Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Televisão
América sem norte

A novela das 8 passou por ajustes,
mas não se livrou das polêmicas
nem das bobagens


Ricardo Valladares

 

Divulgação
Sol (Deborah Secco): ela saiu da caixa para cair no samba

No ar há menos de três meses, a novela América ameaça quebrar recordes em dois quesitos: as polêmicas negativas e as patacoadas. Antes mesmo da estréia, o folhetim das 8 da Rede Globo estava sob bombardeio das ONGs de proteção aos bichos, enfurecidas com a informação de que a autora, Glória Perez, escolhera os rodeios como tema. Agora, além da turma que é contra os rodeios, há novo foco de insatisfação: a turma que é a favor deles. Tião Procópio, peão que é a fonte de inspiração do personagem de Murilo Benício, não reconhece seu universo naquelas competições com clima de quermesse. "Tudo bem que é novela, mas rodeio assim não existe", diz Tião – inconformado, entre outros motivos, pelo fato de os boiadeiros serem mostrados como beberrões. Quanto às patacoadas bem, elas pedem um parágrafo à parte.

Se bem conduzidas, as polêmicas contribuem para a repercussão de um folhetim. Nas controvérsias de América, no entanto, foi a novela que ficou na mira. Na semana passada, quando uma equipe da Globo gravaria imagens na festa do peão de Jaguariúna (não sem enfrentar dificuldades na negociação com os organizadores), no interior paulista, o folhetim causava debate no local. Um dos motivos são as quatro personagens que fazem as vezes de "marias-breteiras" – as namoradeiras que exercem marcação cerrada nos peões ao lado dos bretes, os espaços em que ficam os touros. Mal algum peão é derrubado pelo touro Bandido, as marias-breteiras de América caem matando sobre a carne-seca. "Se existe essa promiscuidade, não é aqui. Só na festa de Barretos", diz Valdomiro Poliselli Júnior, diretor do rodeio de Jaguariúna. A irritação dos vaqueiros deverá crescer quando Júnior, o gay interpretado por Bruno Gagliasso, sair do armário. Por enquanto, ele só nutre uma paixão platônica por Tião.

 
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Almer Photo
O Tião da novela e o da vida real (à dir.): "Rodeio assim não existe"

América teve problemas no ibope em razão dos absurdos da trama. Passou por ajustes – mas não se livrou das bobagens. A protagonista Sol é o símbolo ululante disso. A atriz Deborah Secco levou a sério a diretriz de Glória Perez para que a personagem não mais sofresse e virasse uma garota alto-astral: se antes só chorava, agora sorri até sob tortura. Em sua nova fase, Sol já saiu de dentro de uma caixa de papelão, na qual se escondera para fugir da imigração americana, no meio da sala de um cidadão – o que bastou para o sujeito se apaixonar por ela. Ed (Caco Ciocler) guardou o caixotão por dias e, de tanto observá-lo em êxtase, se desentendeu com a mulher. Sol agora só aparece em modelitos sumários e arranjou um emprego de sambista numa boate de Miami, onde exibe um requebrado que ameaça arrasar com a reputação das passistas brasileiras no exterior. Já Tião até que se encontrou nos Estados Unidos. Lá, ele se encaixou à perfeição no núcleo "Sai de Baixo" – a pensão caricata tocada por Claudia Jimenez. Uma cena exibida na quinta-feira passada mostra quanto a trama é constrangedora. Ao ver Sol na boate, Tião a carregou nos ombros até uma limusine, onde o casal fez amor ao som do lancinante falsete de Caetano Veloso, que cantava Eu Sei que Vou Te Amar enquanto o carro andava pelas ruas de uma Miami de mentirinha.

Nem tudo vai mal em América. Cleo Pires vai bem, obrigado, e Mariana Ximenes também. E, se o par romântico não engata nem no tranco, isso é compensado pelo núcleo dos cegos, visto com simpatia pelo público. Nas próximas semanas, dois deficientes visuais (de verdade) serão incorporados à trama. Mas mesmo essa ala não destoa do restante da novela. Marcos Frota põe tanta "emoção" no personagem Jatobá que se tornou o único cego que consegue se entender com os outros na base do "olhos nos olhos".

 
 
 
 
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