Os folhetins espíritas são um filão bem brasileiro da teledramaturgia. A novela O Profeta, em exibição na faixa das 6 da Globo, é o exemplo mais recente de sua força. Refilmagem de uma trama dos anos 70 de Ivani Ribeiro (1922-1995), ela se vale dos ingredientes característicos do estilo. A ação gira em torno de um sensitivo que se comunica com o além. E entre os personagens há espíritos que interferem nos rumos da história. Atualmente, o tema também desperta o interesse dos americanos. Séries como Medium, Ghost Whisperer e Supernatural exploram enredos em que este mundo se mistura com "o outro plano". Mas, enquanto o modo americano de lidar com os espíritos tem raízes na literatura fantástica e no horror gótico herdados da tradição inglesa, as produções brasileiras se apóiam numa visão religiosa. O efeito disso é que há um céu de distância entre os médiuns e fantasmas daqui e os de lá.
Nos seriados americanos, a presença de espíritos é um recurso narrativo para despertar o medo. Ela visa a assustar o público, ainda que no correr da trama os fantasmas se revelem camaradas. A paranormal Allison Dubois (Patricia Arquette), de Medium, é acometida por sonhos aterrorizantes que são a chave para os casos criminais que soluciona com seus poderes. Em Supernatural, a barra é ainda mais pesada: dois irmãos combatem seres demoníacos. Nas novelas brasileiras, inspiradas pelo kardecismo (uma religião que cravou raízes no Brasil como em nenhum outro lugar do mundo), não há propriamente fantasmas que espreitam os vivos a partir da sombra. Há, de um lado, "espíritos de luz", que confortam e auxiliam outros personagens. O irmão morto do médium Marcos (Thiago Fragoso), de O Profeta, se converteu em seu anjo da guarda. E há "espíritos obsessores", que desempenham papel parecido com o de um vilão que está ali para atrapalhar e não para aterrorizar. Tome-se a "obsessora" que atazanou a personagem de Maurício Mattar na novela. Ela o fez beber até cair na sarjeta e envenenou as conversas dele com sua pretendente. Deixou de incomodar apenas depois de ser "resgatada" por um médium. Uma das marcas dos espíritos novelísticos à maneira brasileira é que não há maldade intrínseca a eles. Mesmo o mais endiabrado pode se redimir.
Nas séries americanas, a mediunidade é uma espécie de superpoder. A pavorosa (no mau sentido) Ghost Whisperer até se aproxima um pouco do ideário kardecista. A personagem de Jennifer Love Hewitt ajuda as almas penadas a fazer o trajeto até o outro plano. Só que a série não levanta bandeiras religiosas. Prefere investir num item bem material: os seios de outro mundo da atriz, que são perseguidos pela câmera com uma sanha para lá de "obsessora". Outros paranormais americanos também fazem uso prático de seu "dom". Em Medium, Patricia Arquette tem emprego numa promotoria. Como passa pouco tempo no escritório, é uma espécie de funcionária-fantasma, que faz grande parte de seu trabalho na cama, onde tem suas premonições. Numa novela espírita, fazer da mediunidade um ganha-pão seria heresia. Como se verifica em O Profeta, ela não deve ser usada em proveito próprio. Por empregar seus poderes para conquistar fama e dinheiro, Marcos perdeu conexão com o além. Em tempo: nas cenas de transe, as caretas de Fragoso são um show de horror à parte. "Tento deixar meu corpo aberto às sensações", explica o ator.
Ivani Ribeiro foi mesmo a precursora do estilo no Brasil. Em 1994, uma segunda versão de A Viagem, sucesso dela dos anos 70 que abordava a reencarnação, provou que a fórmula resistiu ao tempo. Recentemente, a questão voltou a render ibope com Alma Gêmea, escrita por seu seguidor Walcyr Carrasco que, aliás, supervisionou o texto do novo O Profeta. Com médias de audiência de até 41 pontos, uma enormidade para o horário, a adaptação atual caiu no gosto do público porque combina as doses certas de romantismo, humor e ação. E de tempero sobrenatural, é claro. "A idéia de que todos terão uma segunda chance neste mundo é reconfortante", diz Walcyr Carrasco.