauto, e exibiu sua surpresa com a escassa sensibilidade política do ministro da Educação, Cristovam Buarque. É um termômetro de como anda o poder.

 


Montagem sobre fotos de Fabio Motta/AE/José Paulo Lacerda/AE/Milton Michida/AE


 
 
 
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