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Vinhos Vale
mais a tradição Depois da moda dos
varietais, os vinhos europeus recuperam a glória que merecem  Tiago
Cordeiro
Os bons bebedores passaram os últimos anos
numa espécie de lua-de-mel com os chamados vinhos do novo mundo, produzidos
na Califórnia e em países como Austrália, África do
Sul, Nova Zelândia, Argentina e Chile. Desde que os enófilos chamaram
a atenção para a qualidade cada vez maior dos rótulos originários
dessas regiões, seu consumo subiu vertiginosamente em todo o planeta. O
charme peculiar dos vinhos do novo mundo é que eles são varietais,
ou seja, produzidos com um único tipo de uva. Já as garrafas das
regiões vinícolas mais tradicionais, na França, na Itália
ou na Espanha, resultam da mistura de várias espécies de uva. São
os chamados vinhos de assemblage. A invasão dos varietais mudou a geografia
dos vinhos e facilitou a vida dos consumidores: na hora da escolha, não
é preciso decifrar os nomes de regiões e de produtores indicados
nos rótulos europeus basta saber o nome da uva.
Agora, no entanto, a balança no mundo do vinho está novamente pendendo
na direção dos vinhos de assemblage. Na Califórnia, muitos
produtores já usam vários tipos de uva em suas garrafas. Mais recentemente,
a Austrália, a Argentina e o Chile seguiram o exemplo. Para os enófilos,
sommeliers e demais especialistas, era uma questão de tempo para que a
moda dos varietais arrefecesse e o novo mundo se desse conta de que a técnica
milenar dos europeus ainda produz os melhores vinhos. "Quando os países
do novo mundo perceberam que o varietal estava saindo de moda, aderiram rapidamente
ao assemblage, uma técnica que reúne o que cada uva tem de melhor",
diz Arthur de Azevedo, diretor executivo da Associação Brasileira
de Sommeliers. "O assemblage é a verdadeira grande expressão da
enologia", disse a VEJA Susana Balbo, a mais destacada enóloga argentina
do momento. Susana explica que os vinhos varietais sul-americanos acabaram ficando
todos muito parecidos, principalmente pela prática dos produtores de aproveitar
o sol do verão para amadurecer ao máximo suas uvas. Esse procedimento
faz com que as uvas passem do ponto de maturação ideal e fiquem
com os mesmos aromas e sabores. "Agora, na Argentina e no Chile, há uma
tendência a redescobrir a riqueza e a beleza dos assemblages", ela diz.
Para os produtores europeus, a volta da supremacia
dos vinhos de assemblage será uma bênção para os negócios.
Os varietais, que em 1980 detinham apenas 1% do mercado internacional, hoje têm
23%. Os franceses, em particular, passaram por maus bocados. A participação
de seus vinhos no consumo mundial da bebida, que era de 49% em 1990, caiu para
22% no início da década atual. Já em meados dos anos 90 os
europeus começaram a reagir a esse quadro, modificando os processos de
produção de alguns vinhos a fim de torná-los mais competitivos
no quesito preço. Uma das mudanças foi proceder ao esmagamento das
uvas em tanques com gás carbônico, o que ajuda a bebida a desenvolver
seus aromas mais rapidamente e encurta o tempo de envelhecimento nos tonéis
de carvalho, um processo mais caro. Os primeiros a utilizar o sistema foram os
portugueses e espanhóis. Mais recentemente, os franceses e italianos aderiram
a ele. O resultado é que mesmo alguns vinhos tradicionais hoje podem ser
bebidos mais novos. "Antes, um Bordeaux só era aberto vinte anos depois
de produzido. Atualmente, esse prazo diminuiu para cinco anos", comenta o enólogo
Luiz Groff, da confraria In Vino Veritas, de Curitiba. Segundo os especialistas,
os vinhos varietais continuarão firmes no mercado, mas a tendência
entre os bons bebedores é retomar as tradições da velha Europa.
Invasão de má qualidade Fotos
Raphael Falavigna
 | | Os
argentinos baratos: vinhos por 10 reais |
Embora produza vinhos capazes de fazer bonito no mercado internacional, a
Argentina tem se empenhado nos últimos tempos em invadir a mesa dos brasileiros
com produtos de baixa qualidade, muitas vezes mais baratos que os equivalentes
nacionais. O vinho da marca Toro, por exemplo, que para horror dos enófilos
é vendido em embalagens iguais às do leite longa vida, custa 3,90
reais o litro. É mais em conta do que o vinho mais vendido na rede de supermercados
Pão de Açúcar, o gaúcho Salton Chalise, que sai por
4 reais. O segundo vinho mais vendido da rede, por sinal, é o argentino
Marquês de La Colina, de 7 reais um brasileiro de qualidade equivalente,
como o Salton Classic Tannat, custa o dobro. O
vinho popular argentino chega ao Brasil muito barato por dois motivos. Primeiro,
os viticultores recebem generosos incentivos fiscais para produzi-lo. Segundo,
graças ao Mercosul, ele não é taxado ao cruzar a fronteira
brasileira. Os argentinos apostam no sucesso de seus rótulos populares
para aumentar as vendas no mercado brasileiro em 30% ainda neste ano. Caso consigam,
vão ultrapassar o Chile como maior exportador de vinhos para o Brasil.
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Duelo na adega As diferenças
entre os dois principais métodos de produção vinícola
OS DE ASSEMBLAGE
São feitos com vários tipos de uva e identificados no rótulo
pela região de origem ou pelo fabricante
Principais produtores: França, Itália, Espanha e Portugal
Os melhores vinhedos estão em regiões
com solo rico em nutrientes, temperaturas amenas e períodos relativamente
curtos de estiagem, uma combinação perfeita para a produção
do bom vinho O teor alcoólico é
de 12%, o que garante equilíbrio entre doçura e acidez
A qualidade do vinho varia muito de acordo com a safra.
Se a chuva chega uma semana antes, a produção daquele ano pode desandar
OS VARIETAIS
São feitos com um único tipo de uva, identificada no rótulo
Principais produtores: Estados Unidos (Califórnia),
Austrália, Argentina, Chile, Nova Zelândia e África do Sul
Com temperaturas mais quentes e períodos
mais longos sem chuva, os concorrentes dos europeus precisam recorrer mais a fertilizantes
e processos artificiais de irrigação
Os varietais da Califórnia chegam a ter teores alcoólicos de até
17%, o que os torna pesados para acompanhar refeições
A safra não faz muita diferença |
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