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Medicina As
novas armas contra o câncer Na batalha contra
a doença, não basta aumentar a sobrevida é preciso
também dar mais dignidade ao paciente  Paula
Neiva
Apenas um
terço dos pacientes recebe o diagnóstico de câncer quando
a doença ainda está em fase inicial e há chances reais de
cura. Os outros dois terços descobrem o tumor maligno em estágio
avançado, o que inviabiliza a sua retirada cirúrgica e a esperança
de vencer o mal. A única alternativa disponível para eles são
os cuidados paliativos. Ou seja, tentar controlar o avanço da doença
e manter, ao mesmo tempo, a qualidade de vida do doente. Hoje em dia, é
muito difícil. Os recursos existentes são de eficácia limitada
e, em muitos casos, impingem aos pacientes efeitos colaterais terríveis
náuseas, vômitos, diarréia, queda de cabelo, alteração
de humor, letargia, dores, entre outras agonias. O último congresso da
Sociedade Americana de Oncologia Clínica, o mais importante evento de cancerologia
do mundo, realizado na semana passada, em Orlando, apresentou novidades promissoras
para o tratamento desses pacientes. Inovações que prometem prolongar
a sobrevida dos doentes e acabar com algumas das piores reações
adversas da terapêutica tradicional. No fundo, é um grande passo
rumo a um dos maiores sonhos dos oncologistas: o de tornar o câncer uma
doença crônica. Duas classes de medicamentos anticâncer despertaram
atenção especial, a dos inibidores das tirosinaquinases e a dos
anticorpos monoclonais. Ambas agem como mísseis teleguiados cujos alvos
são única e exclusivamente as células cancerosas, o que evita
danos às células sadias. Com essas características, elas
tendem a ser mais eficazes e mais seguras que os medicamentos antigos. "Esses
remédios abriram uma possibilidade concreta para que o câncer se
torne, nos próximos quinze anos, uma doença absolutamente controlável",
disse a VEJA o médico Joseph Schlessinger, professor titular de farmacologia
da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e uma das referências mundiais
no desenvolvimento de novas moléculas contra o câncer (leia
a íntegra da entrevista). Até
o próximo ano, três dos novos medicamentos contra o câncer
devem chegar ao Brasil: Sutent, Sorafenib e Tarceva, que pertencem à classe
dos inibidores das tirosinaquinases (veja
quadro). As tirosinaquinases são enzimas essenciais ao crescimento
dos tumores. Entre outras funções, elas auxiliam na criação
da rede de vasos sanguíneos que alimenta um câncer e possibilita
a sua propagação. Ao inibirem essas enzimas, os novos remédios
tendem a reduzir o tamanho do tumor e estabilizar a doença. As pesquisas
apresentadas no congresso americano mostram que os inibidores das tirosinaquinases
aumentam a sobrevida dos pacientes em até 50%. Outra classe que está
se revelando bastante eficaz é a dos anticorpos monoclonais. Seus primeiros
representantes chegaram ao mercado no fim da década de 90. Eles foram desenhados
para identificar determinadas substâncias relacionadas ao câncer e
inibir sua ação. Aprovado na segunda-feira passada pelo Ministério
da Saúde, o Avastin está programado para rastrear a proteína
VEGF, essencial para o crescimento do tumor. A combinação desse
medicamento com a quimioterapia aumenta em 49% a sobrevida de pacientes com tumores
avançados de mama. Atualmente, estão em desenvolvimento cerca de
cinqüenta compostos pertencentes a uma dessas duas classes de remédios
contra o câncer. Em geral, as primeiras indicações
de um novo medicamento destinam-se a pacientes que enfrentam tumores em estágios
avançados, que já não dispõem de alternativas para
controlar a doença. Como a ação de tais remédios se
mostrou extremamente positiva nesses casos, a esperança é que eles
sejam ainda mais efetivos em pacientes menos graves. "Os bons resultados demonstram
que o espectro desses remédios deve se estender para um número enorme
de pacientes num futuro próximo", disse a VEJA o oncologista George D.
Demetri, diretor do Centro de Estudos de Câncer Ósseo e Sarcoma da
Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Um bom exemplo é o Herceptin,
um anticorpo monoclonal. Quando foi lançado, em 1999, era indicado apenas
para mulheres com graves tumores mamários. Agora, mostrou-se eficaz também
no tratamento de pacientes com tumores iniciais. Três pesquisas diferentes,
com 8.000 pacientes, concluíram que o Herceptin diminui em até 52%
o risco de recidiva quando utilizado depois da cirurgia para extirpação
do tumor. É uma grande notícia, sem dúvida.
Uma revolução
na oncologia Divulgação
 | | Schlessinger:
o câncer como doença crônica |
O
médico israelense Joseph Schlessinger, professor titular de farmacologia
da Universidade Yale, nos Estados Unidos, é uma das referências mundiais
nas áreas de biologia molecular e genética. Aos 60 anos, autor de
cerca de 450 artigos e um dos pesquisadores mais citados por seus pares em trabalhos
científicos, Schlessinger é um dos idealizadores de uma das classes
de medicamentos mais promissoras no combate ao câncer, a dos inibidores
de tirosinaquinase. De sua casa, na cidade americana de New Haven, ele falou a
VEJA.
COMO O SENHOR COMEÇOU A ESTUDAR
OS INIBIDORES DE TIROSINAQUINASE? No início dos anos 80, houve
um avanço muito grande nos trabalhos sobre os mecanismos moleculares de
vários tipos de câncer. Um deles apontou para a existência
das tirosinaquinases, enzimas essenciais ao funcionamento tanto das células
sadias quantos das cancerosas. Essa descoberta despertou a atenção
de cientistas do mundo inteiro, inclusive a minha. Em 1991, fundei com outros
dois pesquisadores o laboratório Sugen, para o desenvolvimento de moléculas
capazes de inibir a ação das tirosinaquinases relacionadas ao crescimento
de células tumorais. A lógica era simples: o bloqueio de determinadas
tirosinaquinases poderia inviabilizar a multiplicação das células
doentes. COMO OS NOVOS MEDICAMENTOS
PODEM MUDAR A VIDA DOS PACIENTES COM CÂNCER? Hoje, graças
a eles, pessoas que, na década passada, morreriam em três meses continuam
vivas depois de três anos. Como esses medicamentos atuam diretamente nas
células doentes, eles são mais cômodos para o paciente. Um
quimioterápico convencional produz uma série de efeitos colaterais
indesejáveis, ao atacar também as células sadias. Além
disso, não há como prever se aquele tratamento será eficaz.
Como não é possível evitar os medicamentos, o ideal é
que eles afetem a vida das pessoas o mínimo possível. Esse é
o objetivo das novas terapêuticas contra o câncer.
O SENHOR ACREDITA QUE INIBIDORES DE TIROSINAQUINASE SUPERARÃO
A IMPORTÂNCIA DA QUIMIOTERAPIA NA HISTÓRIA DO TRATAMENTO DO CÂNCER?
Sem dúvida nenhuma. Os novos medicamentos são resultado do conhecimento,
da compreensão das causas do câncer. Não são um tiro
no escuro. Ao que tudo indica, em dez anos, no máximo quinze, esses remédios
finalmente farão do câncer uma doença crônica.
QUAL O FUTURO DO TRATAMENTO DO CÂNCER?
A grande meta é a individualização do tratamento. Ou seja,
desenvolver uma terapia específica para cada paciente. Isso porque o câncer
é uma doença que se manifesta de maneira muito distinta entre as
pessoas. O QUE FALTA PARA CHEGARMOS LÁ?
Os primeiros passos já foram dados. Falta ainda desenvolver mecanismos
mais precisos para identificar o ponto fraco do tumor de cada paciente, e isso
só será possível com o teste genético de cada tumor.
O tratamento do câncer passa por uma revolução. Em breve,
ele deve se tornar uma doença crônica, como a hipertensão
e o colesterol alto. | | |