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Edição 2005

25 de abril de 2007
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Poucas palavras, muitas idéias

Uma história da arte do aforismo – a frase definitiva,
capaz de expressar o que livros inteiros não conseguem


Jerônimo Teixeira

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Nesta reportagem
Quadro: As cinco características de um bom aforismo
Exclusivo on-line
Trecho do livro

A frase de síntese perfeita, capaz de condensar em poucas palavras um pensamento ou idéia que de outro modo precisaria de um livro para ser expresso – assim se poderia definir o aforismo. Mas seria uma definição prolixa. Um aforismo será sempre o melhor modo de dizer o que é um aforismo. O filósofo alemão Friedrich von Schlegel, um dos grandes teóricos do romantismo, definiu-o como "a maior quantidade de pensamento no menor espaço". O americano Mark Twain chegou a uma fórmula parecida: "Um mínimo de som para um máximo de sentido". O Mundo em Uma Frase (tradução de Claudia Gama Martinelli; Objetiva; 264 páginas; 33,90 reais), do jornalista americano James Geary, traça um panorama dessa arte ancestral: o autor data o surgimento do aforismo há milhares de anos, no livro de sabedoria chinesa I Ching.

O subtítulo promete bem mais do que o texto cumpre: "uma breve história do aforismo". Mesmo para uma história curta, o livro tem lacunas demais. Autor da manjadíssima "o coração tem razões que a razão desconhece", entre outras tantas belas frases, o matemático e filósofo francês do século XVII Blaise Pascal só aparece de passagem, e nenhuma de suas máximas é citada. Também há excrescências e esquisitices: Geary considera até as historinhas rimadas do Dr. Seuss, um dos mais populares escritores para crianças nos Estados Unidos, como aforismos. O autor tem ainda uma tendência chata para os símiles espetaculosos (os aforismos são "aceleradores de partículas para a mente" ou, se ocultos no meio de um poema, "granadas de mão embrulhadas para presente") e um gosto constrangedor por anedotas familiares (Geary lembra como os filhos aprenderam a andar de bicicleta para explicar o pensamento do sábio chinês Lao Tsé). O melhor do livro está, como seria de esperar, nos aforismos, quase sempre entremeados de curiosidades biográficas sobre seus criadores. O suicídio desastrado do francês Nicolas Chamfort é uma das histórias mais fortes: na tentativa de evitar uma prisão, durante a Revolução Francesa, esse grande aforista deu um tiro no rosto, que ficou desfigurado, e cortou o pescoço e os pulsos com uma lâmina – mas só morreu semanas depois. "A sociedade se compõe de duas grandes classes: aqueles que têm mais refeições do que apetite e aqueles que têm mais apetite do que refeições", dizia Chamfort. É uma lástima que O Mundo em Uma Frase não conte com um índice onomástico para facilitar a localização dessas preciosidades.

Os aforismos são como selos, moedas, figurinhas (e Geary não pensou nesse símile óbvio): pensamentos colecionáveis. Thomas Jefferson, um dos patronos da nação americana, manteve por décadas um caderno para anotar suas máximas favoritas. O francês Michel de Montaigne – cujos Ensaios são pontuados por aforismos magistrais – gravou pensamentos de autores antigos, como Sófocles, Sócrates e São Paulo, no teto de seu quarto. Filosofia de bolso, mas nem por isso menos profunda, o aforismo pode ter uma qualidade orientadora para o leitor que se dedica a guardar uma frase de cor. Há bússolas morais para todos os gostos, das iluminações de místicos como o Buda ("Sejam lâmpadas para si mesmos") ao cinismo mundano de La Rochefoucauld, duque francês do século XVII ("Os velhos gostam de dar bons conselhos; isso consola-os de já não ser capazes de dar um mau exemplo").

O Mundo em Uma Frase lista cinco características de um aforismo: deve ser breve, definitivo, pessoal e filosófico, e conter alguma forma de guinada, de surpresa conceitual (veja o quadro). São critérios genéricos e um tanto relativos. Mesmo a brevidade, que está na alma do aforismo, revela-se uma noção elástica: Geary lembra a distinção, na língua francesa, entre o aperçu, pensamento sintético, de pouquíssimas palavras, e a pensée, forma de aforismo mais distendido, que pode chegar até a um ou dois parágrafos. Nem todo aforismo, aliás, é cultivado originalmente como tal – isto é, como uma frase isolada e pronta para a citação rápida. O ensaio, forma de escrita mais longa, mas igualmente pessoal, tem uma afinidade subterrânea com o aforismo. Muitas das frases que Geary coleta vêm de ensaios de Montaigne, Emerson, Thoreau. Obras de ficção também contêm sua cota aforística: "Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens", diz o argentino Jorge Luis Borges no conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Machado de Assis incluiu um capítulo de aforismos em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual se lê o célebre "antes cair das nuvens que de um 3º andar". A surpresa, a torção conceitual talvez seja a característica fundamental do aforismo de gênio. Não é tanto a sabedoria, mas as distorções expressivas da frase que pegam o leitor de jeito. Na definição mais inspirada do grande aforista austríaco Karl Kraus: "O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é meia verdade ou verdade e meia".

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