A
frase de síntese perfeita, capaz de condensar em poucas palavras um pensamento
ou idéia que de outro modo precisaria de um livro para ser expresso
assim se poderia definir o aforismo. Mas seria uma definição prolixa.
Um aforismo será sempre o melhor modo de dizer o que é um aforismo.
O filósofo alemão Friedrich von Schlegel, um dos grandes teóricos
do romantismo, definiu-o como "a maior quantidade de pensamento no menor espaço".
O americano Mark Twain chegou a uma fórmula parecida: "Um mínimo
de som para um máximo de sentido". O Mundo em Uma Frase (tradução
de Claudia Gama Martinelli; Objetiva; 264 páginas; 33,90 reais), do jornalista
americano James Geary, traça um panorama dessa arte ancestral: o autor
data o surgimento do aforismo há milhares de anos, no livro de sabedoria
chinesa I Ching.
O
subtítulo promete bem mais do que o texto cumpre: "uma breve história
do aforismo". Mesmo para uma história curta, o livro tem lacunas demais.
Autor da manjadíssima "o coração tem razões que a
razão desconhece", entre outras tantas belas frases, o matemático
e filósofo francês do século XVII Blaise Pascal só
aparece de passagem, e nenhuma de suas máximas é citada. Também
há excrescências e esquisitices: Geary considera até as historinhas
rimadas do Dr. Seuss, um dos mais populares escritores para crianças nos
Estados Unidos, como aforismos. O autor tem ainda uma tendência chata para
os símiles espetaculosos (os aforismos são "aceleradores de partículas
para a mente" ou, se ocultos no meio de um poema, "granadas de mão embrulhadas
para presente") e um gosto constrangedor por anedotas familiares (Geary lembra
como os filhos aprenderam a andar de bicicleta para explicar o pensamento do sábio
chinês Lao Tsé). O melhor do livro está, como seria de esperar,
nos aforismos, quase sempre entremeados de curiosidades biográficas sobre
seus criadores. O suicídio desastrado do francês Nicolas Chamfort
é uma das histórias mais fortes: na tentativa de evitar uma prisão,
durante a Revolução Francesa, esse grande aforista deu um tiro no
rosto, que ficou desfigurado, e cortou o pescoço e os pulsos com uma lâmina
mas só morreu semanas depois. "A sociedade se compõe de duas
grandes classes: aqueles que têm mais refeições do que apetite
e aqueles que têm mais apetite do que refeições", dizia Chamfort.
É uma lástima que O Mundo em Uma Frase não conte com
um índice onomástico para facilitar a localização
dessas preciosidades.
Os
aforismos são como selos, moedas, figurinhas (e Geary não pensou
nesse símile óbvio): pensamentos colecionáveis. Thomas Jefferson,
um dos patronos da nação americana, manteve por décadas um
caderno para anotar suas máximas favoritas. O francês Michel de Montaigne
cujos Ensaios são pontuados por aforismos magistrais
gravou pensamentos de autores antigos, como Sófocles, Sócrates e
São Paulo, no teto de seu quarto. Filosofia de bolso, mas nem por isso
menos profunda, o aforismo pode ter uma qualidade orientadora para o leitor que
se dedica a guardar uma frase de cor. Há bússolas morais para todos
os gostos, das iluminações de místicos como o Buda ("Sejam
lâmpadas para si mesmos") ao cinismo mundano de La Rochefoucauld, duque
francês do século XVII ("Os velhos gostam de dar bons conselhos;
isso consola-os de já não ser capazes de dar um mau exemplo").
O Mundo em Uma Frase lista
cinco características de um aforismo: deve ser breve, definitivo, pessoal
e filosófico, e conter alguma forma de guinada, de surpresa conceitual
(veja o quadro). São
critérios genéricos e um tanto relativos. Mesmo a brevidade, que
está na alma do aforismo, revela-se uma noção elástica:
Geary lembra a distinção, na língua francesa, entre o aperçu,
pensamento sintético, de pouquíssimas palavras, e a pensée,
forma de aforismo mais distendido, que pode chegar até a um ou dois parágrafos.
Nem todo aforismo, aliás, é cultivado originalmente como tal
isto é, como uma frase isolada e pronta para a citação rápida.
O ensaio, forma de escrita mais longa, mas igualmente pessoal, tem uma afinidade
subterrânea com o aforismo. Muitas das frases que Geary coleta vêm
de ensaios de Montaigne, Emerson, Thoreau. Obras de ficção também
contêm sua cota aforística: "Os espelhos e a cópula são
abomináveis, porque multiplicam o número dos homens", diz o argentino
Jorge Luis Borges no conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Machado de
Assis incluiu um capítulo de aforismos em Memórias Póstumas
de Brás Cubas, no qual se lê o célebre "antes cair das
nuvens que de um 3º andar". A surpresa, a torção conceitual
talvez seja a característica fundamental do aforismo de gênio. Não
é tanto a sabedoria, mas as distorções expressivas da frase
que pegam o leitor de jeito. Na definição mais inspirada do grande
aforista austríaco Karl Kraus: "O aforismo jamais coincide com a verdade;
ou é meia verdade ou verdade e meia".