Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Automóveis
Efeito aventura

Montadoras brasileiras lucram com
versões menores e urbanas dos jipões


Chrystiane Silva

 

Montagem com fotos de Marco de Bari e divulgação
O modelo CrossFox, em amarelo, montado na plataforma do Polo, em cinza

Em 1997, a Fiat brasileira decidiu pesquisar o súbito aumento da importação de veículos utilitários esportivos. Após entrevistar 200 donos desses importados, descobriu que 92% deles nunca haviam usado a tração nas quatro rodas – metade nem mesmo sabia acionar o sistema. E mais: a maioria utilizava os carros apenas dentro das cidades. A montadora descobriu ainda que esses consumidores estavam mais interessados no espírito de aventura e na aparência de segurança e robustez desses automóveis do que no seu desempenho fora do asfalto. Com base nessas informações, a Fiat lançou a Adventure da linha Palio Weekend, o primeiro modelo urbano com espírito fora-de-estrada do país. O carro, uma versão menor e menos potente dos jipões americanos, chegou ao mercado em setembro de 1999 com quebra-matos, estribos e suspensão 4 centímetros mais alta que a dos veículos convencionais. Para produzi-lo, a Fiat utilizou a mesma plataforma do Palio. De lá para cá, os automóveis fora-de-estrada caíram no gosto do brasileiro. Entre 2001 e 2004, a venda anual de utilitários esportivos subiu 618%. Passou de 6.500 para 46.727 veículos, elevando a participação de mercado desse segmento de 2,9% para 21,2%.

 

Montagem com fotos de Marco de Bari e divulgação
ECOSPORT: preferido das mulheres, o carro da Ford, o único com motor 4 por 4, já é exportado para a Argentina e o México

O mais popular dos jipinhos é o EcoSport, desenhado pela Ford brasileira após quatro anos de exaustivas pesquisas. A montadora ouviu 3.000 pessoas no Brasil, Argentina e México e descobriu que os latinos queriam um carro com suspensão mais alta, que oferecesse sensação de liberdade, facilidade para dirigir e funcionalidade. O veículo, lançado em abril de 2003, é o maior sucesso recente de vendas da montadora. Produzido na plataforma do modelo popular Fiesta, o EcoSport tem uma suspensão elevada e um vão de 20 centímetros em relação ao solo e é o único a ser vendido tanto na versão com tração em quatro rodas quanto em duas. A produção mensal inicial foi de 2.500 unidades e se esgotou em menos de um mês. À época de seu lançamento, a fila de espera para comprá-lo chegou a dois meses. Alguns detalhes fizeram com que o carro caísse no gosto das mulheres. Os modelos sem airbag no lado do passageiro vieram com uma minigeladeira e uma gaveta embaixo do banco. "As mulheres representam 55% de nossos clientes", diz Luis Salem, gerente-geral de marketing da Ford. Normalmente, os homens compram 60% dos carros desse segmento e as mulheres, 40%. A fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, já produziu 80.000 carros para o mercado nacional, 47.000 para ser exportados para o México e 25.000 para a Argentina.

 

Montagem com fotos de Marco de Bari e divulgação
PALIO ADVENTURE: pioneiro entre os clones de jipões, saiu da plataforma do Palio e hoje representa 50% das vendas da linha Palio Weekend

Com o sucesso do EcoSport e da Adventure, a GM e a Volkswagen também decidiram entrar na briga e seus modelos chegam neste mês às concessionárias. O CrossFox, da Volks, nasceu após uma pesquisa com 120 consumidores que chegou a conclusões idênticas às sondagens da Fiat e da Ford. "Eles queriam um carro com espírito fora-de-estrada, que representasse ousadia, aventura e juventude", diz Junia Nogueira de Sá, diretora de assuntos corporativos e imprensa da Volkswagen. Com o diagnóstico em mãos, os engenheiros da montadora levaram dezoito meses para desenvolver o modelo. No final, decidiu-se fazer o carro na plataforma do Polo. Entre suas principais características estão a elevação da suspensão e um vão de 18,9 centímetros em relação ao solo e dezessete porta-objetos distribuídos no interior do veículo. A expectativa inicial é que sejam vendidas 1.400 unidades por mês.

A GM também decidiu desbravar o mundo dos fora-de-estrada, mas com outra estratégia. Desde a semana passada, donos de Celta podem comprar, por 2.900 reais, um conjunto de acessórios para deixar o veículo com aparência de fora-de-estrada. Os acessórios incluem quebra-matos, estribos laterais e rack no teto. "O consumidor que busca a aparência pode transformar seu carro com um investimento baixo", diz Cristiane Sanches, gerente de marcas da GM.

 

Montagem com fotos de Marco de Bari e divulgação
CELTA OFF-ROAD: com um conjunto de acessórios, a GM faz com que o modelo popular Celta adquira a aura dos veículos fora-de-estrada

Não é de hoje que os carros urbanos com estilo fora-de-estrada estão no mercado. Os primeiros modelos surgiram nos anos 70, quando a montadora francesa Matra lançou o Rancho, um jipinho do tipo EcoSport, que foi desenvolvido a partir de uma plataforma hatch Simca 1100. Depois, nos anos 80, as montadoras japonesas incorporaram itens como suspensão elevada e quebra-mato dianteiro nos modelos convencionais, sem vocação para o fora-de-estrada, como o pequeno hatch Daihatsu Mira. No entanto, essas tentativas foram isoladas e não chegaram a despertar o interesse do consumidor. Na década passada, viraram moda com o lançamento dos modelos Volvo XC70, em 1998. Depois vieram o Audi Allroad, em 1999, e o Renault Scénic RX4, no ano 2000. Mas o maior impulso para deslanchar a cobiça dos brasileiros foi a febre dos utilitários esportivos americanos (sport utilities), que desbancaram os sedãs na preferência dos motoristas e reinaram no mercado dos Estados Unidos na década de 90. Recentemente, a alta do petróleo e preocupações ambientais transformaram esses carrões em vilões nos EUA, o que prejudicou as vendas e contribuiu para os sérios problemas financeiros das matrizes da Ford e da GM. Convenientemente, os miniutilitários feitos Brasil escapam dessa crise porque consomem menos combustível, não usam diesel como os importados e emitem um volume menor de poluentes. Além disso, custam muito menos – em média 40.000 reais, contra mais de 200.000 de alguns modelos de utilitários esportivos importados. São menos potentes, é verdade, mas isso não importa. Para seus consumidores, o que vale é sentir o espírito de aventura, mesmo que sobre o asfalto.

 
 
 
 
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