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Comportamento
O jogo das espadas
de samurai
Filmes inspiram brasileiros a aprender
as técnicas usadas pelos espadachins
japoneses do passado

José Eduardo Barella
Roberto Setton
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| A paulistana Naomi Takeda Arruda pratica o
iaijutsu, a arte de desembainhar a espada: precisão |
O cinema está ajudando
a transformar uma arte quase esquecida, a técnica samurai
de luta com espadas, criada há oito séculos, em uma
nova atração esportiva no Brasil. Atualmente mais
de 2.500 brasileiros vestem armadura e empunham a espada para treinar
kendo, kenjutsu, iaijutsu e jojutsu as modalidades de duelo
de espadas mais procuradas. Dois anos atrás, quando estreou
Kill Bill Volume I, nos EUA, filme do diretor americano Quentin
Tarantino no qual Uma Thurman corta cabeças com técnicas
japonesas, eram apenas 500. A multiplicação dos praticantes
impressiona, pois a arte dos samurais é para poucos, considerando
que o equipamento básico a armadura e as espadas
sai por volta de 4.000 reais. Repete-se, em menor escala, a popularização
das artes marciais ocorrida nos anos 80 e que foi alimentada pelos
filmes de pancadaria. Esses esportes fincaram raízes e uma
brasileira acaba de se tornar campeã mundial de tae kwon
do (veja quadro).
Agora, os espectadores mais empolgados com a plasticidade dos golpes
desferidos por Tom Cruise em O Último Samurai ou pelos
chineses de O Clã das Adagas Voadoras acabam matriculando-se
em uma academia de kenjutsu ou kendo.
Trazido pelos imigrantes japoneses
no início do século passado, o kendo é a modalidade
mais popular no Brasil. Essa forma branda de usar as espadas surgiu
como uma tentativa de recuperar as técnicas tradicionais,
depois que a classe dos samurais foi extinta com o fim do feudalismo
no Japão, em 1871. Entre as adaptações, a espada
de aço foi substituída pela de bambu e os praticantes
passaram a usar a armadura, o bogu, para se proteger dos golpes.
São mais de 10 milhões de praticantes no mundo, pouco
mais de 1.600 no Brasil. O objetivo do kendoca é golpear
o adversário na cabeça, no antebraço, no abdômen
ou encaixar uma estocada na garganta. O kenjutsu é uma versão
mais complexa, pois tenta reproduzir com maior fidelidade os rituais
que envolvem a luta dos espadachins samurais. O lutador usa duas
espadas de bambu uma grande e uma pequena, como os samurais
do passado para executar os golpes simultaneamente. São
mais de sessenta movimentos diferentes e cada um deles é
acompanhado de sonoros gritos em japonês.
Como é comum no ensino
de lutas orientais, muitas academias dedicam parte do tempo a lições
de cultura e história do Japão. A tese recorrente
nesses cursos é que a habilidade com a espada é uma
manifestação de valores culturais e espirituais que
vai além de uma simples luta. O médico Jorge Kishikawa,
de São Paulo, mestre do Instituto Cultural Niten, assegura
que é possível adquirir o conhecimento básico
em três meses de treinamento. "No primeiro mês o aluno
já sente a mudança na postura corporal, na percepção
visual periférica e na coordenação motora",
diz Kishikawa, espadachim desde criança e várias vezes
campeão brasileiro de kendo. No iaijutsu, não há
combate, apenas o desenvolvimento da técnica de desembainhar
a espada de metal (katana). O praticante fica repetindo à
exaustão uma seqüência de quatro movimentos. Eles
simulam uma situação na qual o lutador reage a um
ataque-surpresa. No jojutsu, a arma é um bastão de
carvalho de 1,28 metro de comprimento usado para desarmar o adversário.
"Desde que comecei a treinar, há um ano e meio, fiquei mais
calma, passei a valorizar mais a disciplina e senti efeitos positivos
também na maneira como me relaciono no ambiente de trabalho",
diz a paulistana Naomi Takeda Arruda, gerente de marketing de 26
anos que pratica kenjutsu, iaijutsu e jojutsu quatro vezes por semana.
"É eficiente contra o stress e ainda me deixa em forma",
entusiasma-se Naomi.
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OURO
EM PANCADARIA
J. J. Guillen/EFE
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| Natália (de azul) no Mundial:
um campeonato inédito |
A atleta paranaense
Natália Falavigna, de 21 anos, conseguiu uma
proeza num país onde pouquíssimas mulheres
praticam artes marciais. Conquistou no mês passado
o campeonato mundial de tae kwon do, um esporte de origem
coreana que significa, em português, arte de lutar
sem armas. Natália desbancou o favoritismo das
lutadoras de Taiwan, Inglaterra, Coréia do Sul
e Espanha e levou o ouro na categoria meio-pesado. "Minha
vida estava um caos às vésperas da competição.
Eu tinha mudado de cidade, de técnico, morava
de favor, roubaram meu carro e meus documentos", conta
Natália. "Mesmo assim, eu tinha certeza de que
ia ganhar, contra a expectativa de todos à minha
volta." A vitória foi surpreendente porque o
Brasil não tem tradição nesse esporte
são apenas 22.000 atletas registrados
no país, 80% deles homens. O baixo número
de praticantes do sexo feminino se explica pelo estilo
de luta, no qual impera a pancadaria. São três
rounds de três minutos (no feminino, dois). Ganha
quem encaixa o maior número de chutes acima da
cintura e socos no peito. Os atletas usam protetor na
cabeça e no tórax. A atleta paranaense
começou a praticar o tae kwon do aos 13 anos,
no fim de 1997. Sua ascensão foi rápida.
Em 2000, Natália faturou o Mundial Júnior.
Depois, foi prata na Copa do Mundo e no Mundial Universitário
de 2002 e ganhou o Campeonato Ibero-Americano de 2003.
No ano passado, ficou em quarto lugar nas Olimpíadas
de Atenas. Qual é o segredo da campeã?
Natália tem o biotipo ideal para o esporte
mede 1,80 metro e pesa 70 quilos, o que permite elasticidade
para os golpes. Além disso, treina quatro horas
por dia, seis vezes por semana. "Ela tem técnica
e velocidade, mas suas maiores qualidades são
a concentração e a disciplina", diz José
Palermo Júnior, treinador de Natália.
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