Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Internacional
Ataque a corações e mentes

O mistério da insurreição no Iraque
é que os terroristas parecem não ter
plano de poder e não se preocupam
em conquistar o apoio da população


José Eduardo Barella


AP
Insurgente em Mosul: tática do quanto pior, melhor
EXCLUSIVO ON-LINE
Em profundidade: Pós-guerra no Iraque


Desde que o novo governo tomou posse, há um mês, o Iraque mergulhou numa escalada terrorista como nunca se viu. A média é de setenta atentados por dia. De março para cá, explodiram 130 carros-bomba apenas na capital, Bagdá. Um levantamento recente concluiu que, na maioria dos casos, o motorista se matou detonando os explosivos quando estava ao volante. Só nas últimas três semanas, os mortos chegaram a 500, na imensa maioria civis. A estratégia dos rebeldes talvez seja a de criar um caos tão insustentável que leve à expulsão das tropas americanas que sustentam o governo eleito. Isso explicaria as emboscadas aos soldados americanos e iraquianos. Menos óbvia é a estratégia terrorista de atacar civis de forma indiscriminada, como está ocorrendo. Em vez de usarem a clássica tática rebelde de provocar as forças estrangeiras a lançar mão da força excessiva que acaba atingindo a população, os insurgentes estão eles mesmos matando civis.

Trata-se de uma estratégia que os líderes revolucionários do passado, de Che Guevara a Mao Tse-tung, passando por Lawrence da Arábia, que liderou a revolta árabe contra o Império Otomano, condenariam como pouco produtiva. Os insurgentes não demonstram preocupação em conquistar apoio da população ou ganhar corações e mentes. Em dois anos, não forjaram um líder político sequer para mostrar ao público suas propostas nem uma alternativa política viável ao processo de democratização do Iraque patrocinado pelos americanos. A rigor, limitam-se a espalhar o medo e a destruição. Ao eleger um governo que em nenhum momento exigiu a retirada das tropas americanas, a maioria dos iraquianos já mostrou que não apóia a insurreição. Na semana passada, centenas de pessoas saíram às ruas da cidade de Hillah para protestar contra um ataque suicida, feito por um jordaniano, que matou 125 pessoas.

 
Karim Kadim/AP
Civis choram a morte de parente em atentado e explosão de carro-bomba em Bagdá: rotina de terror
Samir Mizban/AP

"Uma possível explicação para a matança", disse a VEJA o americano Anthony J. Joes, especialista em movimentos insurgentes e guerrilheiros, "é que os atentados mais devastadores são cometidos por estrangeiros e pessoas motivadas por propósito teológico. Ou seja, não buscam a vitória, mas o martírio." Os fanáticos religiosos, jihadistas na linha de Osama bin Laden, são na maioria estrangeiros recrutados nas mesquitas nos países vizinhos. Eles entram no Iraque pela fronteira da Síria, com o apoio do serviço secreto sírio. Representam uma minoria na insurgência – talvez uns 1.000, num total estimado entre 20.000 e 40.000. Uma corrente maior é formada por antigos membros do deposto Partido Baath e funcionários de destaque na ditadura de Saddam. Eles acreditam que podem retomar o poder, mesmo sem o ditador, tão logo as forças americanas deixem o país. Outro grupo, o mais numeroso, é composto de membros da elite sunita, profissionais liberais, estudantes, líderes tribais e antigos caciques políticos regionais. Inconformados com a perda de privilégios que desfrutavam desde a criação do país, sua estratégia é minar o processo de democratização para impedir que a maioria xiita consolide sua ascensão ao poder. Existe uma aliança tática entre os nostálgicos do regime deposto e os terroristas estrangeiros. Os primeiros fornecem a infra-estrutura e, em troca, os jihadistas se matam em nome da causa.


Ali Al-Fatlawi/AP
Iraquianos protestam contra atentado em Hillah: terroristas sem apoio


A presença das tropas americanas e a chegada ao poder dos xiitas, que os sunitas consideram apóstatas, deram novo fôlego à Al Qaeda. Esses terroristas são os mais interessados em mergulhar o Iraque numa guerra civil. A provocação é explícita nos ataques aos iraquianos mais pobres, geralmente xiitas, que se apresentam como voluntários para a polícia ou para o Exército. Ou nas bombas que explodem nas mesquitas xiitas às sextas-feiras, o dia de orações. A estratégia traçada pelo aiatolá Ali Sistani, o principal líder espiritual xiita, foi a de evitar retaliações e tirar proveito da maioria populacional para chegar ao poder pelo voto, como ocorreu. Mas se trata de um barril de pólvora à espera do momento em que grupos xiitas se cansem de ser mortos e comecem a retaliar.

Como os insurgentes não têm um plano coerente de ação, fica difícil para as tropas americanas adivinhar qual seu próximo passo e combatê-los com eficiência. A falta de uma estratégia a longo prazo significa também que os insurgentes não têm chance de vencer. O cientista político americano Stephen Walt, da Universidade Harvard, acredita que os terroristas dispõem de fôlego para mergulhar o Iraque num período prolongado de violência. "O risco é que se transforme em um conflito sem solução, como a guerra civil da Colômbia, onde a guerrilha não tem chance de chegar ao poder, mas tampouco pode ser derrotada militarmente", disse Walt a VEJA.

 
 
 
 
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