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Medicina
O segredo dos sobreviventes
A chave para uma vacina antiaids pode
estar nos pacientes que têm o vírus, não
tomam remédios e não desenvolvem a doença

Giuliana Bergamo
Divulgação
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| Kai Brothers, um sobrevivente: 23 anos sem
sintoma da doença |
O americano Kai Brothers calcula que tinha apenas 18 anos quando
contraiu o vírus da aids. Era 1981 e pouco se sabia sobre
a doença e menos ainda sobre o HIV. Nos oito anos
seguintes, Brothers testemunhou os horrores do início da
epidemia, com a morte quase que imediata de muitos amigos. Sem saber
que estava infectado, ele doou sangue várias vezes durante
esse período. Apenas em 1989 Brothers se submeteu ao teste
de HIV. O resultado positivo foi uma surpresa. Aos 26 anos, ele
nunca havia apresentado nenhum sinal da aids. Naquele tempo, o costume
era medicar a maioria dos portadores do vírus. Brothers não
aceitou: ele se sentia saudável e temia os efeitos colaterais
do tratamento. Sem nunca ter sido medicado, ele hoje faz parte do
grupo de estudos do virologista Jay Levy, professor da Universidade
da Califórnia, em São Francisco. Desde o fim da década
de 80, Levy estuda o caso de pessoas que, como Brothers, carregam
o HIV, mas seguem saudáveis, sem nenhum sintoma da doença,
apesar de jamais terem tomado remédios contra o vírus.
São o que os médicos chamam de "sobreviventes de longo
prazo". "Depois de acompanhar o sofrimento e a agonia de tanta gente
querida, eu quis retribuir a sorte que tenho colaborando com a luta
da ciência contra a aids", disse Brothers a VEJA. E o interesse
da medicina em pessoas como ele é enorme. Pode estar nelas
a chave para o desenvolvimento de uma vacina contra a doença.
Não
há estatísticas oficiais sobre o número de
"sobreviventes de longo prazo", mas estima-se que eles representem
cerca de 5% do total de infectados o que equivaleria a 92.000
pessoas no Brasil. Por obra e graça da genética, no
organismo dos "sobreviventes", o vírus da aids não
consegue entrar nas células. Conseqüentemente, o sistema
imunológico permanece intacto e eles não desenvolvem
a doença. "No entanto, é preciso deixar claro que,
ainda que o vírus não lhes cause danos, essas pessoas
são transmissoras do HIV como qualquer outro infectado",
diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Albert Einstein,
em São Paulo.
Imagine o corpo humano como um campo de batalha,
em que as células de defesa CD4 funcionariam como os comandantes
e as CD8, como os soldados. Quando ocorre a infecção
pelo HIV, as CD4 ordenam às CD8 que ataquem o inimigo. O
problema é que, quando as CD8 atacam o HIV, destroem também
células-comandantes, junto das quais está o invasor.
Com o desenrolar dessa refrega, chega um momento em que o estoque
de CD4 é tão baixo que o organismo passa a ficar sujeito
a todo tipo de infecção. Isso define a vitória
do HIV exceto no caso dos "sobreviventes de longo prazo".
Na grande maioria dos infectados, entre a data da infecção
e os primeiros sintomas da aids, leva-se, em média, cinco
anos. A equipe do virologista Levy acompanha trinta "sobreviventes
de longo prazo". A maioria é composta de homens, tem de 30
a 50 anos e convive com o HIV há quinze anos, em média.
"Oito deles, porém, são portadores do vírus
há 25 anos, estão bem e nunca receberam medicamento",
disse o médico a VEJA. Há duas hipóteses para
explicar por que uma pessoa pode ser infectada pelo HIV e nunca
vir a desenvolver a aids, mesmo sem medicamento. Alguns pesquisadores,
entre eles Jay Levy, acreditam que as células de defesa dos
"sobreviventes" produzem uma substância que congela o HIV
e o mantém inativo. Outros cientistas defendem que, nessas
pessoas, o vírus não se replica porque não
consegue entrar nas células e, dessa maneira, se multiplicar.
Outro caso de exceção genética
muito estudado é o das "prostitutas de Nairóbi". Assim
ficou conhecido o grupo de cerca de 200 quenianas que, embora mantenham
relações diárias com homens infectados, sem
nenhuma proteção, mostram-se imunes ao HIV. A suspeita
é a de que, também por causa da genética, o
sistema imunológico dessas mulheres produza uma proteína
específica que bloqueia a entrada do vírus nas células.
Com isso, o HIV não consegue se reproduzir e dominar o organismo
de seu hospedeiro. Os estudos com os "sobreviventes de longo prazo"
e as "prostitutas de Nairóbi" fornecem pistas sobre o funcionamento
do HIV e, com isso, criam novas frentes de combate à aids.
A síndrome da imunodeficiência
adquirida é uma das doenças que mais mobilizam as
atenções da ciência. Desde o começo da
epidemia, em 1981, já se produziram quase trinta medicamentos
contra ela. O mais novo deles acaba de chegar ao Brasil. É
o Fuzeon, do laboratório Roche. Primeiro de uma nova classe
de remédios antiaids, a dos inibidores de fusão, ele
é o único a combater o vírus antes que entre
nas células. Faz isso ao se grudar ao HIV, impedindo-o de
assumir a forma necessária para efetuar a invasão
celular. Está prevista para 2008 a chegada ao mercado de
uma outra categoria de medicamentos, a dos inibidores dos co-receptores.
Ao atuar nas proteínas encontradas na superfície das
células que servem de entrada para o HIV, esses remédios
prometem bloquear o vírus. Quando Kai Brothers se contaminou,
a aids matava quase a totalidade de suas vítimas em três
anos, em média. Está-se ainda muito longe da cura,
mas, graças aos avanços nos conhecimentos sobre o
HIV e aos medicamentos criados a partir deles, hoje a aids é
uma doença crônica e controlável, conforme classificação
da Organização Mundial de Saúde. Casos como
o dos "sobreviventes de longo prazo" ou o das "prostitutas de Nairóbi"
sugerem que a cura para a doença pode estar não apenas
no vírus, mas também em seu hospedeiro.
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