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PREVIDÊNCIA
Me inclui fora dessa!
Magistrados
reagem à reforma
previdenciária e pedem um regime
só para eles, bem longe da "vala comum"

Malu Gaspar
Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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| Magistrados
se reúnem em São Paulo: quem vai trabalhar por
2 400 reais? |
Na
semana passada, o país assistiu a uma mobilização
raríssima. Como acontece normalmente nas assembléias
sindicais de trabalhadores comuns, a cúpula do Poder Judiciário
mobilizou-se para levantar sua voz de norte a sul do território
nacional mas não pediu justiça. O Judiciário
pediu, ao contrário, que não seja incluído
na reforma da Previdência, a ser aplicada aos demais brasileiros.
Em Brasília, o ministro Maurício Corrêa, 69
anos, presidente do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte
do país, liderou uma reunião com 100 magistrados dos
mais altos tribunais brasileiros para repudiar a reforma. Em 22
Estados, 3.500 membros do Judiciário
e do Ministério Público promoveram atos públicos
e reuniões para protestar contra ela e, mostrando sua disposição
para a luta, até ameaçam decretar uma greve geral
nas próximas semanas. Em todos os encontros, magistrados,
procuradores e desembargadores comportaram-se segundo a velhíssima
regra que se observa desde os primórdios da humanidade: todo
mundo é a favor da justiça e da igualdade, desde que
aplicadas aos outros. A categoria dos servidores do Judiciário
admite que seja feita a reforma previdenciária, até
acha que o déficit do sistema é insustentável,
concorda que é preciso reformá-lo, mas pede, digamos
assim, que fique fora dessa.
A
reivindicação de um tratamento privilegiado é
fácil de entender. Enquanto um aposentado do setor privado
ganha cerca de 380 reais por mês, os servidores do Judiciário
federal recebem em média 8.000
reais na aposentadoria. Como o projeto de reforma do governo Lula
propõe um teto de 2.400 reais
para todos os aposentados, os membros do Judiciário, que
atualmente se aposentam com salários integrais, não
querem nem ouvir falar em mudança das regras da Previdência.
O sistema previdenciário brasileiro acusa um déficit
de 80 bilhões de reais neste ano. A parte mais substancial
desse déficit, 56 bilhões, decorre do pagamento de
aposentadorias aos servidores públicos, que vão para
a inatividade com os mesmos salários que usufruíam
na ativa, ao contrário de todos os aposentados do setor privado.
Roberto Castro/AE
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| Maurício
Corrêa, chefe do STF: 29 000 reais por mês e no
rumo de obter sua terceira aposentadoria |
Trata-se
de um privilégio injusto pela diferença de tratamento
entre os trabalhadores brasileiros, beneficiando-se apenas a parte
dos que usam crachá de repartição pública.
E quem paga pelo privilégio dos funcionários públicos
são justamente aqueles a quem o sistema destina as piores
remunerações. A questão mais grave, porém,
não é de justiça, embora ela esteja muito em
falta quando se trata de dividir o dinheiro da Previdência
Social. O mais grave é que o sistema previdenciário
se tornou insustentável com o poderoso déficit que
cava a cada ano nas contas do governo. Esse item tornou-se o mais
importante entre os que debilitam as finanças públicas,
impedem maior aplicação de recursos nas políticas
sociais e travam a retomada do desenvolvimento.
Na
reunião do STF, o ministro Maurício Corrêa foi
elegantemente aclamado pelos presidentes de associações
de juízes como líder da categoria, responsável
por defender seus direitos. No fim do encontro, divulgou-se uma
pauta de reivindicações. Entre outros itens, os homens
da toga são contra a taxação dos inativos,
o que era previsível, e querem a criação de
um regime próprio de previdência social, um regime
só deles e muito mais camarada que o sistema a ser
aplicado aos mortais comuns. "O Poder Judiciário é
uma carreira de Estado e, assim sendo, não pode ser inserido,
segundo os moldes pretendidos pelo governo, na vala comum", discursou
o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Nilson
Naves. De fato, os magistrados exercem uma carreira que só
existe no âmbito do Estado, mas, apenas por uma questão
de justiça, é recomendável lembrar que há
outras carreiras exclusivas da esfera pública, como a dos
diplomatas, a dos policiais, a dos fiscais de renda que,
pelo menos até agora, ainda não apareceram em público
pedindo que não fiquem na "vala comum".
A
verdade é que os membros do Judiciário estão
a anos-luz da vala comum. Estão entre os servidores públicos
mais bem pagos do país. Hoje, a média dos salários
no Judiciário é de 6.600
reais, levemente inferior à do Legislativo, de 6.800,
e muito superior à do Executivo, de 3.700,
isso para evitar comparações com a média salarial
iníqua da maioria dos trabalhadores brasileiros. A média
dos ganhos do Judiciário é elevada devido aos mais
altos salários, recebidos justamente pelos que, na semana
passada, se mobilizaram contra a reforma. Um exemplo é o
próprio ministro Maurício Corrêa. Além
do salário do STF, de pouco mais de 17.000
reais, ele ainda recebe uma aposentadoria como ex-procurador e outra
como ex-parlamentar. No fim, embolsa 29.000
reais todos os meses. Não há nenhuma ilegalidade nos
ganhos do ministro. Está tudo dentro da lei. E pela lei atual,
em maio do ano que vem, quando completar 70 anos, o ministro se
aposentará no STF recebendo os mesmos 17.000
reais da ativa, depois de ter trabalhado menos de dez anos no tribunal.
O
Judiciário tem o hábito de guardar sua radiografia
salarial como se fosse segredo de Estado. Sabe-se que, de 1995 até
hoje, os gastos da União com o Judiciário federal
cresceram 265%. A folha de pagamento dos aposentados e pensionistas,
que acumulam todas as vantagens concedidas aos profissionais da
ativa, cresceu 230% no mesmo período. São dados fornecidos
pelo governo federal. No Judiciário, porém, não
se informa o salário exato de juízes ou desembargadores.
Na semana passada, VEJA conversou com alguns magistrados presentes
à assembléia presidida por Maurício Corrêa
para conhecer seus vencimentos, mas ninguém está disposto
a contar. "São tantos descontos que nem sei direito quanto
ganho", diz Francisco Fausto, presidente do Tribunal Superior do
Trabalho (TST).
Na
mobilização da semana passada, houve uma tentativa
de minimizar o caráter sindical das manifestações,
mas todas as discussões versaram sobre o que sempre se discute
em assembléias sindicais: salário. Os togados repudiam,
por exemplo, a criação de uma escala salarial, proposta
pelo governo para os funcionários da ativa. Pelo projeto,
o teto nacional passará a ser o salário de um ministro
do STF, de 17.000 reais, o dobro do que
ganha o presidente da República. Desembargadores, que ocupam
o mais alto posto da Justiça nos Estados, ficarão
com, no máximo, 12.800 reais.
E os demais juízes estaduais terão um teto de 9.700.
Além de reagirem à escala, cujo objetivo é
evitar o crescimento desmesurado dos salários impondo-lhes
um limite, os togados não querem perder a aposentadoria integral.
"Quem vai assumir a magistratura sabendo que, no fim da carreira,
vai receber 2.400 reais?", indaga o procurador
Nedens Ulisses, presidente do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais
de Justiça. Lembre-se, por uma questão de justiça,
que, na iniciativa privada, milhões de brasileiros optam
por centenas de carreiras diferentes, várias tão importantes
quanto a de um magistrado, e se aposentam, pelas regras atuais,
com muito menos de 2.400 reais.
Os
integrantes do Judiciário, realmente, exercem uma função
típica de Estado, com peculiaridades exclusivas, e contam
com privilégios exatamente por isso. Os juízes, por
exemplo, têm garantia de estabilidade no emprego, que é
vitalício, e jamais convivem com o fantasma do desemprego.
A cada cinco anos de serviço, têm direito a três
meses de folga, benefício que a maioria costuma optar por
receber na forma de dinheiro. Quando completam vinte anos no batente,
recebem um aumento salarial de 18%, mesmo que tenham feito uma carreira
medíocre ou tido uma produtividade escandalosamente baixa.
Também não podem ser transferidos de uma vara para
outra, a menos que assim o desejem. Por fim, têm direito a
sessenta dias de férias por ano, o dobro dos demais trabalhadores
privados e mesmo dos demais servidores públicos. É
um privilégio que o ministro Maurício Corrêa
considerava descabido, mas isso quando era senador. Agora, como
membro do STF, mudou de opinião. Deu-se conta de que as férias
são merecidas devido ao "volume excepcional de trabalho".
A
reforma da Previdência tem gerado uma tremenda polêmica,
embora o grosso da sociedade seja a favor da mudança. Um
dos segmentos que têm polemizado sobre a proposta do governo
é o próprio PT, cuja clientela eleitoral inclui as
categorias de funcionários públicos. Em Brasília,
na Câmara dos Deputados, a bancada petista está dividida.
Na terça-feira passada, os deputados do PT reuniram-se para
ratificar um documento formal de apoio à proposta previdenciária
do governo. Aprovaram, mas veio a público um racha considerável:
foram 32 votos a favor e 22 contra.
A
maior resistência, porém, está mesmo no funcionalismo,
cujos servidores se aposentam com proventos mais altos e muito mais
cedo que os trabalhadores da iniciativa privada, sem contar a segurança
de jamais ser demitidos por incompetência. Parecem nunca se
lembrar de que, embora formalmente tenham perdido a estabilidade
no emprego, só são demitidos em casos absolutamente
extremos, o que explica por que, em seus atos públicos, não
se ouve protesto contra a altíssima taxa de desemprego no
país. Em qualquer lugar do mundo, qualquer categoria de trabalhadores
esperneia contra a perda de qualquer benefício, razão
pela qual a vida em sociedade está povoada de diferentes
corporações. É natural que seja assim, até
por instinto de sobrevivência. A massa de funcionários
públicos do país, quando reage contra a reforma da
Previdência, encaixa-se nesse modelo. Pode-se compreender
que queiram se proteger e preservar vantagens, embora seja financeiramente
impossível atendê-los. No caso dos membros do Judiciário,
a situação é um pouco mais grave. O conjunto
de seus integrantes tem plena ciência de que o regime previdenciário
é insustentável tal como está e tudo
o que lhes ocorre reivindicar é sua exclusão do abacaxi,
pura e simplesmente. Esse tipo de comportamento explica, em parte,
a gênese de um dos aspectos mais vergonhosos da paisagem social
brasileira a pesadíssima concentração
de renda. De acordo com o último levantamento da ONU, a concentração
de renda no Brasil só não é maior que a de
três miseráveis países da África. É
data venia a velha história: todos querem
um país justo e solidário, desde que a justiça
e a solidariedade se façam com o bolso dos outros.
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