Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Comportamento
O jogo das espadas
de samurai

Filmes inspiram brasileiros a aprender
as técnicas usadas pelos espadachins
japoneses do passado


José Eduardo Barella


Roberto Setton
A paulistana Naomi Takeda Arruda pratica o iaijutsu, a arte de desembainhar a espada: precisão

O cinema está ajudando a transformar uma arte quase esquecida, a técnica samurai de luta com espadas, criada há oito séculos, em uma nova atração esportiva no Brasil. Atualmente mais de 2.500 brasileiros vestem armadura e empunham a espada para treinar kendo, kenjutsu, iaijutsu e jojutsu – as modalidades de duelo de espadas mais procuradas. Dois anos atrás, quando estreou Kill Bill Volume I, nos EUA, filme do diretor americano Quentin Tarantino no qual Uma Thurman corta cabeças com técnicas japonesas, eram apenas 500. A multiplicação dos praticantes impressiona, pois a arte dos samurais é para poucos, considerando que o equipamento básico – a armadura e as espadas – sai por volta de 4.000 reais. Repete-se, em menor escala, a popularização das artes marciais ocorrida nos anos 80 e que foi alimentada pelos filmes de pancadaria. Esses esportes fincaram raízes e uma brasileira acaba de se tornar campeã mundial de tae kwon do (veja quadro). Agora, os espectadores mais empolgados com a plasticidade dos golpes desferidos por Tom Cruise em O Último Samurai ou pelos chineses de O Clã das Adagas Voadoras acabam matriculando-se em uma academia de kenjutsu ou kendo.

Trazido pelos imigrantes japoneses no início do século passado, o kendo é a modalidade mais popular no Brasil. Essa forma branda de usar as espadas surgiu como uma tentativa de recuperar as técnicas tradicionais, depois que a classe dos samurais foi extinta com o fim do feudalismo no Japão, em 1871. Entre as adaptações, a espada de aço foi substituída pela de bambu e os praticantes passaram a usar a armadura, o bogu, para se proteger dos golpes. São mais de 10 milhões de praticantes no mundo, pouco mais de 1.600 no Brasil. O objetivo do kendoca é golpear o adversário na cabeça, no antebraço, no abdômen ou encaixar uma estocada na garganta. O kenjutsu é uma versão mais complexa, pois tenta reproduzir com maior fidelidade os rituais que envolvem a luta dos espadachins samurais. O lutador usa duas espadas de bambu – uma grande e uma pequena, como os samurais do passado – para executar os golpes simultaneamente. São mais de sessenta movimentos diferentes e cada um deles é acompanhado de sonoros gritos em japonês.

Como é comum no ensino de lutas orientais, muitas academias dedicam parte do tempo a lições de cultura e história do Japão. A tese recorrente nesses cursos é que a habilidade com a espada é uma manifestação de valores culturais e espirituais que vai além de uma simples luta. O médico Jorge Kishikawa, de São Paulo, mestre do Instituto Cultural Niten, assegura que é possível adquirir o conhecimento básico em três meses de treinamento. "No primeiro mês o aluno já sente a mudança na postura corporal, na percepção visual periférica e na coordenação motora", diz Kishikawa, espadachim desde criança e várias vezes campeão brasileiro de kendo. No iaijutsu, não há combate, apenas o desenvolvimento da técnica de desembainhar a espada de metal (katana). O praticante fica repetindo à exaustão uma seqüência de quatro movimentos. Eles simulam uma situação na qual o lutador reage a um ataque-surpresa. No jojutsu, a arma é um bastão de carvalho de 1,28 metro de comprimento usado para desarmar o adversário. "Desde que comecei a treinar, há um ano e meio, fiquei mais calma, passei a valorizar mais a disciplina e senti efeitos positivos também na maneira como me relaciono no ambiente de trabalho", diz a paulistana Naomi Takeda Arruda, gerente de marketing de 26 anos que pratica kenjutsu, iaijutsu e jojutsu quatro vezes por semana. "É eficiente contra o stress e ainda me deixa em forma", entusiasma-se Naomi.

 


 

OURO EM PANCADARIA


J. J. Guillen/EFE
Natália (de azul) no Mundial: um campeonato inédito

A atleta paranaense Natália Falavigna, de 21 anos, conseguiu uma proeza num país onde pouquíssimas mulheres praticam artes marciais. Conquistou no mês passado o campeonato mundial de tae kwon do, um esporte de origem coreana que significa, em português, arte de lutar sem armas. Natália desbancou o favoritismo das lutadoras de Taiwan, Inglaterra, Coréia do Sul e Espanha e levou o ouro na categoria meio-pesado. "Minha vida estava um caos às vésperas da competição. Eu tinha mudado de cidade, de técnico, morava de favor, roubaram meu carro e meus documentos", conta Natália. "Mesmo assim, eu tinha certeza de que ia ganhar, contra a expectativa de todos à minha volta." A vitória foi surpreendente porque o Brasil não tem tradição nesse esporte – são apenas 22.000 atletas registrados no país, 80% deles homens. O baixo número de praticantes do sexo feminino se explica pelo estilo de luta, no qual impera a pancadaria. São três rounds de três minutos (no feminino, dois). Ganha quem encaixa o maior número de chutes acima da cintura e socos no peito. Os atletas usam protetor na cabeça e no tórax. A atleta paranaense começou a praticar o tae kwon do aos 13 anos, no fim de 1997. Sua ascensão foi rápida. Em 2000, Natália faturou o Mundial Júnior. Depois, foi prata na Copa do Mundo e no Mundial Universitário de 2002 e ganhou o Campeonato Ibero-Americano de 2003. No ano passado, ficou em quarto lugar nas Olimpíadas de Atenas. Qual é o segredo da campeã? Natália tem o biotipo ideal para o esporte – mede 1,80 metro e pesa 70 quilos, o que permite elasticidade para os golpes. Além disso, treina quatro horas por dia, seis vezes por semana. "Ela tem técnica e velocidade, mas suas maiores qualidades são a concentração e a disciplina", diz José Palermo Júnior, treinador de Natália.

 
 
 
 
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