TERRORISMO UNIVERSAL
Mohamad Torokman/Reuters
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HAVERIA UMA DIFERENÇA DE PERFIL DOS
TERRORISTAS DA AL QAEDA EM RELAÇÃO A OUTROS MOVIMENTOS TERRORISTAS
ISLÂMICOS? Sim, há. O Hamas, por exemplo, é um grupo
nacionalista, com um programa restrito, sem aspirações mundiais.
A Al Qaeda, ao contrário, já perdeu todas as bandeiras de vista,
de tão universais que se tornaram suas pretensões. O único
programa político que ela ainda tem é o ataque indiscriminado ao
Ocidente. Nesse sentido, ela tem se tornado cada vez mais niilista, por mais contraditório
que isso seja para um movimento que se pretende islâmico. A
SITUAÇÃO DOS PALESTINOS INTERESSA À AL QAEDA? Não
muito. Se a crise entre israelenses e palestinos se resolvesse amanhã,
Bin Laden ficaria arrasado, pois a Al Qaeda perderia um de seus grandes instrumentos
de recrutamento. Trata-se, afinal, de uma fonte de ressentimentos inflamados que
contagiam o coração de muitos muçulmanos.
O HOMEM QUE GLOBALIZOU A JIHAD
AP
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QUE TIPO DE HOMEM É BIN LADEN EM SUA
VIDA PRIVADA? Bin Laden já teve cinco mulheres, das quais duas
talvez ainda estejam com ele. Gerou mais de vinte filhos. Parece ser um pai carinhoso
e tolerante. Ele deixa que seus filhos ouçam música ou pendurem
quadros na parede coisas que seus seguidores são proibidos de fazer.
Ele é mais tolerante como pai do que como líder. COMO
"PENSADOR" DO TERRORISMO, ELE TEM ALGUMA ORIGINALIDADE EM RELAÇÃO
A SEUS ANTECESSORES? Sim. Antes da Al Qaeda, houve vários grupos
radicais islâmicos, mas eram todos nacionalistas em seus objetivos. Bin
Laden fez algo inédito: ele internacionalizou seu movimento. Criou uma
espécie de guarda-chuva, uma organização nova que abrigou
muitos grupos diferentes todos em oposição ao Ocidente, aos
Estados Unidos. Essa foi sua grande contribuiçãoà jihad cultural.
BATE-BOCA
COM EXTREMISTAS
Al-Jazzera/AP
 | NO
SEU TRABALHO DE REPORTAGEM, QUAL FOI O DIÁLOGO MAIS ATERRADOR QUE O SENHOR
JÁ TEVE COM UM EXTREMISTA? Creio que foi uma discussão acalorada
que tive em Birmingham, na Inglaterra, durante a iftar a primeira
refeição que os muçulmanos fazem depois do jejum do Ramadã.
Eu estava com um grupo de radicais islâmicos. Um deles observou que era
a favor do seqüestro e da decapitação das pessoas que trabalhavam
para organizações humanitárias no Iraque. E isso foi bem
na época em que seqüestraram Margaret Hassan, diretora da entidade
humanitária Care International. Ela ainda estava viva (Margaret Hassan
foi morta em novembro de 2004), e suas súplicas para que não
a matassem estavam sendo transmitidas a toda hora pela Al Jazira. Quando ouvi
aquele homem dizendo que apoiava o assassinato de pessoas como Margaret, eu me
descontrolei. Não consegui me comportar como um repórter distanciado.
Agi como um ser humano. RECRUTAS
DO TERROR O QUE MOTIVA AS PESSOAS A ENGAJAR-SE
EM GRUPOS COMO A AL QAEDA? Isso varia. Movimentos terroristas congregam tanto
idealistas como psicopatas. Mas uma das principais razões é o senso
de frustração, de desespero, de deslocamento cultural que domina
muitos países do Oriente Médio. Um estudo revelador foi conduzido
pelo psiquiatra Marc Sageman, que trabalhou para a CIA no Afeganistão.
Ele traçou o perfil dos recrutas que treinavam nos campos da Al Qaeda
naquele país. Eram jovens de classe média, com uma boa educação.
Muitos falavam várias línguas. E não eram frutos de uma educação
religiosa rigorosa. O que eles tinham em comum era o fato de se filiarem ao movimento
fora de seu país de origem. O sentimento de deslocamento parece muito comum
entre os terroristas. Eu mesmo encontrei esse perfil nas minhas entrevistas com
extremistas. O
GUERREIRO DA PROPAGANDA BIN LADEN REVELOU-SE
COMO LÍDER NO AFEGANISTÃO, LUTANDO CONTRA OS SOVIéTICOS.
COMO FOI SUA ATUAÇÃO NESSA ÉPOCA? Ele até lutou
com bravura em certas ocasiões. Mas acabou entregando o comando a um colaborador
que tinha mais habilidade militar. Bin Laden não é um grande líder
no que diz respeito a habilidades organizacionais nem é um orador eloqüente.
Na verdade, sua contribuição para a derrota dos soviéticos
foi nula, mas ele conseguiu inflar sua importância. Sua passagem pelo Afeganistão
é uma peça exemplar de relações públicas.
Bin Laden é bom na propaganda. PRECONCEITOS
PERIGOSOS
Stan Honda/AFP
 | NO
LIVRO, O SENHOR APONTA AS FALHAS DOS SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA AMERICANOS
ANTES DOS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO. ESSES PROBLEMAS FORAM CORRIGIDOS? Temo
que hoje a situação esteja pior do que antes. O FBI afirma que,
entre seus mais de 30 000 agentes, hoje existem 25 que falam árabe. Eu
conversei com alguns deles e descobri que o curso de língua árabe
que eles fizeram durou nove semanas. Jamais seriam capazes de interrogar um suspeito
nessa língua. Estou batendo no FBI apenas porque é a mais aberta
das agências de inteligência americanas mas o mesmo se dá
em todas elas. Descendentes de árabes que falam as línguas do Oriente
Médio não são empregados por preconceito. São vistos
como "risco para a segurança". O resultado é que a nossa segurança
está de fato em risco, porque não empregamos as pessoas que têm
mais condições de nos ajudar. ERGUIDA
DAS CINZAS
Fayez Nureldine/AFP
 | QUAL
A SITUAÇÃO ATUAL DA AL QAEDA? A organização dividiu-se
em quatro grupos há uma Al Qaeda no Iraque, uma na Europa, uma no
Paquistão e uma no norte da África, esta responsável pelos
recentes atentados na Argélia. Os líderes continuam vinculados
à Al Qaeda do Paquistão. A tragédia é que, depois
da batalha de Tora Bora, no Afeganistão, em dezembro de 2001, a Al Qaeda
estava virtualmente morta. Pelo menos 80% de seus líderes haviam sido mortos
ou capturados. Por muito tempo, ela continuou em um estado de zumbi. Mas a invasão
do Iraque trouxe a Al Qaeda de volta à vida. Hoje, pode estar mais forte
do que nunca. Seus santuários e campos de treinamento estão ressurgindo
no Paquistão, em Mali e provavelmente também nas áreas sunitas
do Iraque. É um desdobramento muito perigoso. |