Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo Joaquim
José, um brasileiro
As razões
que levaram Tiradentes, homenageado a cada 21 de abril, a virar herói
supremo da nação
Nunca ficou clara, e provavelmente
nunca ficará, a exata importância do papel desempenhado por Joaquim
José da Silva Xavier, o Tiradentes, na Inconfidência Mineira. Nunca
ficou claro se era um revolucionário consistente ou um bobo boquirroto,
que nos bordéis oferecia às prostitutas lugares de destaque na república
que prometia construir. No entanto, esse personagem elusivo, de biografia que
nos chegou truncada, e do qual não se conhecem nem os traços fisionômicos,
ajustou-se muito bem ao papel de herói supremo da nacionalidade de que
o incumbiram tanto os decretos oficiais quanto o gosto popular, tanto os dirigentes
de turno quanto os opositores. A nenhum outro foi reservada a honra de um feriado
nacional dedicado à sua pessoa.
Tiradentes foi elevado a herói oficial pela República. No período
imperial, sua figura permaneceu, se não esquecida, pelo menos obscurecida,
pela boa e forte razão de ter sido adepto do regime republicano e, ainda
por cima, de o movimento a que pertenceu ter pretendido atentar contra uma dinastia
cujos herdeiros continuavam, apesar da independência, no comando do país.
Proclamada a República, já o 21 de abril seguinte, o de 1890, foi
feriado. Nestes 117 anos que se seguiram, pairando por cima dos diversos golpes
e revoluções, ditaduras, períodos democráticos, governos
mais à direita e mais à esquerda, o 21 de abril, dia do enforcamento
de Tiradentes, em 1792, nunca deixou de ser feriado.
A primeira razão para seu triunfo póstumo tem base no próprio
caráter esquivo do personagem. Como não se sabe direito quem ele
foi, virou figura fácil de ser puxada para este ou aquele lado. O regime
militar declarou-o "Patrono Cívico da Nação Brasileira" por
decreto do marechal Castello Branco de dezembro de 1965. Em 1967, o Teatro de
Arena, de São Paulo, um templo da esquerda, montou a peça Arena
Conta Tiradentes, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Se o Tiradentes
de Castello Branco era um herói para personificar os valores que o regime
militar pretendia representar, o do Arena era um contestador desses mesmos valores.
A segunda razão, conforme a lúcida
argumentação do historiador José Murilo de Carvalho, é
o fato de a frustrada tentativa de insurreição de que Tiradentes
acabou o símbolo ter ocorrido em Minas Gerais, com desdobramentos no Rio
de Janeiro, onde ele foi preso e enforcado. Não faltaram insurreições
de coloração republicana, tanto no período colonial quanto
no imperial. As revoluções pernambucanas de 1817 e 1824 são
duas delas, outra é a Farroupilha, do Rio Grande do Sul. Os cabeças
do movimento que proclamou a República poderiam ter escolhido, como heróis
da nação, tanto o frei Caneca dos levantes pernambucanos como o
Bento Gonçalves do movimento gaúcho. José Murilo de Carvalho
sugere no entanto que um e outro acabaram descredenciados por ter atuado em regiões
consideradas, àquela altura, secundárias em relação
ao eixo político do país. Tiradentes, ao contrário, "era
o herói de uma área que, a partir da metade do século XIX,
já podia ser considerada o centro político do país
Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo".
A terceira e mais interessante razão da glorificação de Tiradentes
é o apelo popular da fusão, em sua pessoa, de herói nacional
e ícone religioso. Os artistas inventaram para ele um rosto inspirado naquele
inventado para Jesus Cristo. Como Jesus Cristo, ele é o protagonista de
uma paixão. Sua caminhada, na manhã daquele 21 de abril um
sábado, como neste ano , da cela que ocupava na Cadeia Velha, situada
onde atualmente fica o Palácio Tiradentes (antiga sede da Câmara
dos Deputados, hoje da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro), até
a forca, no lugar então conhecido como Campo de São Domingos, ecoa
o trajeto do Calvário. A esses fatores exteriores soma-se que, nos três
anos em que permaneceu preso, marcados pelas privações, pelos interrogatórios,
pela expectativa da morte e pela assistência dos padres, Tiradentes deixou-se
tomar pela religiosidade. Ao subir ao cadafalso, beijou os pés do carrasco.
Depois rezou o credo. Era um Cristo entregando-se à sua sorte.*
A mistura de herói cívico e religioso tem paralelo na Joana d'Arc
dos franceses. Mas nem Joana d'Arc chegou a tanto, ou seja, a repetir o próprio
Cristo. Joaquim José da Silva Xavier cumpre uma trajetória que vai
de um Macunaíma dos bordéis a um místico que, pelo martírio,
supera o Conselheiro ou o padre Cícero. De permeio, é um servidor
da ordem (alferes do Exército) que passa a adepto falastrão de um
movimento contestatório que vira fumaça antes de conseguir pôr
pé na realidade. Acrescente-se que fazia um bico como hábil arrancador
de dentes, ofício para o qual andava com uma pequena canastra em que guardava
uns tantos ferrinhos, e pronto: eis a figura de um brasileiro.
* A quem quiser saber mais recomenda-se o capítulo "Tiradentes, um herói
para a República", do livro A Formação das Almas,
de José Murilo de Carvalho, no qual o presente artigo é fortemente
baseado.