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Corrupção
A maior crise de Lula Atingido
por um estado de espírito que varia entre o irritado e o assustado,
o governo do PT quanta ironia! faz tudo contra a CPI 
Otávio Cabral
José Patrocínio/AE
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DEFESA E ATAQUE
José Dirceu (acima), para quem uma CPI minimamente séria
pegaria duas estrelas do PT, e a oposição ao protocolar o pedido
de CPI com mais assinaturas do que o necessário: uma sucessão de
ironias | Sérgio
Lima/Folha Imagem  |
Em seus quase trinta meses de vida, o governo de
Luiz Inácio Lula da Silva nunca esteve tão acuado. A crise que se
seguiu à divulgação por VEJA do vídeo da corrupção
nos Correios espalhou o receio de que o caso acabasse se multiplicando em outros
escândalos. Afinal, em suas desassombradas confissões, o alto funcionário
Maurício Marinho descreve a corrupção nos Correios e relata
a existência de esquemas semelhantes em outras estatais. Mais um motivo
para o susto foi a rapidez com que a oposição com a ajuda
de boa parte dos aliados viabilizou a criação de uma CPI
mista para investigar o caso. A possibilidade de que a CPI seja mesmo instalada
produziu um clima de pânico. Na quarta-feira, em conversa com um aliado,
o ministro José Dirceu explicou a origem de tanta apreensão: "É
impossível que uma CPI minimamente bem-feita não pegue o Delúbio
e o Silvinho". Ele referia-se ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e ao
secretário-geral do partido, Silvio Pereira. Os dois participaram da distribuição
de cargos federais entre os partidos aliados o PTB, inclusive.
A azáfama do governo contra a CPI é a ironia elevada à última
potência. As estrelas mais cintilantes do PT arregaçaram as mangas
para barrar a CPI, esse poderoso instrumento que ajudou a construir a fama de
defensores da ética de boa parte dos petistas hoje no governo. Nada como
um dia após o outro. Na segunda-feira, Lula evitou a realização
de um encontro que os aliados fariam sem a presença do PT e chamou-os todos
PT, inclusive para um almoço no Palácio no dia seguinte.
Na quarta-feira, tomou café-da-manhã com os líderes da Câmara,
entre eles os da oposição, e cedeu às chantagens de Severino
Cavalcanti, que emplacou seu afilhado, Djalma Rodrigues, na diretoria de exploração
e produção da Petrobras. Irritado, o presidente da estatal, o petista
José Eduardo Dutra, insinuou que poderia deixar o cargo se Rodrigues fosse
realmente nomeado. Lula mandou dizer ao petista que, se for assim, terá
mesmo de procurar outro emprego. Derramadamente agradecido, Severino já
começou a servir ao governo. Para assustar os tucanos, ameaçou tirar
da gaveta a CPI sobre a privatização do setor elétrico.
Na mesma quarta-feira, Lula jantou com quatro
governadores e pediu que convencessem suas bancadas a retirar o apoio à
CPI. "Lula está preocupado com a crise política e a imagem negativa
dos políticos e das instituições", diz Eduardo Braga, governador
do Amazonas, que esteve no jantar. Para quem não é político,
é quase impossível entender por que uma CPI incumbida de apurar
corrupção pode provocar crise e piorar a imagem dos políticos
e instituições. Não deveria ser o contrário? A CPI
apuraria os desvios nos Correios e identificaria os culpados, que seriam punidos,
e as brechas para novas ações ilegais do mesmo tipo seriam fechadas.
Resultado natural: políticos e instituições sairiam fortalecidos,
com imagem renovada. Lula deve uma explicação aos brasileiros sobre
por que está antevendo crise política e perigo para as instituições
na investigação de corrupção de um funcionário
de terceiro escalão dos Correios ligado a caciques do PTB, partido que,
não é de hoje, sempre esteve na coluna dos custos dos governantes.
Nunca, nem no auge da votação
da reforma da Previdência Social, o governo mobilizou-se tanto para granjear
apoio no Congresso. A apreensão tem sido maior até do que quando
veio a público o caso de Waldomiro Diniz, revelado pela revista Época
em fevereiro do ano passado. "Waldomiro cometeu o crime quando era funcionário
do governo de Garotinho. E o caso tinha potencial para destruir o José
Dirceu, e não o governo todo. Agora, é diferente. A corrupção
foi flagrada dentro de um órgão federal, no atual mandato, e pode
não se limitar a esse órgão", compara um ministro com gabinete
no Planalto. A situação estava tão tensa que, na quinta-feira
à noite, se cogitou a idéia de cancelar a viagem do presidente ao
Japão e à Coréia do Sul, prevista para durar oito dias e
levar uma robusta comitiva de nove ministros. Até a noite de sexta-feira
passada, a viagem estava mantida, embora a comitiva de ministros tenha sido reduzida
e o rolo compressor do governo no Congresso já surtira algum efeito.
Nove deputados do PL solicitaram que suas assinaturas fossem retiradas do pedido
de CPI. Com isso, o governo compensou, com uma pequena vantagem numérica,
um desfalque na base aliada: o rompimento do Partido Verde, legenda do ministro
da Cultura, Gilberto Gil. A discordância do PV com o governo diz respeito
a vários aspectos da política ambiental, mas inclui também
a postura do governo de tentar evitar a CPI. Com o rompimento, o PV anunciou seu
"integral apoio" à CPI. Com
uma mobilização ímpar, houve até reunião de
ministros para definir uma ação comum. Os ministros petistas José
Dirceu, Luiz Dulci, Luiz Gushiken e Jaques Wagner selaram um pacto de convivência
pacífica com o ministro Aldo Rebelo, do PCdoB, cuja cabeça o PT
tem pedido com deselegante insistência pública. A primeira estratégia
é a ameaça direta aos aliados: quem assinar a CPI será tratado
como inimigo, deixando de receber o dinheiro de emendas ao Orçamento e
tendo de entregar eventuais cargos no governo. Há outras ironias da história
no episódio. O governo petista montou uma tropa de choque para evitar uma
CPI cuja primeira vítima potencial é o deputado Roberto Jefferson,
do PTB, o mesmo que liderou a tropa de choque que tentou salvar Collor do impeachment.
Será que foi por isso que a famosa cartilha de expressões politicamente
corretas do governo proibia que se falasse "farinha do mesmo saco"?
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