Uma série
de lançamentos permite que se prove do cinema muito especial de Eric
Rohmer
Isabela
Boscov
Os filmes do francês
Eric Rohmer têm muitos pontos dignos de nota. Primeiro, são lindos.
Rohmer adora a beleza e tem para ela um olho classicista, em que tudo, da luz
às cores, é harmonioso (qualidade que se estende às suas
atrizes, de lindas proporções). Em seus enredos, as pessoas estão
sempre de férias ou a passeio, e se aparecem no trabalho é porque
já estão de saída para o almoço ou um café.
(Em um de seus melhores filmes, O Raio Verde, o drama da protagonista é
não gostar de tirar férias.) Elas têm mais o que fazer do
que se aborrecer no escritório por exemplo, preocupar-se com suas
pequenas complicações amorosas ou conversar. Esse é o traço
que, mesmo no habitualmente palavroso cinema francês, faz de Rohmer um caso
singular: seus personagens falam, falam, falam e então falam mais um pouco,
em longos diálogos sobre a natureza do amor, o catolicismo e a reencarnação
ou a diferença entre coincidência e destino. São discursos
tão pretensiosos que, claro, acabam soando triviais e algo ridículos.
E isso é o que torna Rohmer um cineasta quase sempre adorável: o
jeito divertido, mas compreensivo, com que ele apanha essas pessoas na sua maior
fraqueza a imagem que elas têm de si mesmas e as ilusões que
alimentam sobre o mundo. Os personagens de Rohmer dizem uma coisa (como se jurar
fiéis) e fazem outra (sair seduzindo todo mundo). Ou então falam
sem parar, na esperança de que isso as livre de passar à prática,
e, quando dão por si, ops, já agiram. Rohmer é tão
hábil na maneira como articula essas farsas que alguns de seus filmes contêm
suspense genuíno. É o caso, por exemplo, de O Conto de Outono,
sobre uma viúva que as amigas querem casar de novo, e para quem arrumam
mais candidatos que o necessário. Outono, junto com os outros Contos
das Quatro Estações, compõe a primeira leva de uma extensa
coleção de Rohmer que está sendo lançada em DVD no
país, na maior parte inédita.
Rohmer definitivamente é um gosto adquirido ou melhor, um gosto
que alguns têm temperamento para adquirir e outros não, mas do qual
vale a pena provar. Além dos Contos, outros títulos a ser
lançados que se prestam muito bem a essa experiência são o
encantador Pauline na Praia (programado para maio), sobre dois romances,
um jovem e um maduro, que se desenrolam durante óbvio umas
férias, O Raio Verde (junho) e O Joelho de Claire (agosto).
Mas, a rigor, quaisquer deles serviriam, e em qualquer ordem. Outra característica
de Rohmer, que ele abandona apenas em raros filmes históricos, é
que em suas histórias inexistem referências à época
em que se passam. Seu tempo é uma espécie de presente eterno, em
que, salvo por um ou outro traje ou penteado, a década de 60 é igualzinha
à de 90. O próprio Rohmer, aliás, parece imune ao envelhecimento.
Aos 87 anos, o ex-professor de literatura, ex-crítico e ex-editor-chefe
da revista Cahiers du Cinéma (quando ela tinha em seus quadros também
François Truffaut e Jean-Luc Godard) diz que, a exemplo do colega português
Manoel de Oliveira (99 anos), pretende se manter na ativa. E garante que, sim,
seus personagens continuarão falando pelos cotovelos.