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Internacional Ataque
a corações e mentes O mistério
da insurreição no Iraque é que os terroristas parecem
não ter plano de poder e não se preocupam em conquistar
o apoio da população  José
Eduardo Barella
AP
 | | Insurgente
em Mosul: tática do quanto pior, melhor | |
Desde
que o novo governo tomou posse, há um mês, o Iraque mergulhou numa
escalada terrorista como nunca se viu. A média é de setenta atentados
por dia. De março para cá, explodiram 130 carros-bomba apenas na
capital, Bagdá. Um levantamento recente concluiu que, na maioria dos casos,
o motorista se matou detonando os explosivos quando estava ao volante. Só
nas últimas três semanas, os mortos chegaram a 500, na imensa maioria
civis. A estratégia dos rebeldes talvez seja a de criar um caos tão
insustentável que leve à expulsão das tropas americanas que
sustentam o governo eleito. Isso explicaria as emboscadas aos soldados americanos
e iraquianos. Menos óbvia é a estratégia terrorista de atacar
civis de forma indiscriminada, como está ocorrendo. Em vez de usarem a
clássica tática rebelde de provocar as forças estrangeiras
a lançar mão da força excessiva que acaba atingindo a população,
os insurgentes estão eles mesmos matando civis.
Trata-se de uma estratégia que os líderes revolucionários
do passado, de Che Guevara a Mao Tse-tung, passando por Lawrence da Arábia,
que liderou a revolta árabe contra o Império Otomano, condenariam
como pouco produtiva. Os insurgentes não demonstram preocupação
em conquistar apoio da população ou ganhar corações
e mentes. Em dois anos, não forjaram um líder político sequer
para mostrar ao público suas propostas nem uma alternativa política
viável ao processo de democratização do Iraque patrocinado
pelos americanos. A rigor, limitam-se a espalhar o medo e a destruição.
Ao eleger um governo que em nenhum momento exigiu a retirada das tropas americanas,
a maioria dos iraquianos já mostrou que não apóia a insurreição.
Na semana passada, centenas de pessoas saíram às ruas da cidade
de Hillah para protestar contra um ataque suicida, feito por um jordaniano, que
matou 125 pessoas. Karim
Kadim/AP
 | | Civis
choram a morte de parente em atentado e explosão de carro-bomba em Bagdá: rotina
de terror | Samir Mizban/AP
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"Uma
possível explicação para a matança", disse a VEJA
o americano Anthony J. Joes, especialista em movimentos insurgentes e guerrilheiros,
"é que os atentados mais devastadores são cometidos por estrangeiros
e pessoas motivadas por propósito teológico. Ou seja, não
buscam a vitória, mas o martírio." Os fanáticos religiosos,
jihadistas na linha de Osama bin Laden, são na maioria estrangeiros recrutados
nas mesquitas nos países vizinhos. Eles entram no Iraque pela fronteira
da Síria, com o apoio do serviço secreto sírio. Representam
uma minoria na insurgência talvez uns 1.000, num total estimado entre
20.000 e 40.000. Uma corrente maior é formada por antigos membros do deposto
Partido Baath e funcionários de destaque na ditadura de Saddam. Eles acreditam
que podem retomar o poder, mesmo sem o ditador, tão logo as forças
americanas deixem o país. Outro grupo, o mais numeroso, é composto
de membros da elite sunita, profissionais liberais, estudantes, líderes
tribais e antigos caciques políticos regionais. Inconformados com a perda
de privilégios que desfrutavam desde a criação do país,
sua estratégia é minar o processo de democratização
para impedir que a maioria xiita consolide sua ascensão ao poder. Existe
uma aliança tática entre os nostálgicos do regime deposto
e os terroristas estrangeiros. Os primeiros fornecem a infra-estrutura e, em troca,
os jihadistas se matam em nome da causa.
Ali
Al-Fatlawi/AP
 | | Iraquianos
protestam contra atentado em Hillah: terroristas sem apoio |
A
presença das tropas americanas e a chegada ao poder dos xiitas, que os
sunitas consideram apóstatas, deram novo fôlego à Al Qaeda.
Esses terroristas são os mais interessados em mergulhar o Iraque numa guerra
civil. A provocação é explícita nos ataques aos iraquianos
mais pobres, geralmente xiitas, que se apresentam como voluntários para
a polícia ou para o Exército. Ou nas bombas que explodem nas mesquitas
xiitas às sextas-feiras, o dia de orações. A estratégia
traçada pelo aiatolá Ali Sistani, o principal líder espiritual
xiita, foi a de evitar retaliações e tirar proveito da maioria populacional
para chegar ao poder pelo voto, como ocorreu. Mas se trata de um barril de pólvora
à espera do momento em que grupos xiitas se cansem de ser mortos e comecem
a retaliar.
Como os insurgentes não têm
um plano coerente de ação, fica difícil para as tropas americanas
adivinhar qual seu próximo passo e combatê-los com eficiência.
A falta de uma estratégia a longo prazo significa também que os
insurgentes não têm chance de vencer. O cientista político
americano Stephen Walt, da Universidade Harvard, acredita que os terroristas dispõem
de fôlego para mergulhar o Iraque num período prolongado de violência.
"O risco é que se transforme em um conflito sem solução,
como a guerra civil da Colômbia, onde a guerrilha não tem chance
de chegar ao poder, mas tampouco pode ser derrotada militarmente", disse Walt
a VEJA. |