Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Corrupção
A maior crise de Lula

Atingido por um estado de espírito que
varia entre o irritado e o assustado, o
governo do PT – quanta ironia! – faz
tudo contra a CPI


Otávio Cabral


José Patrocínio/AE
DEFESA E ATAQUE
José Dirceu (acima), para quem uma CPI minimamente séria pegaria duas estrelas do PT, e a oposição ao protocolar o pedido de CPI com mais assinaturas do que o necessário: uma sucessão de ironias
Sérgio Lima/Folha Imagem

NESTA EDIÇÃO
Diga-me com quem anda...
Mesada de 400 000 reais para o PTB
Temporada de caça aos ratos

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre corrupção

Em seus quase trinta meses de vida, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva nunca esteve tão acuado. A crise que se seguiu à divulgação por VEJA do vídeo da corrupção nos Correios espalhou o receio de que o caso acabasse se multiplicando em outros escândalos. Afinal, em suas desassombradas confissões, o alto funcionário Maurício Marinho descreve a corrupção nos Correios e relata a existência de esquemas semelhantes em outras estatais. Mais um motivo para o susto foi a rapidez com que a oposição – com a ajuda de boa parte dos aliados – viabilizou a criação de uma CPI mista para investigar o caso. A possibilidade de que a CPI seja mesmo instalada produziu um clima de pânico. Na quarta-feira, em conversa com um aliado, o ministro José Dirceu explicou a origem de tanta apreensão: "É impossível que uma CPI minimamente bem-feita não pegue o Delúbio e o Silvinho". Ele referia-se ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e ao secretário-geral do partido, Silvio Pereira. Os dois participaram da distribuição de cargos federais entre os partidos aliados – o PTB, inclusive.

A azáfama do governo contra a CPI é a ironia elevada à última potência. As estrelas mais cintilantes do PT arregaçaram as mangas para barrar a CPI, esse poderoso instrumento que ajudou a construir a fama de defensores da ética de boa parte dos petistas hoje no governo. Nada como um dia após o outro. Na segunda-feira, Lula evitou a realização de um encontro que os aliados fariam sem a presença do PT e chamou-os todos – PT, inclusive – para um almoço no Palácio no dia seguinte. Na quarta-feira, tomou café-da-manhã com os líderes da Câmara, entre eles os da oposição, e cedeu às chantagens de Severino Cavalcanti, que emplacou seu afilhado, Djalma Rodrigues, na diretoria de exploração e produção da Petrobras. Irritado, o presidente da estatal, o petista José Eduardo Dutra, insinuou que poderia deixar o cargo se Rodrigues fosse realmente nomeado. Lula mandou dizer ao petista que, se for assim, terá mesmo de procurar outro emprego. Derramadamente agradecido, Severino já começou a servir ao governo. Para assustar os tucanos, ameaçou tirar da gaveta a CPI sobre a privatização do setor elétrico.

Na mesma quarta-feira, Lula jantou com quatro governadores e pediu que convencessem suas bancadas a retirar o apoio à CPI. "Lula está preocupado com a crise política e a imagem negativa dos políticos e das instituições", diz Eduardo Braga, governador do Amazonas, que esteve no jantar. Para quem não é político, é quase impossível entender por que uma CPI incumbida de apurar corrupção pode provocar crise e piorar a imagem dos políticos e instituições. Não deveria ser o contrário? A CPI apuraria os desvios nos Correios e identificaria os culpados, que seriam punidos, e as brechas para novas ações ilegais do mesmo tipo seriam fechadas. Resultado natural: políticos e instituições sairiam fortalecidos, com imagem renovada. Lula deve uma explicação aos brasileiros sobre por que está antevendo crise política e perigo para as instituições na investigação de corrupção de um funcionário de terceiro escalão dos Correios ligado a caciques do PTB, partido que, não é de hoje, sempre esteve na coluna dos custos dos governantes.

Nunca, nem no auge da votação da reforma da Previdência Social, o governo mobilizou-se tanto para granjear apoio no Congresso. A apreensão tem sido maior até do que quando veio a público o caso de Waldomiro Diniz, revelado pela revista Época em fevereiro do ano passado. "Waldomiro cometeu o crime quando era funcionário do governo de Garotinho. E o caso tinha potencial para destruir o José Dirceu, e não o governo todo. Agora, é diferente. A corrupção foi flagrada dentro de um órgão federal, no atual mandato, e pode não se limitar a esse órgão", compara um ministro com gabinete no Planalto. A situação estava tão tensa que, na quinta-feira à noite, se cogitou a idéia de cancelar a viagem do presidente ao Japão e à Coréia do Sul, prevista para durar oito dias e levar uma robusta comitiva de nove ministros. Até a noite de sexta-feira passada, a viagem estava mantida, embora a comitiva de ministros tenha sido reduzida – e o rolo compressor do governo no Congresso já surtira algum efeito. Nove deputados do PL solicitaram que suas assinaturas fossem retiradas do pedido de CPI. Com isso, o governo compensou, com uma pequena vantagem numérica, um desfalque na base aliada: o rompimento do Partido Verde, legenda do ministro da Cultura, Gilberto Gil. A discordância do PV com o governo diz respeito a vários aspectos da política ambiental, mas inclui também a postura do governo de tentar evitar a CPI. Com o rompimento, o PV anunciou seu "integral apoio" à CPI.

Com uma mobilização ímpar, houve até reunião de ministros para definir uma ação comum. Os ministros petistas José Dirceu, Luiz Dulci, Luiz Gushiken e Jaques Wagner selaram um pacto de convivência pacífica com o ministro Aldo Rebelo, do PCdoB, cuja cabeça o PT tem pedido com deselegante insistência pública. A primeira estratégia é a ameaça direta aos aliados: quem assinar a CPI será tratado como inimigo, deixando de receber o dinheiro de emendas ao Orçamento e tendo de entregar eventuais cargos no governo. Há outras ironias da história no episódio. O governo petista montou uma tropa de choque para evitar uma CPI cuja primeira vítima potencial é o deputado Roberto Jefferson, do PTB, o mesmo que liderou a tropa de choque que tentou salvar Collor do impeachment. Será que foi por isso que a famosa cartilha de expressões politicamente corretas do governo proibia que se falasse "farinha do mesmo saco"?

 
 
 
 
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