Edição 1906 . 25 de maio de 2005

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Auto-retrato
Itzhak Perlman

O israelense Itzhak Perlman é um dos maiores violinistas do mundo. Paraplégico desde os 4 anos, em razão da poliomielite, ele também é porta-voz dos deficientes físicos. Perlman vem ao Brasil em junho, para um único concerto em São Paulo. Em entrevista ao repórter Sérgio Martins, fala sobre as dificuldades que enfrentou, sobre judaísmo e sobre sua iniciativa de se tornar maestro.

O SENHOR FOI UMA CRIANÇA PRODÍGIO. FAZER SUCESSO MUITO CEDO NA MÚSICA ERUDITA É BOM OU RUIM?
Criança prodígio, eu? Crianças prodígios são meninos de 9 ou 10 anos de idade que tocam como se tivessem 20. Eu era um rapazote de 13 e tocava como se tivesse 13 – só que demonstrava um grande potencial. Foi bom. Não saltei nenhuma etapa e pude aproveitar a vida. Completei meus estudos e hoje tenho uma carreira que me alegra.

QUAL O PRINCIPAL PROBLEMA DE UM PRODÍGIO DA MÚSICA?
A enorme pressão. Dos pais, que querem que ele seja perfeito, dos professores, dele mesmo. Dou aulas de música e fico consternado quando vejo meninos de 14 ou 15 anos reclamando que ainda não têm empresário. Eles se esquecem de viver.

POR SER DEFICIENTE FÍSICO, O SENHOR ENFRENTOU ALGUM TIPO DE DIFICULDADE NO MEIO MUSICAL?
No início da carreira, tive de lidar com o preconceito. Muitos artigos em jornais diziam que eu era bom, "apesar de deficiente". Mas o que importa é a música. Quando começo a tocar, ninguém mais liga se posso andar ou não.

O SENHOR É MUITO ATIVO AO CHAMAR ATENÇÃO PARA AS NECESSIDADES DOS DEFICIENTES NO ACESSO A LOCAIS PÚBLICOS OU NOS TRANSPORTES. PERCEBE MELHORAS NESSE CAMPO?
Sou deficiente físico desde os 4 anos de idade e moro em Nova York, cidade repleta de degraus e armadilhas. Tornei-me um expert no assunto da acessibilidade. Sobretudo quando se inicia a construção de um novo teatro ou sala de concertos, sou bastante consultado por arquitetos e engenheiros. Creio que há, sim, mais conscientização.

ALÉM DA ARQUITETURA DAS CIDADES, QUE OUTROS PROBLEMAS O SENHOR ENFRENTA POR SER DEFICIENTE?
Sofro em aeroportos. Muitos não têm cadeiras de rodas suficientes. Quando há, estão quebradas ou têm apenas um descanso para as pernas. Paris é uma cidade que já me fez sofrer muito. As cadeiras de rodas são bastante apertadas. Se você está com alguns quilos a mais, tem de se torcer todo.

POR QUE O SENHOR REJEITOU UM CONVITE PARA PARTICIPAR DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE AUSCHWITZ RECENTEMENTE?
Recusei por motivos profissionais. Tinha outros compromissos no dia do recital. Porém, não sei se gostaria de ir a Auschwitz. Minha filha visitou o lugar e voltou traumatizada. Conheço bem demais a história do holocausto para entrar serenamente num local de memória tão sombria.

COMO JUDEU, O SENHOR VIU ALGUM PROBLEMA NO FATO DE O MAESTRO DANIEL BARENBOIM REGER UMA PEÇA DE WAGNER, COMPOSITOR ALEMÃO IDENTIFICADO COM O NAZISMO, EM ISRAEL?
O problema não é a música de Wagner, mas as lembranças ruins que ela carrega. Tocar Wagner é trazer à tona recordações de um tempo de dor e sofrimento. A música dele não poderá ser executada em Israel enquanto houver naquela terra sobreviventes do holocausto.

DEPOIS DE CONSAGRADO COMO VIOLINISTA, O SENHOR DECIDIU SE DEDICAR À REGÊNCIA. O QUE O SEDUZ NO CARGO?
Comecei a reger faz onze anos, a pedido da minha mulher. Ela tem uma escola de música e pediu que eu comandasse a execução de algumas peças clássicas para os estudantes. Regi, gostei e decidi me aprimorar. Mas é uma tolice achar que o regente é uma figura poderosa. O verdadeiro poder está com os músicos de uma orquestra. Se eles quiserem, podem nos deixar em maus lençóis.

 
 
 
 
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