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Brasil Temporada
de caça aos ratos Os roedores do dinheiro público
começam a ser apanhados, mas a pouca fiscalização
e a lentidão da Justiça emperram a guerra do Brasil contra a
corrupção  Marcelo
Carneiro e Juliana Linhares
Paulo
Vitale
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Se o combate à corrupção fosse
uma maratona, o Brasil seria um competidor medíocre, daqueles que ficam
com a língua de fora antes da metade do percurso. No ranking que acaba
de ser divulgado pelo Banco Mundial, o país aparece com 53,2 pontos na
escala de controle da corrupção, que vai de zero a 100. O fim da
corrida, a julgar pelas conclusões do estudo, ainda vai demorar. De acordo
com o Banco Mundial, serão necessárias duas décadas para
que o Brasil se aproxime de nações como os Estados Unidos e o Reino
Unido, com índices superiores a 90 pontos. O desvio criminoso de dinheiro
público é uma tragédia para o país não só
por sua imoralidade intrínseca. A corrupção endêmica,
histórica e resistente custa caro aos brasileiros. Um estudo da
Fundação Getulio Vargas (FGV) feito pelo economista Marcos Fernandes
concluiu que o país perde de 3% a 5% de seu PIB graças à
disseminação de práticas como pagamento de propinas e licitações
com cartas marcadas. E aqui não se trata apenas do dinheiro que escoa dos
cofres públicos para o bolso dos corruptos, mas também daquele que
deixa de ser produzido. "A corrupção afugenta investimentos nacionais
e estrangeiros", afirma Fernandes. "Investir em um país onde ela está
disseminada significa ter de lidar com lixo escondido sob o tapete o que
inclui, além de pagamentos de propina, turbulências políticas
iminentes. É claro que o investidor prefere colocar seu dinheiro em um
lugar onde haja seriedade no trato com a coisa pública", diz.
Cada real tragado pelo ralo da corrupção é um dinheiro que
deixa de ser gasto na merenda escolar, na compra de remédios para os pobres,
na melhoria das estradas, enfim, no desenvolvimento social e físico do
país. Por que o Brasil não consegue avançar mais na corrida
contra essa praga? Nilson
Nascimento/AE
 | | Protesto
contra deputados pegos pedindo propina em Rondônia: paciência tem limite |
Uma das respostas é: porque ele demorou a dar a largada. O histórico
de combate à imoralidade pública no país é muito recente,
se comparado ao de outras nações. Desde a década de 80, países
desenvolvidos discutem como adaptar a legislação criminal às
novas práticas de desvio de recursos públicos, como a remessa ilegal
de dinheiro para o exterior e sua camuflagem em empresas off-shore. No Brasil,
essa preocupação surgiu há pouquíssimo tempo: só
em 2001 se conseguiu, por exemplo, flexibilizar as regras para a quebra do sigilo
bancário ferramenta fundamental para esclarecer casos como os de
enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro.
O Brasil também não foi capaz ainda de resolver uma questão
crucial quando se trata de pôr um fim à impunidade dos criminosos:
seu modelo processual. Quando um corrupto chega a se sentar no banco dos réus,
entra em operação uma engrenagem destinada a evitar, a todo custo,
sua condenação. A peça principal dessa engrenagem atende
pelo nome de recurso ferramenta legal que, criada originalmente para proteger
o acusado de eventuais erros jurídicos, acaba sendo usada com freqüência
por (bem pagos) advogados para protelar o julgamento às vezes por
décadas. No Brasil, há 21 formas diferentes de recursos. "Já
encontrei quarenta deles em um só processo. Isso é um absurdo",
diz o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Edson Vidigal.
É esse tipo de situação que, muitas vezes, acaba neutralizando
as pequenas conquistas brasileiras no combate à corrupção.
Um exemplo dessas vitórias são os bons resultados obtidos pela Polícia
Federal (PF) em suas últimas ações. Só neste ano,
a PF prendeu, em treze diferentes operações, 262 pessoas acusadas
de corrupção, entre elas 51 servidores públicos. Quase todas
estão em liberdade, aguardando o fim dos inquéritos e o julgamento
dos processos. Pelo modelo processual brasileiro, o mais certo é que a
maioria dos corruptos, mesmo os de culpa provada, continuará solta. "Hoje,
há a repressão, mas ainda são poucos os casos de condenação
pela Justiça, que deveriam ser uma conseqüência lógica
da ação", diz a procuradora Adrienne Senna, ex-presidente do Conselho
de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). "O conceito de ampla defesa do réu
não pode ser ilimitado. Precisa ser revisto", acrescenta Vidigal.
Acabar completamente com a imoralidade pública é uma meta utópica.
O que é possível fazer é conseguir chegar a um nível
de corrupção que corresponda apenas à fraqueza inerente da
condição humana ou a um nível em que, como diz o ditado
popular, a ocasião faz o ladrão. No Brasil de 2005 os ladrões
do dinheiro público estão fazendo a ocasião. Isso pode e
tem de acabar. Países que conseguiram conter essa praga experimentaram
surtos produtivos. Em 1970, Hong Kong tinha renda per capita de 970 dólares
e era um exemplo clássico de corrupção, fruto da relação
promíscua entre a polícia e o jogo ilegal. O governo legalizou as
apostas, promoveu uma limpa em seus quadros policiais e o resultado apareceu logo.
Hoje, a renda per capita da ex-colônia inglesa é de 25.000 dólares
e o território ocupa o 14º lugar no ranking da Transparência
Internacional, que lista os 133 países que melhor combatem o problema.
A Itália viveu experiência semelhante quando, nos anos 90, um grupo
de magistrados desencadeou uma maciça investida contra a Máfia e
suas ligações no governo, que ficou conhecida como Operação
Mãos Limpas. Foram 3.000 pessoas investigadas, 1.000 indiciamentos e 400
condenações um resultado que só foi possível
graças a um esforço concentrado que envolveu a reestruturação
do Ministério Público e da polícia judiciária, que
atuaram em conjunto. Marco
Antonio/AE
 | | O
ex-prefeito José Valter, preso na Operação Gabiru, em Alagoas:
quadrilha teria até um "manual da corrupção" |
Ações grandiosas não são necessariamente as mais eficazes.
Medidas simples (leia quadro)
como a redução drástica do número de cargos de
confiança no poder público, preconizada por órgãos
como o Banco Mundial e a Transparência Internacional, por exemplo, já
fariam uma enorme diferença no caso brasileiro. Isso porque um funcionário
que chega ao cargo por indicação política provavelmente estará
mais comprometido com os interesses de seus "padrinhos" do que com o interesse
público. A Transparência Internacional registra ainda uma série
de experiências de países que conseguiram vitórias no combate
à corrupção simplesmente aperfeiçoando sua legislação.
A Zâmbia criou leis específicas para punir a corrupção
entre funcionários públicos e as Filipinas têm em sua Constituição
dezoito artigos voltados exclusivamente para monitorar o comportamento dos servidores,
incluindo o presidente. Há leis prevendo a recuperação de
imóveis adquiridos ilegalmente por um servidor e vetos a empréstimos
de bancos oficiais a altos funcionários do governo. Já países
como Austrália, Cingapura, Tailândia e Hong Kong instituíram
as agências anticorrupção. Baseadas no modelo defendido pela
Transparência, elas são encabeçadas por um representante do
Executivo e formadas por um conselho do qual participam o Legislativo e o Judiciário,
além de órgãos como o Tribunal de Contas e o Ministério
Público. Sem função investigativa, servem para mapear as
falhas nos mecanismos de controle do Estado e traçar estratégias
para aperfeiçoá-lo. Outra medida
de fácil execução na briga contra a corrupção
é investir no que já existe e vem dando certo. Exemplo disso é
o método de fiscalização dos municípios que há
dois anos vem sendo praticado no Brasil pela Controladoria-Geral da União.
Mediante sorteio, a CGU seleciona, todo mês, sessenta cidades que irão
passar por uma auditoria destinada a checar se o dinheiro recebido da União
para ser investido em saúde e educação está sendo
corretamente aplicado pelos governantes. Foi por meio desse trabalho que a Polícia
Federal chegou à Operação Gabiru, deflagrada na terça-feira
passada, e que terminou com a prisão de 31 pessoas em Alagoas, incluindo
oito prefeitos e cinco ex-prefeitos. Eles são acusados de participar de
um esquema de desvio, na direção do próprio bolso, de verbas
destinadas à compra de merenda escolar. Segundo a PF, a roubalheira vinha
dando tão certo que os prefeitos já estavam "exportando" o know-how
do crime para pequenas cidades de Alagoas. Por meio de uma espécie de manual
da corrupção, ensinavam aos colegas como fazer com que o dinheiro
destinado à compra da merenda escolar escorresse para suas próprias
carteiras. O esquema só foi descoberto porque, numa das fiscalizações
da CGU em Alagoas, auditores farejaram o cheiro de maracutaia e, como de praxe,
comunicaram o fato ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério
Público. Dispondo de 2.000 auditores para fiscalizar 5.600 municípios
brasileiros, a CGU, no entanto, só conseguiu monitorar, até agora,
pouco mais de 5% do total de recursos que a União distribui aos municípios.
Se a corrupção no Brasil até
agora não diminuiu, o mesmo não se pode dizer da tolerância
das pessoas em relação a ela. Na semana passada, em uma manifestação
que teve até gás lacrimogêneo e vidraças quebradas
na Assembléia Legislativa, milhares de pessoas saíram às
ruas em Rondônia para protestar contra uma situação insólita:
um desembargador do Tribunal de Justiça proibiu a exibição,
no estado, de uma reportagem que foi ao ar na semana passada no programa Fantástico,
da Rede Globo. A reportagem baseou-se em um vídeo gravado pelo governador
do estado, Ivo Narciso Cassol. Na fita, sete deputados da Assembléia Legislativa
de Rondônia aparecem, sem nenhum constrangimento, pedindo propinas a Cassol
em troca de apoio na votação de projetos de interesse do Executivo.
A indignação da população de Rondônia não
se deve apenas à atitude dos deputados e à censura do juiz. Como
ficou claro nas manifestações, pouca gente se sensibilizou com o
papel de vítima que o governador tentou desempenhar. Cassol, que fez as
gravações em 2003 e só agora as tornou públicas, responde,
ele próprio, por acusações de nepotismo, fraudes em licitação
e até participação no contrabando de diamantes.
A caça aos roedores do dinheiro público precisa ser uma tarefa contínua.
É utópico imaginar, repita-se, que a corrupção será
inteiramente varrida do território nacional. Nenhum país o conseguiu.
Mas manter esse objetivo, ainda que impossível, no horizonte ajuda a criar
controles que diminuam o raio de ação dos que se dedicam a arrancar
propinas e a promover licitações fraudulentas. "A corrupção
não vai acabar nunca, mas o corrupto tem de se sentir como se estivesse
sendo marcado por um zagueiro rigoroso, que o acompanha o tempo todo", diz Claudio
Fonteles, procurador-geral da República. Mas a imagem do rato é
mais adequada, por tudo aquilo que ela expressa de pernicioso. Só a desratização
do ambiente governamental conterá a praga da corrupção que
assola o país. Se esse processo não for além das iniciativas
isoladas, não demorará para que a realidade imponha, no lugar de
"Ordem e Progresso", uma outra inscrição na bandeira nacional
"No Brasil, tudo está à venda". O político e historiador
Salustio (86-35 a.C.) resumiu dessa maneira a decadência do Império
Romano: "Em Roma, tudo está à venda". Salustio também ganhou
fama por ser um grande corrupto. A história ensina, portanto, que muitos
ratos da corrupção clamam contra sua própria espécie
em público, como se a ela não pertencessem, enquanto se encarregam
de reproduzi-la nos bastidores. Por isso não se deve acreditar em palavras
nesse caso. Só em ações. O resto é cacofonia e cinismo.
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Com reportagem de José
Edward, de Rondônia, Sérgio Martins e Erin Mizuta 
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