O Inferno (L'Enfer, França/Itália/Bélgica,
2005. Estréia nesta sexta-feira no país) Morto em 1996, o
cineasta polonês Krzysztof Kieslowski deixou uma trilogia de roteiros com
sua marca registrada: à medida que a história se desenrola, percebe-se
que todos os personagens estão vivendo ou viveram um drama da mesma natureza
a tragédia humana, afinal, é repetir seus erros. O primeiro
roteiro, Paraíso, foi filmado em 2002 pelo alemão Tom Tykwer
e resultou muito mal. O Inferno tem a direção do bósnio
Danis Tanovic, de Terra de Ninguém, e é tão bom quanto
os melhores filmes do próprio Kieslowski. Numa paráfrase da Medéia
de Eurípides, três irmãs, interpretadas por Emmanuelle Béart,
Karin Viard e Marie Gillain, enfrentam infelicidades que têm suas raízes
(e seu espelho) na traição de seu pai à sua mãe, décadas
antes. Veja
cenas.
LIVROS
AFP
Pamuk:
numa Istambul dividida
Istambul,
de Ohran Pamuk (tradução de Sergio Flaksman; Companhia das Letras;
408 páginas; 48 reais) Neve, o romance do turco Ohran Pamuk
que mais sucesso encontrou no Brasil, tem lugar na pequena Kars, no interior da
Turquia. O cenário principal da ficção de Pamuk, porém,
é Istambul, a antiga capital do Império Otomano, onde o autor nasceu
em 1952. Ilustrado com muitas fotos de época, Istambul é
um ensaio autobiográfico sobre essa cidade dividida entre a memória
da suntuosidade e a ânsia de imitar os padrões europeus que grassou,
ao longo do século XX, na Turquia secular do líder Ataturk. Com
um toque melancólico, Pamuk revisita sua infância e juventude
a época em que o Nobel de Literatura de 2006 ainda pensava em se tornar
pintor. Leia
trecho.
Homens
em Armas, de Evelyn Waugh (tradução de Antonio Sepulveda;
Nova Fronteira; 304 páginas; 39,90 reais) O inglês Evelyn
Waugh (1903-1966) serviu como oficial na II Guerra Mundial, combatendo na Iugoslávia.
Primeiro romance da trilogia A Espada da Honra, este Homens em Armas
recupera as experiências pessoais do autor na guerra temperadas
pela verve satírica que tornou o estilo de Waugh único. Guy Crouchback,
um inglês de meia-idade que passou anos vivendo na Itália, retorna
a seu país natal na esperança de participar do esforço de
guerra, mas, a princípio, não consegue que o aceitem no Exército.
Depois de muitos incidentes, consegue se alistar em um grupo de comandos que se
formava na Escócia cujo coronel roubara a mulher de Crouchback sete
anos antes.
Divulgação
Maysa:
a "rainha da fossa" em biografia
Maysa:
Só numa Multidão de Amores, de Lira Neto (Globo; 432 páginas;
32 reais) Maysa Figueira Monjardim Matarazzo (1936-1977) foi uma das maiores
intérpretes da MPB. Uma de suas especialidades era o repertório
de canções sobre romances mal resolvidos e separações
o que lhe valeu o apelido de "rainha da fossa". Nessa biografia, o jornalista
Lira Neto mostra que muitas das histórias tristes cantadas por Maysa eram
baseadas em suas próprias experiências. Tal qual uma Billie Holiday,
ela sabia transportar a tristeza da vida real para o palco. Canções
como Ouça e Meu Mundo Caiu são um belo exemplo disso.
Só numa Multidão de Amores passa longe do estilo chapa-branca
das biografias autorizadas: descreve ainda os problemas de Maysa com a bebida
relatados no diário da cantora e reafirma sua importância
no cenário da música brasileira.Leia
trecho.
DISCO
Divulgação
Arctic
Monkeys: no caminho certo
Favourite
Worst Nightmare, Arctic Monkeys (EMI) O primeiro disco desse grupo
foi o álbum de estréia de venda mais rápida na história
da parada inglesa. Graças a uma base de fãs leais criada na internet
e à qualidade de suas canções , em poucos dias
eles venderam 118.501 cópias. Meses depois, o Arctic Monkeys sucumbiria
a uma crise interna, que culminou com a partida do baixista Andy Nicholson. Favourite
Worst Nightmare, porém, volta a pôr a casa em ordem. Os trunfos
do quarteto inglês residem nas guitarras distorcidas, porém melodiosas,
na bateria bem marcada de Matt Helders e em canções que retratam
o cotidiano de sua geração. Brianstorm e This House Is
a Circus, duas das melhores faixas do CD, mostram que eles estão no
caminho certo.
DVD
Giulio
Napolitano/AFP
Morricone:
sem essa de "arte menor"
Morricone
por Morricone (Versátil) Gravada em 2004, essa apresentação
do compositor e maestro italiano Ennio Morricone quebra um tabu. Em geral, os
artistas eruditos torcem o nariz para os temas de cinema que consideram
uma "arte menor". É certo que alguns compositores de trilhas são
medíocres, mas as criações de Morricone têm qualidades
que as alçam além da categoria. É o caso da música
para Três Homens em Conflito, em que cada personagem foi representado
por um instrumento específico. Esse e outros temas, como os de Era uma
Vez na América e Cinema Paradiso, estão presentes nesse
DVD, executados por Morricone e pela prestigiada Filarmônica de Munique.
COLEÇÃO
Divulgação
A
Glória: a beleza de rememorar
Ambos
lançados nos cinemas em 1990, A Glória de Meu Pai e O
Castelo de Minha Mãe, que saem agora em DVD, são daquele tipo
de filme em que não há propriamente uma trama há,
sim, pequenas coisas que vão acontecendo e dando forma à infância
de Marcel, um garoto que, na primeira década do século XX, mora
em Marselha com o pai, professor primário, e a mãe, dona-de-casa
exemplar. Marcel aprende a ler; Marcel ganha um irmão (nascido de um repolho,
acredita ele) e depois uma irmã; a tia solteira de Marcel se casa com o
bonachão Jules; e, quando Marcel tem lá seus 10 anos, a família
aluga uma casa no campo da Provença, para onde vão (a pé)
em todas as oportunidades possíveis. Marcel, então, se apaixona
pelas colinas, pelo sol, pelos pássaros e pela idéia da Provença,
onde para ele sempre parece ser verão. Quando o espectador dá por
si, já está tão apaixonado quanto Marcel pelo sul da França
e pelos dois filmes (que compõem uma única história).
Dirigidos por Yves Robert (1920-2002), de A Guerra dos Botões, com
base na autobiografia do romancista e cineasta Marcel Pagnol, A Glória
e O Castelo têm o ritmo exato das reminiscências: o que a princípio
parece ser um rememorar inócuo se revela, afinal, a busca por aquele tempo
que, embora perdido, continua a fazer das pessoas o que elas são.