Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Direto ao ponto

Mario Sabino mapeia as aflições
do amor e da alma nos apurados
contos de O Antinarciso


Moacyr Scliar


Paulo Vitale
Sabino: versos de Eliot e continuação de Machado de Assis

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

O jornalista Mario Sabino já havia provado sua competência na narrativa longa com O Dia em que Matei Meu Pai, romance que parte de um parricídio para construir um inquietante jogo ficcional sobre a mentira e a verdade. Agora, nos doze contos do recém-lançado O Antinarciso (Record; 128 páginas; 23,90 reais), o autor, redator-chefe de VEJA, mostra que domina o texto breve com a mesma maestria. Sabino entende que conto é destino: tem de prender o leitor na primeira linha e mantê-lo tenso até o final. É o que ele faz. Com uma apurada economia de linguagem, seus textos mergulham, em sua própria expressão, no "buraco negro" em que cada personagem esconde não só sua miséria, mas também sua grandeza.

A maioria dos contos apóia-se em apenas dois personagens. Em alguns casos, a narrativa se resume a um diálogo, forma que o autor maneja com agilidade e objetividade – basta ver Miserere, surpreendente conversa entre um ser que se julga culpado e um interlocutor que detém um poder infinito. As relações amorosas têm um espaço privilegiado no livro – como no caso do vívido Um Beijo entre Doish Cocosh, que, ao narrar a relação entre um paulista e uma carioca, acaba sendo uma bem-humorada comparação entre os estilos de vida das duas metrópoles brasileiras, ou do impactante Suzana, em que um homem reencontra, em Praga, o seu amor de infância, que agora é uma prostituta. São relações difíceis, delicadas, e muitas vezes inclassificáveis pelos parâmetros convencionais: em Da Amizade Masculina, a ligação entre dois colegas de uma faculdade de filosofia serve para um exame da natureza do relacionamento entre homens – até que ponto é amizade, até que ponto é homoerotismo? Sabino remete o tema ao ensaio sobre amizade de Montaigne. Seus contos são ricos em referências literárias, sempre perfeitamente integradas à lógica da narrativa. Os exemplos mais evidentes são Eliot, cujo texto é construído com versos do poeta americano T.S. Eliot, e Um Chapéu ao Espelho, que retoma o conto Capítulo dos Chapéus, de Machado de Assis.

O título da coletânea, O Antinarciso, não se repete em nenhum dos contos. Sua explicação talvez esteja em Não É Bem Assim, que começa com um diálogo conflituoso de um casal. A mulher quer casar e ter filhos, o homem, não. Os dois rompem. Tempos depois, ele recebe a notícia de que a ex-amante realizou seus desejos com outro homem – e é quando percebe que "seu narcisismo queria manter intacta a admiração de uma mulher com a qual não quisera casar-se". A esse narcisismo cego, que barra as possibilidades afetivas dos personagens, é que se contrapõe o olhar atento do autor antinarciso. E também se opõe à tentação que assalta muitos escritores contemporâneos – de girar em torno ao próprio umbigo, de fazer do pronome "eu" a palavra mais importante da literatura. Os contos de Mario Sabino mostram que a subjetividade só tem sentido quando está a serviço do entendimento, quando funciona como um sensível sismógrafo capaz de captar as vibrações da alma.

 

Narcisismo feminino

As mulheres são capazes de admitir e suportar penas duras impostas por quem elegeram companheiros: bebedeiras, traições, maus-tratos e até aquele grau de indiferença que se manifesta na escassez de amor carnal. Mas há algo que lhes é inadmissível: a amizade masculina que lhes faz sombra. (...) A amizade que faz sombra lhes é insuportável porque atinge o âmago do narcisismo feminino, tão bem nutrido pelo ideal romântico – aquele segundo o qual a amada deve vir antes de tudo, até da própria vida de quem a ama.

Trecho do conto Da Amizade Masculina

 
 
 
 
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