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Brasil Mesada
de 400 000 reais para o PTB
No IRB, estatal de resseguros, Jefferson pressionou para arrancar renda mensal
e não escondeu que quem ganha cargo tem de roubar para ajudar
o partido  Policarpo
Junior e Ronaldo França
Alexandre
Bruma/Ag. Dia
 |  | Celso
Junior/AE
 | PONHA-SE
DAQUI PARA FORA O ex-presidente do IRB, Lídio
Duarte (acima, à esq.), o corretor de seguros Henrique Brandão
(acima) e o deputado Roberto Jefferson: a pressão para extrair a
mesada do PTB chegou a tal ponto que, numa ocasião, Duarte expulsou Brandão
de seu gabinete |
Assim que veio a público
o vídeo da corrupção nos Correios, o governo tomou as providências
necessárias: abriu uma sindicância interna na estatal, instalou um
inquérito policial, afastou o diretor da área envolvida e suspendeu
uma milionária licitação sob suspeita. "O governo federal
é absolutamente intransigente com a corrupção. Pior que a
corrupção é a corrupção impune", disse o ministro
da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, ao anunciar o inquérito
da Polícia Federal. "Este é um governo que não rouba e não
deixa roubar", voltou a dizer o ministro da Casa Civil, José Dirceu, ao
ser entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. O dado desalentador
é que tais providências, por mais eficazes que venham a se revelar,
são tímidas para a dimensão do caso e portanto incapazes
de atingir o cerne do problema ou seja: o esquema de corrupção
do PTB instalado não apenas nos Correios, mas em outros espaços
da máquina pública, sob o comando onipresente do deputado Roberto
Jefferson. No vídeo, Maurício Marinho, o funcionário dos
Correios pilhado descrevendo as maracutaias na estatal, cita algumas empresas
nas quais a malha de roubalheiras do PTB tem ramificações
além dos Correios, ele fala em Infraero, Eletronorte, Petrobras. Com certeza,
faltou mencionar uma em especial: o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
Há dois meses, o então presidente do IRB, o economista Lídio
Duarte, funcionário de carreira da estatal, entregou sua carta de demissão
ao Ministério da Fazenda. Na época, divulgou-se que ele se demitira
por discordar da intenção do governo de privatizar o IRB, uma estatal
fundada em 1939 e inteiramente fora de moda no mundo globalizado de hoje. O motivo
da demissão, porém, era apenas uma desculpa pública. Na verdade,
Lídio Duarte vinha travando uma batalha surda com o PTB, partido ao qual,
no loteamento de cargos do governo Lula, coube o comando do IRB. E a batalha surda
tinha um motivo bem mais grave do que a discordância a respeito da privatização:
Lídio Duarte vinha sendo pressionado a entregar 400.000 reais ao PTB todos
os meses. Isso: 400.000 reais mensais. A idéia era que, com uma mesada
desse tamanho, ao fim de um ano, as falcatruas no IRB tivessem rendido ao caixa
do PTB perto de 5 milhões de reais. Antes de deixar o cargo, em março
passado, Lídio Duarte contou a um graduado servidor público os problemas
que vinha enfrentando por se negar a produzir a mesada de 400.000 reais via operações
administrativas irregulares. Margarida
Neide/Ag. A Tarde
 |  | NOTA
DE DESCULPAS Antonio Osório Batista (à
esq.), afastado na semana passada depois que o escândalo veio a público,
e Maurício Marinho (à dir.), no vídeo em que relata
o esquema de corrupção do PTB nos Correios e embolsa um maço
de 3 000 reais a título de entrada: na semana passada, ele fez uma nota
sob medida para o deputado Roberto Jefferson pedindo desculpas e dizendo que falou
demais |
O economista Lídio
Duarte chegou à presidência do IRB por indicação de
José Carlos Martinez, que comandava o PTB quando morreu num acidente aéreo,
em outubro de 2003. Depois da morte de Martinez, Duarte permaneceu no cargo, mas
o deputado Roberto Jefferson, que assumiu a presidência do PTB no lugar
do correligionário falecido, fez questão de estender seus domínios
sobre o IRB. Henrique Brandão, um corretor de seguros que costumava circular
pelos corredores da estatal, passou a fazê-lo investido da autoridade de
quem é velho amigo do deputado Roberto Jefferson. Certo dia, Brandão
entrou no gabinete de Lídio Duarte e, sem meias palavras, disse que a partir
daquela data sua gestão precisava render 400.000 reais ao PTB. Sem saber
se Brandão falava mesmo em nome do partido ou se blefava, Lídio
Duarte procurou o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB. Na conversa,
Jefferson não deixou dúvidas: disse que era amigo de Henrique Brandão
havia mais de trinta anos, repetiu que as despesas do partido eram altas e que
precisava da colaboração financeira dos dirigentes de estatais indicados
para seus cargos pelo PTB. Em outras palavras: quem tinha cargo tinha de roubar.
As pressões para que a mesada de 400 000
reais fosse fabricada eram fortes e constantes. Num dado momento, a tensão
chegou a tal ponto que Lídio Duarte expulsou Henrique Brandão de
sua sala. "Nunca fiz isso na vida", nega Brandão, o corretor de seguros.
"Sou amigo pessoal do Roberto Jefferson, me relaciono com todos os partidos, mas
minha vida é vender seguros." Com o excesso de pressão, Lídio
Duarte acabou pedindo demissão.
Renata
Gobatti
 | HOMEM
DE CONFIANÇA Roberto Salmeron, atual presidente
da Eletronorte: de acordo com o vídeo da corrupção, ele é um dos operadores de
Jefferson |
Em seu lugar, o
PTB colocou Luiz Appolonio Neto, que se confessa apadrinhado pelo ex-governador
Luiz Antonio Fleury e é claro pelo deputado Roberto Jefferson.
O IRB, que tinha o monopólio do mercado de resseguros internacionais, que
movimenta algo em torno de 450 milhões de dólares, resolveu dividi-lo
entre 23 corretoras credenciadas, gerando uma participação em comissões
que, só no ano passado, chegou a 30 milhões de dólares. A
corretora de Henrique Brandão é uma das 23 credenciadas, além
de ter em seus quadros Marcos Vinícius, que vem a ser genro de Roberto
Jefferson e também seu assessor parlamentar. Apenas no primeiro ano, a
corretora de Brandão abocanhou 10% de todos os seguros de embarcações
e 20% dos de empresas aéreas. Desde 2003, nesse ambiente esplendorosamente
favorável, os negócios de Brandão, o amigo de três
décadas de Roberto Jefferson e empregador de seu genro, crescem a um ritmo
de 25% ao ano. Procurado por VEJA, Lídio Duarte afirmou que apenas fez
o que achava correto, mas guarda para si, por enquanto, os detalhes das pressões
que sofreu do PTB.
O deputado Roberto Jefferson
é o grande protagonista do vídeo da corrupção nos
Correios. Na gravação, o funcionário Maurício Marinho
diz abertamente que o deputado é quem lhe fornece condições
para promover as roubalheiras. "Ele me dá cobertura, fala comigo, não
manda recado. Eu não faço nada sem consultar." O funcionário
também diz que Roberto Jefferson é o chefe do esquema de corrupção
em toda a máquina federal, e não apenas nos Correios, e que seus
dois principais auxiliares são Antonio Osório Batista, o diretor
de administração dos Correios afastado na semana passada depois
que o escândalo veio a público, e Roberto Garcia Salmeron, presidente
da Eletronorte, uma das grandes estatais elétricas do país. Na última
terça-feira, o deputado Roberto Jefferson, injuriado com o papel de líder
da corrupção do PTB no governo, subiu à tribuna da Câmara
para defender-se. Num discurso de quarenta minutos, ancorou sua linha de defesa
num único ponto: o funcionário dos Correios usara seu nome indevidamente.
Teve o apoio de uma nota de Maurício Marinho, na qual o funcionário
conta que teve um surto de grandeza e falou além da realidade.
É incrível como a proximidade com Roberto Jefferson
faz de qualquer pessoa um gigante moral. Na semana passada, VEJA investigou mais
um caso em que outro funcionário, igualmente apadrinhado por Roberto Jefferson,
também foi acometido por um "surto de grandeza". Luis Carlos Roque chefiava
a delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na estrada que liga
o Rio de Janeiro a Santos, no litoral paulista, e chegou a ser preso por suspeita
de participar de uma quadrilha que falsificava combustíveis. Numa investigação,
tocada pela Polícia Federal, Roque aparece em diversas ligações
telefônicas grampeadas com autorização judicial. Nelas, além
de fornecer os indícios que levaram a sua prisão, Roque deixa claro
que só chegou ao cargo por indicação de Roberto Jefferson.
Em uma das conversas, confessa abertamente que sua ascensão não
decorre de sua retidão ética. "Não sou correto, não
sou honesto, não sou santo", diz ele, num bate-papo com uma colega de trabalho.
Em seguida, defende seu ponto de vista segundo o qual é incorreto se envolver
em crimes pesados, como narcotráfico ou contrabando de armas, mas não
vê maiores problemas numa propina aqui, outra propina ali. "Não concordo
com sacanagem de droga, de arma. A gente pode ver nosso lado, mas de uma forma
light, sem comprometer a instituição", diz o afilhado de Jefferson.
 | COM
GASOLINA ADULTERADA Carlos Roque, a quem Jefferson
fez questão de nomear para chefiar uma delegacia da Polícia Rodoviária Federal:
preso por envolvimento com a máfia dos combustíveis |
Em
outros diálogos gravados, a Polícia Federal colheu indícios
do que o policial considera ser uma corrupção light: ele liberava
irregularmente carros apreendidos pela polícia, desaparecia com multas
de trânsito, distribuía favores a empresários e facilitava
a passagem de carros-tanques carregados com combustível adulterado. No
inquérito que rendeu a prisão temporária de Roque, o próprio
deputado Roberto Jefferson também aparece por causa do grampo telefônico.
É uma conversa entre o deputado e Maria de Fátima Pina, presidente
do Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais do Rio. Na ligação,
Maria de Fátima pede que Jefferson interfira em favor de um policial junto
à direção-geral da PRF. Diante do pedido, Jefferson pondera
que ela mesma deveria fazer contato com a direção-geral, de modo
que o deputado não ficasse gastando cartucho com coisa pequena. Ao fim
da ligação, a sindicalista diz ao deputado que, ao seu lado, está
uma pessoa a quem ela se refere como "o patrão". Ela pergunta se o deputado
gostaria de falar com "o patrão". Mas o deputado, num sinal de que temia
estar sendo grampeado, recusa a sugestão e explica: "Esses telefones tão
todos ruins". Um dado constrangedor para o deputado
Roberto Jefferson é o fato de que seus indicados se envolvem com falcatruas
diversas com uma desconcertante freqüência. O médico Paulo Cesar
Rondinelli, por exemplo, ficou nove anos na diretoria do Instituto Nacional de
Tráumato-Ortopedia, com sede no Rio de Janeiro. Nesse período, atingiu
a espetacular marca de 104 denúncias. É um universo de denúncias
amplo e muitas vezes despudorado, como no caso das próteses encontradas
no mercado ao preço de 200 dólares, mas que o instituto de Rondinelli
comprava por 2.000 dólares. Com versatilidade, o médico fez de tudo
um pouco no instituto e, assim, acabou recebendo condenações não
muito comuns. Numa delas, junto com um auxiliar, foi sentenciado pelo Tribunal
de Contas da União a restituir 447.000 reais aos cofres públicos.
Rondinelli também já foi proibido de ocupar cargos de confiança
por cinco anos. No ano passado, depois de uma auditoria do Ministério da
Saúde, ao qual o instituto é subordinado, foi demitido "a bem do
serviço público". Ele afirma que não era afilhado de Roberto
Jefferson, a quem garante ter encontrado poucas vezes na vida. Mas, quando se
refere ao deputado, diz apenas "o Roberto". Ivone
Barros de Souza e Silva, que era coordenadora de fiscalização e
arrecadação do INSS no Rio, é outro exemplo e de longa
data. Sua primeira aparição num rolo vem de 2002, no âmbito
da CPI estadual que investigou irregularidades na Previdência Social. Ivone
de Souza e Silva começou a ser investigada pela Polícia Federal
em 2003, depois que surgiu a suspeita de que se envolveu com uma quadrilha que,
entre outras pilantragens, emitia falsas certidões negativas de débito
em Volta Redonda, no sul do estado do Rio. Ivone de Souza e Silva está
para ser indiciada pela Polícia Federal, que já sabe de seu envolvimento
até com Maria Auxiliadora de Vasconcellos, presidente do sindicato dos
auditores do INSS, que foi presa no início do mês sob a acusação
de integrar uma quadrilha cujas fraudes podem chegar a 1 bilhão de reais.
Em sua função, Ivone de Souza e Silva ocupava o segundo posto mais
importante do INSS no Rio, cuja importância só era inferior à
do superintendente. O gabinete dela ficava no 25º andar do prédio
do INSS, no centro do Rio, e um de seus visitantes habituais era o deputado Roberto
Jefferson. Nas festas de aniversário dos funcionários da repartição,
Ivone costumava exibir seu prestígio aos colegas de trabalho trazendo sempre
um mesmo convidado de honra: Roberto Jefferson. |