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Televisão América
sem norte A novela das 8 passou por ajustes,
mas não se livrou das polêmicas nem das bobagens
 Ricardo
Valladares Divulgação
 | | Sol
(Deborah Secco): ela saiu da caixa para cair no samba |
No
ar há menos de três meses, a novela América ameaça
quebrar recordes em dois quesitos: as polêmicas negativas e as patacoadas.
Antes mesmo da estréia, o folhetim das 8 da Rede Globo estava sob bombardeio
das ONGs de proteção aos bichos, enfurecidas com a informação
de que a autora, Glória Perez, escolhera os rodeios como tema. Agora, além
da turma que é contra os rodeios, há novo foco de insatisfação:
a turma que é a favor deles. Tião Procópio, peão que
é a fonte de inspiração do personagem de Murilo Benício,
não reconhece seu universo naquelas competições com clima
de quermesse. "Tudo bem que é novela, mas rodeio assim não existe",
diz Tião inconformado, entre outros motivos, pelo fato de os boiadeiros
serem mostrados como beberrões. Quanto às patacoadas bem,
elas pedem um parágrafo à parte.
Se bem conduzidas, as polêmicas contribuem para a repercussão de
um folhetim. Nas controvérsias de América, no entanto, foi
a novela que ficou na mira. Na semana passada, quando uma equipe da Globo gravaria
imagens na festa do peão de Jaguariúna (não sem enfrentar
dificuldades na negociação com os organizadores), no interior paulista,
o folhetim causava debate no local. Um dos motivos são as quatro personagens
que fazem as vezes de "marias-breteiras" as namoradeiras que exercem marcação
cerrada nos peões ao lado dos bretes, os espaços em que ficam os
touros. Mal algum peão é derrubado pelo touro Bandido, as marias-breteiras
de América caem matando sobre a carne-seca. "Se existe essa promiscuidade,
não é aqui. Só na festa de Barretos", diz Valdomiro Poliselli
Júnior, diretor do rodeio de Jaguariúna. A irritação
dos vaqueiros deverá crescer quando Júnior, o gay interpretado por
Bruno Gagliasso, sair do armário. Por enquanto, ele só nutre uma
paixão platônica por Tião. Divulgação
 | Almer
Photo
 | | O
Tião da novela e o da vida real (à dir.): "Rodeio assim não
existe" |
América
teve problemas no ibope em razão dos absurdos da trama. Passou por
ajustes mas não se livrou das bobagens. A protagonista Sol é
o símbolo ululante disso. A atriz Deborah Secco levou a sério a
diretriz de Glória Perez para que a personagem não mais sofresse
e virasse uma garota alto-astral: se antes só chorava, agora sorri até
sob tortura. Em sua nova fase, Sol já saiu de dentro de uma caixa de papelão,
na qual se escondera para fugir da imigração americana, no meio
da sala de um cidadão o que bastou para o sujeito se apaixonar por
ela. Ed (Caco Ciocler) guardou o caixotão por dias e, de tanto observá-lo
em êxtase, se desentendeu com a mulher. Sol agora só aparece em modelitos
sumários e arranjou um emprego de sambista numa boate de Miami, onde exibe
um requebrado que ameaça arrasar com a reputação das passistas
brasileiras no exterior. Já Tião até que se encontrou nos
Estados Unidos. Lá, ele se encaixou à perfeição no
núcleo "Sai de Baixo" a pensão caricata tocada por
Claudia Jimenez. Uma cena exibida na quinta-feira passada mostra quanto a trama
é constrangedora. Ao ver Sol na boate, Tião a carregou nos ombros
até uma limusine, onde o casal fez amor ao som do lancinante falsete de
Caetano Veloso, que cantava Eu Sei que Vou Te Amar enquanto o carro andava
pelas ruas de uma Miami de mentirinha.
Nem tudo vai mal em América. Cleo Pires vai bem, obrigado, e Mariana
Ximenes também. E, se o par romântico não engata nem no tranco,
isso é compensado pelo núcleo dos cegos, visto com simpatia pelo
público. Nas próximas semanas, dois deficientes visuais (de verdade)
serão incorporados à trama. Mas mesmo essa ala não destoa
do restante da novela. Marcos Frota põe tanta "emoção" no
personagem Jatobá que se tornou o único cego que consegue se entender
com os outros na base do "olhos nos olhos". |