Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Cinema
Viagem ao umbigo

Em A Vida Marinha, um cineasta
promissor se fecha irremediavelmente
em seu próprio mundo


Isabela Boscov

 

Divulgação
Murray, com Cate Blanchett: de novo, um adulto que não cresceu

Jovens confusos, incompletos e vítimas de um ou outro tipo de atrofia emocional que tentam se espelhar em figuras paternas ainda mais imaturas do que eles: esse era o universo dos dois últimos filmes do americano Wes Anderson, Três É Demais e Os Excêntricos Tenenbaums. Em A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, Estados Unidos, 2004), porém, esse não é um universo apenas muito bem delimitado – ele é também muito limitado, como se o diretor tivesse trocado a câmera por um microscópio. No filme em cartaz desde sexta-feira no país, Bill Murray interpreta Steve Zissou, um oceanógrafo que, à maneira de Jacques Cousteau, realiza documentários sobre a vida marinha – mas, ao contrário de Cousteau, é desorganizado, dado a picaretagens e um mau cientista. Com sua operação à beira do naufrágio financeiro, Zissou decide registrar em filme sua busca por um certo tubarão-jaguar, que devorou um de seus companheiros de equipe. Num impulso, junta à tripulação Ned (Owen Wilson), um rapaz que se apresenta como seu filho. Zissou se afeiçoa a Ned como uma criança que ganha um brinquedo novo e põe de lado os demais – ou seja, sem investimento emocional, pelo menos até o momento em que percebe que Ned o admira. Esse é um sentimento novo, e vai despertar em Zissou certos anseios que ele desconhecia, como o desejo de aprovação.

A marca registrada de Anderson é o humor oblíquo, que acentua o que há de estranho no normal e carrega consigo uma tristeza meio trágica. Murray, que já trabalhara com o diretor em seus dois filmes anteriores, é o ator certo para esse timbre – alguém capaz de tornar as demonstrações mais ultrajantes de egoísmo e infantilidade em indícios de uma mágoa e um desapontamento que só seriam possíveis em um homem que tem, de fato, um coração. O que faz A Vida Marinha desandar é a sensação de que o diretor não está aprofundando uma investigação: está, sim, repetindo uma fórmula e preferindo apoiar-se nos seus maneirismos e nos de seu ator – já que ambos dispõem de público certo, ainda que pequeno – a correr algum risco. Para quem já está no mesmo comprimento de onda que Anderson, seus caprichos (como a trilha sonora proporcionada "ao vivo" por um músico brasileiro sem expressão) oferecem diversão e emoção moderadas. Para o restante da platéia, A Vida Marinha deve soar mais como monólogo do que como diálogo.

 
 
 
 
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