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Cinema Viagem
ao umbigo Em A Vida Marinha, um
cineasta promissor se fecha irremediavelmente em seu próprio mundo
 Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Murray,
com Cate Blanchett: de novo, um adulto que não cresceu |
Jovens
confusos, incompletos e vítimas de um ou outro tipo de atrofia emocional
que tentam se espelhar em figuras paternas ainda mais imaturas do que eles: esse
era o universo dos dois últimos filmes do americano Wes Anderson, Três
É Demais e Os Excêntricos Tenenbaums. Em A Vida
Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, Estados
Unidos, 2004), porém, esse não é um universo apenas muito
bem delimitado ele é também muito limitado, como se o diretor
tivesse trocado a câmera por um microscópio. No filme em cartaz desde
sexta-feira no país, Bill Murray interpreta Steve Zissou, um oceanógrafo
que, à maneira de Jacques Cousteau, realiza documentários sobre
a vida marinha mas, ao contrário de Cousteau, é desorganizado,
dado a picaretagens e um mau cientista. Com sua operação à
beira do naufrágio financeiro, Zissou decide registrar em filme sua busca
por um certo tubarão-jaguar, que devorou um de seus companheiros de equipe.
Num impulso, junta à tripulação Ned (Owen Wilson), um rapaz
que se apresenta como seu filho. Zissou se afeiçoa a Ned como uma criança
que ganha um brinquedo novo e põe de lado os demais ou seja, sem
investimento emocional, pelo menos até o momento em que percebe que Ned
o admira. Esse é um sentimento novo, e vai despertar em Zissou certos anseios
que ele desconhecia, como o desejo de aprovação.
A marca registrada de Anderson é o humor oblíquo, que acentua o
que há de estranho no normal e carrega consigo uma tristeza meio trágica.
Murray, que já trabalhara com o diretor em seus dois filmes anteriores,
é o ator certo para esse timbre alguém capaz de tornar as
demonstrações mais ultrajantes de egoísmo e infantilidade
em indícios de uma mágoa e um desapontamento que só seriam
possíveis em um homem que tem, de fato, um coração. O que
faz A Vida Marinha desandar é a sensação de que o
diretor não está aprofundando uma investigação: está,
sim, repetindo uma fórmula e preferindo apoiar-se nos seus maneirismos
e nos de seu ator já que ambos dispõem de público
certo, ainda que pequeno a correr algum risco. Para quem já está
no mesmo comprimento de onda que Anderson, seus caprichos (como a trilha sonora
proporcionada "ao vivo" por um músico brasileiro sem expressão)
oferecem diversão e emoção moderadas. Para o restante da
platéia, A Vida Marinha deve soar mais como monólogo do que
como diálogo. |