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Edição 2005

25 de abril de 2007
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DVD
Um sabor peculiar

Uma série de lançamentos permite que se prove
do cinema muito especial de Eric Rohmer


Isabela Boscov

Os filmes do francês Eric Rohmer têm muitos pontos dignos de nota. Primeiro, são lindos. Rohmer adora a beleza e tem para ela um olho classicista, em que tudo, da luz às cores, é harmonioso (qualidade que se estende às suas atrizes, de lindas proporções). Em seus enredos, as pessoas estão sempre de férias ou a passeio, e se aparecem no trabalho é porque já estão de saída para o almoço ou um café. (Em um de seus melhores filmes, O Raio Verde, o drama da protagonista é não gostar de tirar férias.) Elas têm mais o que fazer do que se aborrecer no escritório – por exemplo, preocupar-se com suas pequenas complicações amorosas ou conversar. Esse é o traço que, mesmo no habitualmente palavroso cinema francês, faz de Rohmer um caso singular: seus personagens falam, falam, falam e então falam mais um pouco, em longos diálogos sobre a natureza do amor, o catolicismo e a reencarnação ou a diferença entre coincidência e destino. São discursos tão pretensiosos que, claro, acabam soando triviais e algo ridículos. E isso é o que torna Rohmer um cineasta quase sempre adorável: o jeito divertido, mas compreensivo, com que ele apanha essas pessoas na sua maior fraqueza – a imagem que elas têm de si mesmas e as ilusões que alimentam sobre o mundo. Os personagens de Rohmer dizem uma coisa (como se jurar fiéis) e fazem outra (sair seduzindo todo mundo). Ou então falam sem parar, na esperança de que isso as livre de passar à prática, e, quando dão por si, ops, já agiram. Rohmer é tão hábil na maneira como articula essas farsas que alguns de seus filmes contêm suspense genuíno. É o caso, por exemplo, de O Conto de Outono, sobre uma viúva que as amigas querem casar de novo, e para quem arrumam mais candidatos que o necessário. Outono, junto com os outros Contos das Quatro Estações, compõe a primeira leva de uma extensa coleção de Rohmer que está sendo lançada em DVD no país, na maior parte inédita.

Rohmer definitivamente é um gosto adquirido – ou melhor, um gosto que alguns têm temperamento para adquirir e outros não, mas do qual vale a pena provar. Além dos Contos, outros títulos a ser lançados que se prestam muito bem a essa experiência são o encantador Pauline na Praia (programado para maio), sobre dois romances, um jovem e um maduro, que se desenrolam durante – óbvio – umas férias, O Raio Verde (junho) e O Joelho de Claire (agosto). Mas, a rigor, quaisquer deles serviriam, e em qualquer ordem. Outra característica de Rohmer, que ele abandona apenas em raros filmes históricos, é que em suas histórias inexistem referências à época em que se passam. Seu tempo é uma espécie de presente eterno, em que, salvo por um ou outro traje ou penteado, a década de 60 é igualzinha à de 90. O próprio Rohmer, aliás, parece imune ao envelhecimento. Aos 87 anos, o ex-professor de literatura, ex-crítico e ex-editor-chefe da revista Cahiers du Cinéma (quando ela tinha em seus quadros também François Truffaut e Jean-Luc Godard) diz que, a exemplo do colega português Manoel de Oliveira (99 anos), pretende se manter na ativa. E garante que, sim, seus personagens continuarão falando pelos cotovelos.

 

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