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Entrevista:
Michel Onfray "Deus
está nu" O filósofo francês
mais lido da atualidade diz que as três grandes religiões monoteístas
vendem ilusões e devem ser desmascaradas como o rei da fábula
de Andersen  André
Fontenelle
Em um tempo em que a religiosidade
está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais
vendidos na França desde o mês passado, à frente até
das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo
filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de
46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como "os três
grandes monoteísmos". Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista
e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a
destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam
o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos
os livros, exceto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam
a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um
paraíso fictício depois da morte.
Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise
detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo
de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão
Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão,
a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a
mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali
criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias
e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio
pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência.
Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais
influente filósofo francês do século passado. Em seus livros,
Onfray propõe o que chama de "projeto hedonista ético", em que defende
o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si,
ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França
para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir
idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.000 exemplares.
De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a
VEJA. Veja Em sua
opinião, só o ateu é verdadeiramente livre? Onfray
Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível
com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência
divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar
a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por
outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é
dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental
do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave
e um inibidor da autonomia do homem. Veja
A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que
há tanta discussão sobre religiosidade? Onfray
Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia.
As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno
da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu
muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta
entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a
obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden,
a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã
nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença
monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente
funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França.
Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.
Veja Seu livro defende um ateísmo
"fundamentado, construído, sólido e militante". Isso quer dizer
que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus? Onfray
Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas
em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos
sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há
como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de
não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás
da fé e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela
merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo,
pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.
Veja A desconstrução dos três
grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na
fábula de Hans-Christian Andersen? Onfray Sim. É
preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões
é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério
tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem
quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais
por trás das crenças. Veja
O senhor cita constantemente trechos do Corão, da
Bíblia e da Torá para apontar contradições.
Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados
pelos religiosos na defesa de suas convicções? Onfray
Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos
e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles
trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações
e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade
para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da
fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência,
da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo,
da treva contra a luz. Veja
Seu livro cita contradições entre a pregação da
paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa
situação? Onfray O famoso sexto mandamento
da Torá ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma
lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante).
Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não
vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma a todo instante
que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão
afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio
será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta
sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações
ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda
sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo
30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo
64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis",
nona sura, versículo 5). Veja
O livro ataca com virulência particular o apóstolo
Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê? Onfray
Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a
conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual
de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão
que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas
em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc.
Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de
caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido
por um psiquiatra. Veja
Há uma diferença entre ser contra as religiões e não
acreditar na existência de Deus? Onfray É possível
acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião
que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha.
Veja Mas
não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é
inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é
genética. Onfray Essa necessidade é cultivada
culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente.
Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro
além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança
imagem do que pode haver de mais natural nascer acreditando em algum
deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções
puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas
criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a
de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por
exemplo, com a filosofia. Veja
Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade
de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese
da criação divina? Onfray O recurso a Deus
e à transcendência é um sinal de impotência. A razão
não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não
consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações
e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico
ou mágico. A idéia da criação divina é uma
espécie de doença infantil do pensamento reflexivo. Veja
Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção
popular pela morte do papa? Onfray Tamanho fervor deve ser
relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro "papa
catódico", o primeiro sumo pontífice da era da comunicação
de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura
que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones
eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física.
Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás
daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso
ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição
do cadáver e pela criação de uma reação histérica
entretida e amplificada pela transmissão televisiva. Veja
O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja
Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio
diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível
encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não
mostra que o problema não são as religiões e sim os homens
que as interpretam? Onfray Não me proponho a escrever
uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor
francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos
anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões,
que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade
entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário.
Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam
ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles
dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação,
que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece
muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas. Veja
Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão
repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos
novos? Onfray Não se pode fazer muito a respeito,
a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo.
E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer
antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos. Veja
Não se pode negar que a religião proporciona valores
morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam.
Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões? Onfray
Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia
permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser
a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre
os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu,
às religiões. É preciso passar da era teológica à
era da filosofia de massa. Veja
O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu? Onfray
Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte,
que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão
os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes,
para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias
justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só
isso já seria muita coisa. Veja
Quando e como o senhor se tornou ateu? Onfray
Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância,
quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel
ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto
valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha,
em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião
de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse
pensamento mágico que só serve, justamente, para as crianças.
Veja Do que se trata,
exatamente, a "universidade popular" que o senhor criou? Onfray
Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás,
com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número
possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de
classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo
ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção
de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários
sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea
ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia
para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história
da filosofia atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.
Veja Que tipo de
público freqüenta seus cursos? Onfray O público
é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens,
mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados,
como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados,
como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.
Veja A idéia está dando certo? Onfray
O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco
ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.
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