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Auto-retrato
Itzhak Perlman
O israelense Itzhak Perlman é um dos
maiores violinistas do mundo. Paraplégico desde os 4 anos,
em razão da poliomielite, ele também é porta-voz
dos deficientes físicos. Perlman vem ao Brasil em junho,
para um único concerto em São Paulo. Em entrevista
ao repórter Sérgio Martins, fala sobre as dificuldades
que enfrentou, sobre judaísmo e sobre sua iniciativa de se
tornar maestro.
O SENHOR FOI UMA CRIANÇA
PRODÍGIO. FAZER SUCESSO MUITO CEDO NA MÚSICA ERUDITA
É BOM OU RUIM?
Criança prodígio, eu? Crianças prodígios
são meninos de 9 ou 10 anos de idade que tocam como se tivessem
20. Eu era um rapazote de 13 e tocava como se tivesse 13
só que demonstrava um grande potencial. Foi bom. Não
saltei nenhuma etapa e pude aproveitar a vida. Completei meus estudos
e hoje tenho uma carreira que me alegra.
QUAL O PRINCIPAL PROBLEMA
DE UM PRODÍGIO DA MÚSICA?
A enorme pressão. Dos pais, que querem que ele seja
perfeito, dos professores, dele mesmo. Dou aulas de música
e fico consternado quando vejo meninos de 14 ou 15 anos reclamando
que ainda não têm empresário. Eles se esquecem
de viver.
POR SER DEFICIENTE FÍSICO,
O SENHOR ENFRENTOU ALGUM TIPO DE DIFICULDADE NO MEIO MUSICAL?
No início da carreira, tive de lidar com o preconceito.
Muitos artigos em jornais diziam que eu era bom, "apesar de deficiente".
Mas o que importa é a música. Quando começo
a tocar, ninguém mais liga se posso andar ou não.
O SENHOR É MUITO ATIVO
AO CHAMAR ATENÇÃO PARA AS NECESSIDADES DOS DEFICIENTES
NO ACESSO A LOCAIS PÚBLICOS OU NOS TRANSPORTES. PERCEBE MELHORAS
NESSE CAMPO?
Sou deficiente físico desde os 4 anos de idade e moro
em Nova York, cidade repleta de degraus e armadilhas. Tornei-me
um expert no assunto da acessibilidade. Sobretudo quando se inicia
a construção de um novo teatro ou sala de concertos,
sou bastante consultado por arquitetos e engenheiros. Creio que
há, sim, mais conscientização.
ALÉM DA ARQUITETURA
DAS CIDADES, QUE OUTROS PROBLEMAS O SENHOR ENFRENTA POR SER DEFICIENTE?
Sofro em aeroportos. Muitos não têm cadeiras de
rodas suficientes. Quando há, estão quebradas ou têm
apenas um descanso para as pernas. Paris é uma cidade que
já me fez sofrer muito. As cadeiras de rodas são bastante
apertadas. Se você está com alguns quilos a mais, tem
de se torcer todo.
POR QUE O SENHOR REJEITOU
UM CONVITE PARA PARTICIPAR DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE AUSCHWITZ
RECENTEMENTE?
Recusei por motivos profissionais. Tinha outros compromissos
no dia do recital. Porém, não sei se gostaria de ir
a Auschwitz. Minha filha visitou o lugar e voltou traumatizada.
Conheço bem demais a história do holocausto para entrar
serenamente num local de memória tão sombria.
COMO JUDEU, O SENHOR VIU ALGUM
PROBLEMA NO FATO DE O MAESTRO DANIEL BARENBOIM REGER UMA PEÇA
DE WAGNER, COMPOSITOR ALEMÃO IDENTIFICADO COM O NAZISMO,
EM ISRAEL?
O problema não é a música de Wagner, mas
as lembranças ruins que ela carrega. Tocar Wagner é
trazer à tona recordações de um tempo de dor
e sofrimento. A música dele não poderá ser
executada em Israel enquanto houver naquela terra sobreviventes
do holocausto.
DEPOIS DE CONSAGRADO COMO
VIOLINISTA, O SENHOR DECIDIU SE DEDICAR À REGÊNCIA.
O QUE O SEDUZ NO CARGO?
Comecei a reger faz onze anos, a pedido da minha mulher. Ela
tem uma escola de música e pediu que eu comandasse a execução
de algumas peças clássicas para os estudantes. Regi,
gostei e decidi me aprimorar. Mas é uma tolice achar que
o regente é uma figura poderosa. O verdadeiro poder está
com os músicos de uma orquestra. Se eles quiserem, podem
nos deixar em maus lençóis.
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