Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Vinhos
Vale mais a tradição

Depois da moda dos varietais, os vinhos
europeus recuperam a glória que merecem


Tiago Cordeiro


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Mais sobre vinhos

Os bons bebedores passaram os últimos anos numa espécie de lua-de-mel com os chamados vinhos do novo mundo, produzidos na Califórnia e em países como Austrália, África do Sul, Nova Zelândia, Argentina e Chile. Desde que os enófilos chamaram a atenção para a qualidade cada vez maior dos rótulos originários dessas regiões, seu consumo subiu vertiginosamente em todo o planeta. O charme peculiar dos vinhos do novo mundo é que eles são varietais, ou seja, produzidos com um único tipo de uva. Já as garrafas das regiões vinícolas mais tradicionais, na França, na Itália ou na Espanha, resultam da mistura de várias espécies de uva. São os chamados vinhos de assemblage. A invasão dos varietais mudou a geografia dos vinhos e facilitou a vida dos consumidores: na hora da escolha, não é preciso decifrar os nomes de regiões e de produtores indicados nos rótulos europeus – basta saber o nome da uva.

Agora, no entanto, a balança no mundo do vinho está novamente pendendo na direção dos vinhos de assemblage. Na Califórnia, muitos produtores já usam vários tipos de uva em suas garrafas. Mais recentemente, a Austrália, a Argentina e o Chile seguiram o exemplo. Para os enófilos, sommeliers e demais especialistas, era uma questão de tempo para que a moda dos varietais arrefecesse e o novo mundo se desse conta de que a técnica milenar dos europeus ainda produz os melhores vinhos. "Quando os países do novo mundo perceberam que o varietal estava saindo de moda, aderiram rapidamente ao assemblage, uma técnica que reúne o que cada uva tem de melhor", diz Arthur de Azevedo, diretor executivo da Associação Brasileira de Sommeliers. "O assemblage é a verdadeira grande expressão da enologia", disse a VEJA Susana Balbo, a mais destacada enóloga argentina do momento. Susana explica que os vinhos varietais sul-americanos acabaram ficando todos muito parecidos, principalmente pela prática dos produtores de aproveitar o sol do verão para amadurecer ao máximo suas uvas. Esse procedimento faz com que as uvas passem do ponto de maturação ideal e fiquem com os mesmos aromas e sabores. "Agora, na Argentina e no Chile, há uma tendência a redescobrir a riqueza e a beleza dos assemblages", ela diz.

Para os produtores europeus, a volta da supremacia dos vinhos de assemblage será uma bênção para os negócios. Os varietais, que em 1980 detinham apenas 1% do mercado internacional, hoje têm 23%. Os franceses, em particular, passaram por maus bocados. A participação de seus vinhos no consumo mundial da bebida, que era de 49% em 1990, caiu para 22% no início da década atual. Já em meados dos anos 90 os europeus começaram a reagir a esse quadro, modificando os processos de produção de alguns vinhos a fim de torná-los mais competitivos no quesito preço. Uma das mudanças foi proceder ao esmagamento das uvas em tanques com gás carbônico, o que ajuda a bebida a desenvolver seus aromas mais rapidamente e encurta o tempo de envelhecimento nos tonéis de carvalho, um processo mais caro. Os primeiros a utilizar o sistema foram os portugueses e espanhóis. Mais recentemente, os franceses e italianos aderiram a ele. O resultado é que mesmo alguns vinhos tradicionais hoje podem ser bebidos mais novos. "Antes, um Bordeaux só era aberto vinte anos depois de produzido. Atualmente, esse prazo diminuiu para cinco anos", comenta o enólogo Luiz Groff, da confraria In Vino Veritas, de Curitiba. Segundo os especialistas, os vinhos varietais continuarão firmes no mercado, mas a tendência entre os bons bebedores é retomar as tradições da velha Europa.

 

Invasão de má qualidade

Fotos Raphael Falavigna
Os argentinos baratos: vinhos por 10 reais


Embora produza vinhos capazes de fazer bonito no mercado internacional, a Argentina tem se empenhado nos últimos tempos em invadir a mesa dos brasileiros com produtos de baixa qualidade, muitas vezes mais baratos que os equivalentes nacionais. O vinho da marca Toro, por exemplo, que para horror dos enófilos é vendido em embalagens iguais às do leite longa vida, custa 3,90 reais o litro. É mais em conta do que o vinho mais vendido na rede de supermercados Pão de Açúcar, o gaúcho Salton Chalise, que sai por 4 reais. O segundo vinho mais vendido da rede, por sinal, é o argentino Marquês de La Colina, de 7 reais – um brasileiro de qualidade equivalente, como o Salton Classic Tannat, custa o dobro.

O vinho popular argentino chega ao Brasil muito barato por dois motivos. Primeiro, os viticultores recebem generosos incentivos fiscais para produzi-lo. Segundo, graças ao Mercosul, ele não é taxado ao cruzar a fronteira brasileira. Os argentinos apostam no sucesso de seus rótulos populares para aumentar as vendas no mercado brasileiro em 30% ainda neste ano. Caso consigam, vão ultrapassar o Chile como maior exportador de vinhos para o Brasil.

 

 

Duelo na adega

As diferenças entre os dois principais
métodos de produção vinícola

OS DE ASSEMBLAGE

• São feitos com vários tipos de uva e identificados no rótulo pela região de origem ou pelo fabricante  

• Principais produtores: França, Itália, Espanha e Portugal  

• Os melhores vinhedos estão em regiões com solo rico em nutrientes, temperaturas amenas e períodos relativamente curtos de estiagem, uma combinação perfeita para a produção do bom vinho  

• O teor alcoólico é de 12%, o que garante equilíbrio entre doçura e acidez  

• A qualidade do vinho varia muito de acordo com a safra. Se a chuva chega uma semana antes, a produção daquele ano pode desandar

 

OS VARIETAIS

• São feitos com um único tipo de uva, identificada no rótulo

• Principais produtores: Estados Unidos (Califórnia), Austrália, Argentina, Chile, Nova Zelândia e África do Sul  

• Com temperaturas mais quentes e períodos mais longos sem chuva, os concorrentes dos europeus precisam recorrer mais a fertilizantes e processos artificiais de irrigação  

• Os varietais da Califórnia chegam a ter teores alcoólicos de até 17%, o que os torna pesados para acompanhar refeições  

• A safra não faz muita diferença

 
 
 
 
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