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EM
FOCO: Gustavo Franco
Palavras com P
"O
crescimento tem a natureza de um
palíndromo: falta de dinheiro, que tem
o mesmo sentido quer se leia da esquerda
para a direita, quer da direita para a esquerda"
Se
o governo for bem-sucedido em usar seu primeiro ano para os "males
necessários", aí incluídos o fim da inflação
e a reforma da Previdência, terá feito uma aposta inteligente.
Poderá, assim, reservar todo o restante da administração
para seguir a sabedoria florentina de fazer o bem aos poucos e por
período prolongado. Será necessário controlar
ansiedades e, principalmente, ter sucesso em promover o crescimento,
processo que nada tem de pacífico.
Ilustração Ale Setti
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Com efeito, o país está prenhe de crescimento há
muitos anos, mas parece tropeçar nas palavras, quando se
trata de definir o "novo modelo". Com o propósito de esclarecer
as preliminares para o crescimento, eis aqui um pequeno dicionário
com verbetes, muitos com P, relevantes para o problema.
1. Primário. O leitor que ouve a expressão "superávit
primário" pode ter a falsa percepção de que
o governo possui uma sobra de dinheiro e não gasta porque
não quer. Errado. O superávit primário, de
4,5% do PIB em doze meses, é o produto das contas do governo
excluindo juros. É um artificialismo contábil, sem
o qual temos déficit, e grande, de 4,8% do PIB. Perde-se
muita precisão com o amplo uso do conceito "primário".
Note-se que seria fácil propor, por exemplo, um superávit
"principal", que exclui o resultado da Previdência, ou o "primordial",
que não inclui os investimentos, ou o "proporcional", que
aparta as despesas com pessoal. Todos teriam algum propósito,
mas, de verdade, seriam apenas palavras com P com o fito de engabelar.
O número que realmente conta, despesa menos receita, sem
truques, tudo incluído, é o déficit nominal:
aproximadamente 63 bilhões de reais nos últimos doze
meses.
2. PIB. A despeito de o governo dar um prejuízo desse porte,
todo ele coberto com novo endividamento público, a dívida
pública como proporção do PIB permanece estável,
ou mesmo caindo, graças em boa medida ao bendito denominador.
O leitor com pendores matemáticos notará que algo
está errado, pois o denominador não está crescendo.
Procede, mas a conta é feita com o PIB nominal, o qual, ainda
que parado em termos reais, cresce com a inflação.
3. Penúria. Afastados os truques acima explicados, a conclusão
é que o setor público não tem dinheiro para
investir, e a penúria é invariante a mudanças
no conceito de déficit: qualquer aumento de despesa gera
mais dívida, não importa se a nova despesa for financeira
ou de investimentos em saneamento.
4. Investimento Privado. O total do investimento, público
e privado, feito no Brasil deve andar por volta de 16% do PIB, menos
da metade do que se observa nos países emergentes da Ásia.
Não há outra explicação para o baixo
crescimento no Brasil. O que ainda não foi inteiramente percebido
é que, como o governo se encontra em estado de Penúria,
caberá ao setor privado responder pela diferença.
A técnica para acordar o investimento privado é um
tanto diferente do que muitos imaginam: a vontade política
não é relevante e a vontade privada é caprichosa.
5. Privatização. A mais maldita das palavras com P
continua a fazer muito sentido na medida em que se trata de transferir
responsabilidades de investimento para o setor privado, processo
esse amplamente bem-sucedido em setores como siderurgia e telefonia.
Pode ser mais difícil em setores nos quais interesses públicos
e privados estejam em conflito. Mas novas possibilidades precisam
ser pesquisadas.
6. Parceria Público-Privada (PPP). O tema tem sido bastante
discutido, mas ainda não há muita clareza sobre seu
significado, que pode perfeitamente ser apenas privatização
prudente, por partes, pactuada ou apenas petista. O setor privado
desconfia porque a hostilidade para com as agências reguladoras,
ou para com os indexadores dos contratos de concessionários,
para não falar em problemas em nível estadual, fez
crescer a importância de duas palavras com R: risco regulatório.
Moral da história: o crescimento tem a natureza de um palíndromo
um verso, palavra ou problema (falta de dinheiro) que tem
o mesmo sentido quer se leia da esquerda para a direita, quer da
direita para a esquerda.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com,
www.gfranco.com.br)
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