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Cinema
Para rir e chorar
Woody Allen volta à boa forma com Melinda e Melinda, em que
comédia e drama se confundem  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Ferrell,
Radha e Steve Carell: onde Bergman e Wilde se encontram |
Numa
mesa de restaurante, dois dramaturgos ilustram suas teses divergentes sobre a
natureza humana se cômica ou se trágica partindo da
mesma história e desenvolvendo-a cada um à sua maneira. O escritor
dramático imagina uma moça misteriosa, Melinda (a australiana Radha
Mitchell), que certa noite invade o jantar de uma amiga, em Nova York. Nessa versão,
Melinda foi casada com um cirurgião, teve dois filhos e perdeu tudo porque,
enfastiada, se meteu num caso com um fotógrafo de nome novelesco. Melinda
está tão abalada que, mal chega, toma vinte comprimidos de tranqüilizante.
Mas, quando os convivas tentam levá-la para o hospital, ela recusa a oferta:
um bom copo de vodca e estará nova em folha, ela diz, arrancando risadas
da platéia. Se essa era a Melinda trágica, a lógica ditaria
que a Melinda cômica deveria ser ainda mais engraçada. Mas não
é bem o que transcorre: depois de igualmente invadir um jantar de figuras
tipicamente nova-iorquinas, ela irá partir o coração do anfitrião
(o comediante Will Ferrell, de O Âncora), um ator cronicamente desempregado
que a mulher, uma cineasta ambiciosa, faz de serviçal. Mostrar que a mesma
história pode ser dramática ou cômica, dependendo da forma
como se a trate, já seria um desses golpes de gênio nos quais Woody
Allen se especializa, de localizar o novo no que há de mais óbvio.
Mas, em Melinda e Melinda (Estados Unidos, 2004), que estréia
nesta sexta-feira no país, o cineasta vai adiante: a despeito do que os
seus dois dramaturgos achem, o que ele quer demonstrar é que drama e comédia
são uma coisa só e a mesma coisa, e que ambos têm exatamente
o mesmo nascedouro a infinita capacidade do ser humano de ferir
a si mesmo e aos outros. Depois de
quase uma década de produção tépida mais precisamente
desde Desconstruindo Harry, de 1997 , Allen dá sinais de ter
recobrado o vigor. Na semana passada, ele entusiasmou os críticos presentes
no Festival de Cannes com seu novo filme, Match Point, no qual trocou sua
indefectível Nova York por Londres (seu próximo trabalho, ele já
avisou, será rodado em Barcelona). "Mal posso acreditar, mas acabei de
ver um grande filme de Woody Allen", escreveu o crítico A.O. Scott, do
The New York Times. A longa carreira do diretor, de fato, parece obedecer
a um padrão de ciclos de brilhantismo que se alternam com outros de inspiração
mediana e o que os demarca é sempre a maior ou menor criatividade
que Allen investe no roteiro. Não é só por causa de sua ótima
premissa, portanto, que Melinda e Melinda indica um novo ciclo. Outras,
igualmente boas, já foram desperdiçadas em filmes como Dirigindo
no Escuro. O que faz toda a diferença, aqui, é o encaminhamento
da idéia. É intencional,
por exemplo, que depois de umas poucas idas e vindas entre a Melinda trágica
e a cômica o espectador já tenha de parar para pensar em qual história,
afinal, ele se encontra (e, não fosse o elenco de apoio variar de uma versão
para a outra, a tarefa seria impossível). Em ambos os enredos há
casais em que a honestidade de um cônjuge é retribuída pelo
outro com indiferença; em ambos há traições, mal-entendidos
e, finalmente, paixões que despontam em circunstâncias inesperadas.
E em ambos também Melinda, com seu passado rocambolesco e seus ares de
heroína de ópera, é quem menos importa. A riqueza está
nas pequenas histórias que correm à sua margem, e que ela tem a
função de catalisar como a lenta e dolorosa descoberta da
personagem de Chloë Sevigny de que já se tornou supérflua para
seu marido oportunista. Melinda e Melinda é, enfim, o ponto em que
o drama de Ingmar Bergman e a farsa de Oscar Wilde se encontram e, depois
do longo inverno que o separa de Hannah e Suas Irmãs, é também
o lugar em que Woody Allen volta a reconciliar as suas duas veias. |