Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Brasil
Mesada de 400 000 reais
para o PTB

No IRB, estatal de resseguros, Jefferson
pressionou para arrancar renda mensal
– e não escondeu que quem ganha cargo
tem de roubar para ajudar o partido


Policarpo Junior e Ronaldo França

 
Alexandre Bruma/Ag. Dia
Celso Junior/AE
PONHA-SE DAQUI PARA FORA
O ex-presidente do IRB, Lídio Duarte (acima, à esq.), o corretor de seguros Henrique Brandão (acima) e o deputado Roberto Jefferson: a pressão para extrair a mesada do PTB chegou a tal ponto que, numa ocasião, Duarte expulsou Brandão de seu gabinete

NESTA EDIÇÃO
Diga-me com quem anda...
A maior crise de Lula
Temporada de caça aos ratos

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre corrupção

Assim que veio a público o vídeo da corrupção nos Correios, o governo tomou as providências necessárias: abriu uma sindicância interna na estatal, instalou um inquérito policial, afastou o diretor da área envolvida e suspendeu uma milionária licitação sob suspeita. "O governo federal é absolutamente intransigente com a corrupção. Pior que a corrupção é a corrupção impune", disse o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, ao anunciar o inquérito da Polícia Federal. "Este é um governo que não rouba e não deixa roubar", voltou a dizer o ministro da Casa Civil, José Dirceu, ao ser entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. O dado desalentador é que tais providências, por mais eficazes que venham a se revelar, são tímidas para a dimensão do caso e portanto incapazes de atingir o cerne do problema – ou seja: o esquema de corrupção do PTB instalado não apenas nos Correios, mas em outros espaços da máquina pública, sob o comando onipresente do deputado Roberto Jefferson. No vídeo, Maurício Marinho, o funcionário dos Correios pilhado descrevendo as maracutaias na estatal, cita algumas empresas nas quais a malha de roubalheiras do PTB tem ramificações – além dos Correios, ele fala em Infraero, Eletronorte, Petrobras. Com certeza, faltou mencionar uma em especial: o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).

Há dois meses, o então presidente do IRB, o economista Lídio Duarte, funcionário de carreira da estatal, entregou sua carta de demissão ao Ministério da Fazenda. Na época, divulgou-se que ele se demitira por discordar da intenção do governo de privatizar o IRB, uma estatal fundada em 1939 e inteiramente fora de moda no mundo globalizado de hoje. O motivo da demissão, porém, era apenas uma desculpa pública. Na verdade, Lídio Duarte vinha travando uma batalha surda com o PTB, partido ao qual, no loteamento de cargos do governo Lula, coube o comando do IRB. E a batalha surda tinha um motivo bem mais grave do que a discordância a respeito da privatização: Lídio Duarte vinha sendo pressionado a entregar 400.000 reais ao PTB todos os meses. Isso: 400.000 reais mensais. A idéia era que, com uma mesada desse tamanho, ao fim de um ano, as falcatruas no IRB tivessem rendido ao caixa do PTB perto de 5 milhões de reais. Antes de deixar o cargo, em março passado, Lídio Duarte contou a um graduado servidor público os problemas que vinha enfrentando por se negar a produzir a mesada de 400.000 reais via operações administrativas irregulares.

 
Margarida Neide/Ag. A Tarde
NOTA DE DESCULPAS
Antonio Osório Batista (à esq.), afastado na semana passada depois que o escândalo veio a público, e Maurício Marinho (à dir.), no vídeo em que relata o esquema de corrupção do PTB nos Correios e embolsa um maço de 3 000 reais a título de entrada: na semana passada, ele fez uma nota sob medida para o deputado Roberto Jefferson pedindo desculpas e dizendo que falou demais

O economista Lídio Duarte chegou à presidência do IRB por indicação de José Carlos Martinez, que comandava o PTB quando morreu num acidente aéreo, em outubro de 2003. Depois da morte de Martinez, Duarte permaneceu no cargo, mas o deputado Roberto Jefferson, que assumiu a presidência do PTB no lugar do correligionário falecido, fez questão de estender seus domínios sobre o IRB. Henrique Brandão, um corretor de seguros que costumava circular pelos corredores da estatal, passou a fazê-lo investido da autoridade de quem é velho amigo do deputado Roberto Jefferson. Certo dia, Brandão entrou no gabinete de Lídio Duarte e, sem meias palavras, disse que a partir daquela data sua gestão precisava render 400.000 reais ao PTB. Sem saber se Brandão falava mesmo em nome do partido ou se blefava, Lídio Duarte procurou o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB. Na conversa, Jefferson não deixou dúvidas: disse que era amigo de Henrique Brandão havia mais de trinta anos, repetiu que as despesas do partido eram altas e que precisava da colaboração financeira dos dirigentes de estatais indicados para seus cargos pelo PTB. Em outras palavras: quem tinha cargo tinha de roubar.

As pressões para que a mesada de 400 000 reais fosse fabricada eram fortes e constantes. Num dado momento, a tensão chegou a tal ponto que Lídio Duarte expulsou Henrique Brandão de sua sala. "Nunca fiz isso na vida", nega Brandão, o corretor de seguros. "Sou amigo pessoal do Roberto Jefferson, me relaciono com todos os partidos, mas minha vida é vender seguros." Com o excesso de pressão, Lídio Duarte acabou pedindo demissão.


Renata Gobatti
HOMEM DE CONFIANÇA
Roberto Salmeron, atual presidente da Eletronorte: de acordo com o vídeo da corrupção, ele é um dos operadores de Jefferson


Em seu lugar, o PTB colocou Luiz Appolonio Neto, que se confessa apadrinhado pelo ex-governador Luiz Antonio Fleury e – é claro – pelo deputado Roberto Jefferson. O IRB, que tinha o monopólio do mercado de resseguros internacionais, que movimenta algo em torno de 450 milhões de dólares, resolveu dividi-lo entre 23 corretoras credenciadas, gerando uma participação em comissões que, só no ano passado, chegou a 30 milhões de dólares. A corretora de Henrique Brandão é uma das 23 credenciadas, além de ter em seus quadros Marcos Vinícius, que vem a ser genro de Roberto Jefferson e também seu assessor parlamentar. Apenas no primeiro ano, a corretora de Brandão abocanhou 10% de todos os seguros de embarcações e 20% dos de empresas aéreas. Desde 2003, nesse ambiente esplendorosamente favorável, os negócios de Brandão, o amigo de três décadas de Roberto Jefferson e empregador de seu genro, crescem a um ritmo de 25% ao ano. Procurado por VEJA, Lídio Duarte afirmou que apenas fez o que achava correto, mas guarda para si, por enquanto, os detalhes das pressões que sofreu do PTB.

O deputado Roberto Jefferson é o grande protagonista do vídeo da corrupção nos Correios. Na gravação, o funcionário Maurício Marinho diz abertamente que o deputado é quem lhe fornece condições para promover as roubalheiras. "Ele me dá cobertura, fala comigo, não manda recado. Eu não faço nada sem consultar." O funcionário também diz que Roberto Jefferson é o chefe do esquema de corrupção em toda a máquina federal, e não apenas nos Correios, e que seus dois principais auxiliares são Antonio Osório Batista, o diretor de administração dos Correios afastado na semana passada depois que o escândalo veio a público, e Roberto Garcia Salmeron, presidente da Eletronorte, uma das grandes estatais elétricas do país. Na última terça-feira, o deputado Roberto Jefferson, injuriado com o papel de líder da corrupção do PTB no governo, subiu à tribuna da Câmara para defender-se. Num discurso de quarenta minutos, ancorou sua linha de defesa num único ponto: o funcionário dos Correios usara seu nome indevidamente. Teve o apoio de uma nota de Maurício Marinho, na qual o funcionário conta que teve um surto de grandeza e falou além da realidade.

É incrível como a proximidade com Roberto Jefferson faz de qualquer pessoa um gigante moral. Na semana passada, VEJA investigou mais um caso em que outro funcionário, igualmente apadrinhado por Roberto Jefferson, também foi acometido por um "surto de grandeza". Luis Carlos Roque chefiava a delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na estrada que liga o Rio de Janeiro a Santos, no litoral paulista, e chegou a ser preso por suspeita de participar de uma quadrilha que falsificava combustíveis. Numa investigação, tocada pela Polícia Federal, Roque aparece em diversas ligações telefônicas grampeadas com autorização judicial. Nelas, além de fornecer os indícios que levaram a sua prisão, Roque deixa claro que só chegou ao cargo por indicação de Roberto Jefferson. Em uma das conversas, confessa abertamente que sua ascensão não decorre de sua retidão ética. "Não sou correto, não sou honesto, não sou santo", diz ele, num bate-papo com uma colega de trabalho. Em seguida, defende seu ponto de vista segundo o qual é incorreto se envolver em crimes pesados, como narcotráfico ou contrabando de armas, mas não vê maiores problemas numa propina aqui, outra propina ali. "Não concordo com sacanagem de droga, de arma. A gente pode ver nosso lado, mas de uma forma light, sem comprometer a instituição", diz o afilhado de Jefferson.


COM GASOLINA ADULTERADA
Carlos Roque, a quem Jefferson fez questão de nomear para chefiar uma delegacia da Polícia Rodoviária Federal: preso por envolvimento com a máfia dos combustíveis

Em outros diálogos gravados, a Polícia Federal colheu indícios do que o policial considera ser uma corrupção light: ele liberava irregularmente carros apreendidos pela polícia, desaparecia com multas de trânsito, distribuía favores a empresários e facilitava a passagem de carros-tanques carregados com combustível adulterado. No inquérito que rendeu a prisão temporária de Roque, o próprio deputado Roberto Jefferson também aparece por causa do grampo telefônico. É uma conversa entre o deputado e Maria de Fátima Pina, presidente do Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais do Rio. Na ligação, Maria de Fátima pede que Jefferson interfira em favor de um policial junto à direção-geral da PRF. Diante do pedido, Jefferson pondera que ela mesma deveria fazer contato com a direção-geral, de modo que o deputado não ficasse gastando cartucho com coisa pequena. Ao fim da ligação, a sindicalista diz ao deputado que, ao seu lado, está uma pessoa a quem ela se refere como "o patrão". Ela pergunta se o deputado gostaria de falar com "o patrão". Mas o deputado, num sinal de que temia estar sendo grampeado, recusa a sugestão e explica: "Esses telefones tão todos ruins".

Um dado constrangedor para o deputado Roberto Jefferson é o fato de que seus indicados se envolvem com falcatruas diversas com uma desconcertante freqüência. O médico Paulo Cesar Rondinelli, por exemplo, ficou nove anos na diretoria do Instituto Nacional de Tráumato-Ortopedia, com sede no Rio de Janeiro. Nesse período, atingiu a espetacular marca de 104 denúncias. É um universo de denúncias amplo e muitas vezes despudorado, como no caso das próteses encontradas no mercado ao preço de 200 dólares, mas que o instituto de Rondinelli comprava por 2.000 dólares. Com versatilidade, o médico fez de tudo um pouco no instituto e, assim, acabou recebendo condenações não muito comuns. Numa delas, junto com um auxiliar, foi sentenciado pelo Tribunal de Contas da União a restituir 447.000 reais aos cofres públicos. Rondinelli também já foi proibido de ocupar cargos de confiança por cinco anos. No ano passado, depois de uma auditoria do Ministério da Saúde, ao qual o instituto é subordinado, foi demitido "a bem do serviço público". Ele afirma que não era afilhado de Roberto Jefferson, a quem garante ter encontrado poucas vezes na vida. Mas, quando se refere ao deputado, diz apenas "o Roberto".

Ivone Barros de Souza e Silva, que era coordenadora de fiscalização e arrecadação do INSS no Rio, é outro exemplo – e de longa data. Sua primeira aparição num rolo vem de 2002, no âmbito da CPI estadual que investigou irregularidades na Previdência Social. Ivone de Souza e Silva começou a ser investigada pela Polícia Federal em 2003, depois que surgiu a suspeita de que se envolveu com uma quadrilha que, entre outras pilantragens, emitia falsas certidões negativas de débito em Volta Redonda, no sul do estado do Rio. Ivone de Souza e Silva está para ser indiciada pela Polícia Federal, que já sabe de seu envolvimento até com Maria Auxiliadora de Vasconcellos, presidente do sindicato dos auditores do INSS, que foi presa no início do mês sob a acusação de integrar uma quadrilha cujas fraudes podem chegar a 1 bilhão de reais. Em sua função, Ivone de Souza e Silva ocupava o segundo posto mais importante do INSS no Rio, cuja importância só era inferior à do superintendente. O gabinete dela ficava no 25º andar do prédio do INSS, no centro do Rio, e um de seus visitantes habituais era o deputado Roberto Jefferson. Nas festas de aniversário dos funcionários da repartição, Ivone costumava exibir seu prestígio aos colegas de trabalho trazendo sempre um mesmo convidado de honra: Roberto Jefferson.

 
 
 
 
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