Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Medicina
As novas armas contra o câncer

Na batalha contra a doença, não basta
aumentar a sobrevida – é preciso também
dar mais dignidade ao paciente


Paula Neiva


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O que há de novo

Apenas um terço dos pacientes recebe o diagnóstico de câncer quando a doença ainda está em fase inicial e há chances reais de cura. Os outros dois terços descobrem o tumor maligno em estágio avançado, o que inviabiliza a sua retirada cirúrgica e a esperança de vencer o mal. A única alternativa disponível para eles são os cuidados paliativos. Ou seja, tentar controlar o avanço da doença e manter, ao mesmo tempo, a qualidade de vida do doente. Hoje em dia, é muito difícil. Os recursos existentes são de eficácia limitada e, em muitos casos, impingem aos pacientes efeitos colaterais terríveis – náuseas, vômitos, diarréia, queda de cabelo, alteração de humor, letargia, dores, entre outras agonias. O último congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, o mais importante evento de cancerologia do mundo, realizado na semana passada, em Orlando, apresentou novidades promissoras para o tratamento desses pacientes. Inovações que prometem prolongar a sobrevida dos doentes e acabar com algumas das piores reações adversas da terapêutica tradicional. No fundo, é um grande passo rumo a um dos maiores sonhos dos oncologistas: o de tornar o câncer uma doença crônica. Duas classes de medicamentos anticâncer despertaram atenção especial, a dos inibidores das tirosinaquinases e a dos anticorpos monoclonais. Ambas agem como mísseis teleguiados cujos alvos são única e exclusivamente as células cancerosas, o que evita danos às células sadias. Com essas características, elas tendem a ser mais eficazes e mais seguras que os medicamentos antigos. "Esses remédios abriram uma possibilidade concreta para que o câncer se torne, nos próximos quinze anos, uma doença absolutamente controlável", disse a VEJA o médico Joseph Schlessinger, professor titular de farmacologia da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e uma das referências mundiais no desenvolvimento de novas moléculas contra o câncer (leia a íntegra da entrevista).

Até o próximo ano, três dos novos medicamentos contra o câncer devem chegar ao Brasil: Sutent, Sorafenib e Tarceva, que pertencem à classe dos inibidores das tirosinaquinases (veja quadro). As tirosinaquinases são enzimas essenciais ao crescimento dos tumores. Entre outras funções, elas auxiliam na criação da rede de vasos sanguíneos que alimenta um câncer e possibilita a sua propagação. Ao inibirem essas enzimas, os novos remédios tendem a reduzir o tamanho do tumor e estabilizar a doença. As pesquisas apresentadas no congresso americano mostram que os inibidores das tirosinaquinases aumentam a sobrevida dos pacientes em até 50%. Outra classe que está se revelando bastante eficaz é a dos anticorpos monoclonais. Seus primeiros representantes chegaram ao mercado no fim da década de 90. Eles foram desenhados para identificar determinadas substâncias relacionadas ao câncer e inibir sua ação. Aprovado na segunda-feira passada pelo Ministério da Saúde, o Avastin está programado para rastrear a proteína VEGF, essencial para o crescimento do tumor. A combinação desse medicamento com a quimioterapia aumenta em 49% a sobrevida de pacientes com tumores avançados de mama. Atualmente, estão em desenvolvimento cerca de cinqüenta compostos pertencentes a uma dessas duas classes de remédios contra o câncer.

Em geral, as primeiras indicações de um novo medicamento destinam-se a pacientes que enfrentam tumores em estágios avançados, que já não dispõem de alternativas para controlar a doença. Como a ação de tais remédios se mostrou extremamente positiva nesses casos, a esperança é que eles sejam ainda mais efetivos em pacientes menos graves. "Os bons resultados demonstram que o espectro desses remédios deve se estender para um número enorme de pacientes num futuro próximo", disse a VEJA o oncologista George D. Demetri, diretor do Centro de Estudos de Câncer Ósseo e Sarcoma da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Um bom exemplo é o Herceptin, um anticorpo monoclonal. Quando foi lançado, em 1999, era indicado apenas para mulheres com graves tumores mamários. Agora, mostrou-se eficaz também no tratamento de pacientes com tumores iniciais. Três pesquisas diferentes, com 8.000 pacientes, concluíram que o Herceptin diminui em até 52% o risco de recidiva quando utilizado depois da cirurgia para extirpação do tumor. É uma grande notícia, sem dúvida.

 

Uma revolução na oncologia

Divulgação
Schlessinger: o câncer como doença crônica


O médico israelense Joseph Schlessinger, professor titular de farmacologia da Universidade Yale, nos Estados Unidos, é uma das referências mundiais nas áreas de biologia molecular e genética. Aos 60 anos, autor de cerca de 450 artigos e um dos pesquisadores mais citados por seus pares em trabalhos científicos, Schlessinger é um dos idealizadores de uma das classes de medicamentos mais promissoras no combate ao câncer, a dos inibidores de tirosinaquinase. De sua casa, na cidade americana de New Haven, ele falou a
VEJA.

COMO O SENHOR COMEÇOU A ESTUDAR OS INIBIDORES DE TIROSINAQUINASE?
No início dos anos 80, houve um avanço muito grande nos trabalhos sobre os mecanismos moleculares de vários tipos de câncer. Um deles apontou para a existência das tirosinaquinases, enzimas essenciais ao funcionamento tanto das células sadias quantos das cancerosas. Essa descoberta despertou a atenção de cientistas do mundo inteiro, inclusive a minha. Em 1991, fundei com outros dois pesquisadores o laboratório Sugen, para o desenvolvimento de moléculas capazes de inibir a ação das tirosinaquinases relacionadas ao crescimento de células tumorais. A lógica era simples: o bloqueio de determinadas tirosinaquinases poderia inviabilizar a multiplicação das células doentes.  

COMO OS NOVOS MEDICAMENTOS PODEM MUDAR A VIDA DOS PACIENTES COM CÂNCER?
Hoje, graças a eles, pessoas que, na década passada, morreriam em três meses continuam vivas depois de três anos. Como esses medicamentos atuam diretamente nas células doentes, eles são mais cômodos para o paciente. Um quimioterápico convencional produz uma série de efeitos colaterais indesejáveis, ao atacar também as células sadias. Além disso, não há como prever se aquele tratamento será eficaz. Como não é possível evitar os medicamentos, o ideal é que eles afetem a vida das pessoas o mínimo possível. Esse é o objetivo das novas terapêuticas contra o câncer.  

O SENHOR ACREDITA QUE INIBIDORES DE TIROSINAQUINASE SUPERARÃO A IMPORTÂNCIA DA QUIMIOTERAPIA NA HISTÓRIA DO TRATAMENTO DO CÂNCER?
Sem dúvida nenhuma. Os novos medicamentos são resultado do conhecimento, da compreensão das causas do câncer. Não são um tiro no escuro. Ao que tudo indica, em dez anos, no máximo quinze, esses remédios finalmente farão do câncer uma doença crônica.  

QUAL O FUTURO DO TRATAMENTO DO CÂNCER?
A grande meta é a individualização do tratamento. Ou seja, desenvolver uma terapia específica para cada paciente. Isso porque o câncer é uma doença que se manifesta de maneira muito distinta entre as pessoas.  

O QUE FALTA PARA CHEGARMOS LÁ?
Os primeiros passos já foram dados. Falta ainda desenvolver mecanismos mais precisos para identificar o ponto fraco do tumor de cada paciente, e isso só será possível com o teste genético de cada tumor. O tratamento do câncer passa por uma revolução. Em breve, ele deve se tornar uma doença crônica, como a hipertensão e o colesterol alto.

 
 
 
 
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