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Diogo
Mainardi Podia ser Marabá. Ou Quixadá
"Citei Cuiabá porque
eu a vejo como paradigma de lugar
remoto. Cuiabá está mais distante de mim, por exemplo, do que
Bagdá. Sei tudo sobre Bagdá. Cuiabá, por
sua vez, não tem o menor significado para mim. Ou melhor,
não tinha" Um advogado
de Cuiabá pretende me interpelar judicialmente. Ele diz que ofendi a cidade
em meu último artigo. Só porque declarei que prefiro pagar um dinheirão
a ter de conhecer Cuiabá. Meu maior temor é que, a certa altura,
algum tribunal cuiabano me chame para depor. Não vou. Melhor ir para a
cadeia. O tal advogado já conquistou
o apoio de muita gente. Cuiabá inteira está inconformada com meu
artigo. Os vereadores da cidade reclamaram de mim. Um jornal local pediu a intervenção
do prefeito. Um jornal concorrente afirmou que o melhor lugar para ler meus artigos
é o banheiro. Elegantemente, um colunista me diagnosticou uma "hemorróida
cerebral". Outro colunista me acusou de raciocinar como um hooligan, um skinhead,
um neonazista, um membro da Ku Klux Klan. Segundo ele, meu mote é: "Não
gosto e não conheço, mas sou superior e melhor do que os cuiabanos".
Não é verdade. Não há nenhuma sugestão de superioridade
em meu artigo. Digo simplesmente: "Não gosto e não conheço,
e não quero, em hipótese alguma, nem por muito dinheiro, conhecer".
A reação dos cuiabanos
foi um tantinho exagerada. Não era minha intenção ofender
a cidade. Eu poderia ter citado Marabá. Ou Quixadá. Ou Nhamundá.
Ou Tianguá. Ou Ji-Paraná. Ou Guatapará. Ou Xambioá.
Tanto faz. O efeito teria sido exatamente igual. Citei Cuiabá apenas porque
eu a vejo como um paradigma de lugar remoto. Cuiabá está mais distante
de mim, por exemplo, do que Bagdá. Sei tudo sobre Bagdá. Conheço
seus bairros. Conheço sua cultura. Conheço seus líderes políticos
e religiosos. Cuiabá, por sua vez, não tem o menor significado para
mim. Ou melhor, não tinha. Na última semana, por causa da confusão
gerada pelo artigo, decidi me informar a seu respeito. O Diário de Cuiabá
fez uma pesquisa com a população local sobre os aspectos mais representativos
da cidade. Seu prato típico é a mojica de pintado. Sua música
tradicional é o rasqueado. Seu edifício histórico mais relevante
é o Mercado do Peixe. Sua maior figura esportiva é Jorilda Sabino,
que chegou em segundo lugar na corrida de São Silvestre, em 1984. Sua grande
celebridade é Jejé de Oyá, um colunista social "negro, pobre,
homossexual". Seu principal artista é o comediante Liu Arruda. Além
de protagonizar a memorável campanha publicitária do Supermercado
Trento, Liu Arruda também se tornou conhecido por ter interpretado personagens
como Creonice e Comadre Nhara, uma sátira da colunista social Vanessa Komenta.
De acordo com a pesquisa do Diário de Cuiabá, o segundo artista
mais identificado com a cidade foi Pescuma. O terceiro, Roberto Lucialdo.
Estou em guerra com os cuiabanos. Os cuiabanos estão em guerra comigo.
Finalmente encontrei adversários à altura. Eles animam minha vida.
Eu animo a vida deles. O país é grande e tem um bocado de gente.
Isso não faz dele um lugar menos aborrecido. Não gosto de me vangloriar.
Creio, porém, que fui a notícia mais excitante da história
de Cuiabá nos últimos vinte anos. |