|
|
Livros Direto
ao ponto Mario Sabino mapeia as aflições
do amor e da alma nos apurados contos de O Antinarciso 
Moacyr Scliar
Paulo Vitale  |
| Sabino: versos de Eliot e continuação de Machado de Assis
|
O jornalista Mario Sabino já havia provado
sua competência na narrativa longa com O Dia em que Matei Meu Pai,
romance que parte de um parricídio para construir um inquietante jogo ficcional
sobre a mentira e a verdade. Agora, nos doze contos do recém-lançado
O Antinarciso (Record; 128 páginas; 23,90 reais), o autor,
redator-chefe de VEJA, mostra que domina o texto breve com a mesma maestria. Sabino
entende que conto é destino: tem de prender o leitor na primeira linha
e mantê-lo tenso até o final. É o que ele faz. Com uma apurada
economia de linguagem, seus textos mergulham, em sua própria expressão,
no "buraco negro" em que cada personagem esconde não só sua miséria,
mas também sua grandeza. A maioria dos
contos apóia-se em apenas dois personagens. Em alguns casos, a narrativa
se resume a um diálogo, forma que o autor maneja com agilidade e objetividade
basta ver Miserere, surpreendente conversa entre um ser que se julga
culpado e um interlocutor que detém um poder infinito. As relações
amorosas têm um espaço privilegiado no livro como no caso
do vívido Um Beijo entre Doish Cocosh, que, ao narrar a relação
entre um paulista e uma carioca, acaba sendo uma bem-humorada comparação
entre os estilos de vida das duas metrópoles brasileiras, ou do impactante
Suzana, em que um homem reencontra, em Praga, o seu amor de infância,
que agora é uma prostituta. São relações difíceis,
delicadas, e muitas vezes inclassificáveis pelos parâmetros convencionais:
em Da Amizade Masculina, a ligação entre dois colegas de
uma faculdade de filosofia serve para um exame da natureza do relacionamento entre
homens até que ponto é amizade, até que ponto é
homoerotismo? Sabino remete o tema ao ensaio sobre amizade de Montaigne. Seus
contos são ricos em referências literárias, sempre perfeitamente
integradas à lógica da narrativa. Os exemplos mais evidentes são
Eliot, cujo texto é construído com versos do poeta americano
T.S. Eliot, e Um Chapéu ao Espelho, que retoma o conto Capítulo
dos Chapéus, de Machado de Assis. O
título da coletânea, O Antinarciso, não se repete em
nenhum dos contos. Sua explicação talvez esteja em Não
É Bem Assim, que começa com um diálogo conflituoso de
um casal. A mulher quer casar e ter filhos, o homem, não. Os dois rompem.
Tempos depois, ele recebe a notícia de que a ex-amante realizou seus desejos
com outro homem e é quando percebe que "seu narcisismo queria manter
intacta a admiração de uma mulher com a qual não quisera
casar-se". A esse narcisismo cego, que barra as possibilidades afetivas dos personagens,
é que se contrapõe o olhar atento do autor antinarciso. E também
se opõe à tentação que assalta muitos escritores contemporâneos
de girar em torno ao próprio umbigo, de fazer do pronome "eu" a
palavra mais importante da literatura. Os contos de Mario Sabino mostram que a
subjetividade só tem sentido quando está a serviço do entendimento,
quando funciona como um sensível sismógrafo capaz de captar as vibrações
da alma.
| Narcisismo feminino As
mulheres são capazes de admitir e suportar penas duras impostas por quem
elegeram companheiros: bebedeiras, traições, maus-tratos e até
aquele grau de indiferença que se manifesta na escassez de amor carnal.
Mas há algo que lhes é inadmissível: a amizade masculina
que lhes faz sombra. (...) A amizade que faz sombra lhes é insuportável
porque atinge o âmago do narcisismo feminino, tão bem nutrido pelo
ideal romântico aquele segundo o qual a amada deve vir antes de tudo,
até da própria vida de quem a ama.
Trecho do conto Da Amizade Masculina | |
|