Edição 1906 . 25 de maio de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internet
"Naum tow intndndu nd"
(Não estou entendendo nada)

Para conversar pelo computador,
os jovens inventaram uma linguagem
criativa – e intrigante para os mais velhos


Andre Penner
Natália (no teclado) e amigas conversam on-line: rapidez

Quem tem filhos adolescentes sabe: boa parte do tempo livre, passam conversando com os amigos. Antigamente, penduravam-se ao telefone por horas a fio. Agora, se têm computador em casa, dão preferência à troca de mensagens pela internet, por motivos vários: é barato (adeus bronca do pai diante da conta telefônica), é muito mais discreto (ninguém vai escutar "sem querer") e é rápido. Quer dizer, rápido para quem domina a linguagem do MSN e dos demais serviços de conversa on-line em tempo real – ou seja, praticamente todo mundo dos 10 aos 30 anos de idade. O princípio básico do internetês é espremer o essencial de cada palavra, descartar o supérfluo e inevitavelmente ceder à tentação dos apelos fonéticos. Vogais, por exemplo, são quase dispensáveis. É quando também vira "tbm", certeza vira "ctza" e depende, "dpnd".

Nessa minimalização lingüística, outra prática comum é substituir dois por um: qu, ch e ss se transformam em k, x e c ("eskecer", "xegar", "ece"). Meninas a quem o Xou da Xuxa marcou pela eternidade consideram que o som da letra x é "meigo" – daí escolherem, em vez de "vc" (para quem não sabe, o equivalente a você), "vx". Acentos, evidentemente, são raríssimos; quando absolutamente necessários, viram uma letra (por sinal, a única situação em que a palavra aumenta de tamanho). A indicação de acento agudo é a letra h ("ahi", "jah", "eh"). O til, coitado, desfigura-se na expressão "aum" ("naum" para não, "entaum" para então). Nada disso garante que dois interlocutores cibernéticos vão se entender perfeitamente, visto que o dialeto da internet tem uma dinâmica própria e varia conforme a "tribo" ou a região do país. Nas primeiras vezes em que Júlia Horita, 15 anos, que mora em Brasília, conversou pelo computador com a prima Natália, 15, de São Paulo, "ngm c intendia" (ninguém se entendia). Foi preciso "xplik" (explicar), por exemplo, que "btf" queria dizer, vejam só, boto fé. Natália e as amigas do colégio contam que, nos domingos à noite – o horário de pico desse tipo de conversação –, chegam a "falar" com vinte pessoas ao mesmo tempo. Daí, conclui Natália, a necessidade de abreviações: "Com elas consigo falar muito mais rápido".


Roberto Setton
Vivian: na hora de fazer planos, "todo mundo fala ao mesmo tempo"

O hábito de tomar todo tipo de liberdade com o idioma somado às muitas horas de computador pode render problemas na hora de escrever a sério. O estudante Gustavo Del Mero, 20 anos, conta que passou maus bocados no vestibular. "Demorei na redação porque tive de corrigir coisas como pq e naum", diz. Percalços desse tipo não desestimulam em nada essa espécie de novilíngua. Quem a usa só vê vantagens. A estudante Vivian Saboleski, 19, de Santo André, na Grande São Paulo, utiliza a internet para conversar desde os 12 anos e passa até dez horas por dia on-line. Costuma marcar com as amigas um horário para combinar o fim de semana. "Todo mundo fala ao mesmo tempo. É muito mais prático", avalia.

O vasto e jovem contingente de usuários do dialeto levou o canal a cabo Telecine a legendar com ele os filmes da sessão Cyber Movie – evidentemente, um programa para iniciados. Quem teme pelo futuro do idioma pode se acalmar: segundo especialistas, internetês, como acne, é fase. Há quem aponte, inclusive, benesses. "A internet reabilitou a escrita", afirma Bruno Dallari, professor de lingüística da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. "Ela estava em desuso entre os jovens dos anos 90. Agora, voltou a ser comum. Mas as escolas, sobretudo, precisam prestar atenção ao fenômeno e estabelecer as diferenças", alerta Claudemir Belintane, professor de metodologia de língua portuguesa da Universidade de São Paulo. "Não se deve aceitar que a linguagem da internet contamine a formal de maneira abusiva." Até porque, no momento em que os jovens que só batem papo e produzem blogs começam a trocar e-mails regulares, uma coisa vista nesses círculos como muito mais "séria", o português volta a ser como antes – impreciso, talvez; incorreto, muito freqüentemente, mas, pelo menos, compreensível. "Intnderaum?"

 

Adeus, vogais

aham = sim
blz = beleza
colokndo = colocando
ctza = certeza
dpnd = depende
fds = fim de semana
fmz = firmeza
gnt = gente
miguxa, milga = amiga
msm = mesmo
naum = não
nd = nada
9dades = novidades
sds = só Deus sabe
t+ = até mais
vlw = valeu
xops = shopping

 
 
 
 
topovoltar