Nada
mais organizado e aparentemente tranqüilo do que uma colméia. Por
isso mesmo, o fenômeno parece ainda mais assombroso. As abelhas domesticadas
da América do Norte e da Europa estão desaparecendo de uma hora
para outra, sem nenhum motivo aparente. Enxames inteiros somem de repente, como
por encanto, e seus criadores encontram a caixa usada para a criação
apenas com a abelha rainha e pouquíssimas operárias à sua
volta. Na rotina diária à procura de alimento, as abelhas se afastam
até 3 quilômetros de sua colônia. Ocorre que não estão
voltando para casa. Também não são encontradas mortas no
solo próximo às colméias. Os cientistas acreditam que elas
morram pelo caminho algum tempo depois, pois uma colônia não consegue
sobreviver sem sua rainha. O sumiço das abelhas foi constatado pela primeira
vez em novembro do ano passado, na Flórida. Desde então, espalhou-se
por 24 estados americanos e chegou ao Canadá. O mesmo vem ocorrendo na
França, na Inglaterra, na Espanha e na Suíça. É comum
que os apicultores percam, todos os anos, entre 10% e 20% de suas abelhas nos
meses mais frios. Agora, muitos já relataram o desaparecimento de 90% de
toda a sua criação. O fenômeno foi batizado por cientistas
americanos de "desordem de colapso de colônias", ou CCD, na sigla em inglês.
As razões ainda são
um mistério. O que há são especulações. Uma
das possibilidades é que estejam sucumbindo a algum parasita desconhecido.
Há outras hipóteses: o uso indiscriminado de pesticidas nas plantações,
lavouras transgênicas e até o momentoso aquecimento global estão
na lista de possibilidades. Ainda não se conhece a exata dimensão
do problema. Os apicultores canadenses, da região do Rio Niágara,
na fronteira com os Estados Unidos, relatam que perderam 80% de suas colméias.
Na Califórnia, as perdas de espécimes chegam a 60%. Na Suíça,
algo como 40% das abelhas sumiram. O Departamento de Agricultura dos EUA, em associação
com a Universidade da Pensilvânia, criou um grupo de estudo para identificar
a causa do problema. Até agora, os cientistas não apresentaram nada
de conclusivo. A espécie que está desaparecendo misteriosamente
tem o nome científico de Apis mellifera, originária da Europa.
Ela se disseminou pelo mundo graças à ação do homem,
justamente por sua importância econômica. É a abelha que fabrica
mel e é bastante comum também no Brasil. Só que aqui, além
da européia, há outras 2 000 espécies de abelhas selvagens
na natureza. Nos EUA, a Apis mellifera é praticamente a única
espécie. São 2,4 milhões de colméias criadas comercialmente,
o que resultou numa população de 120 bilhões de abelhas até
o fim do ano passado esses bilhões diminuíram sensivelmente,
mas não há estimativas confiáveis sobre esse total hoje.
O sumiço das abelhas provocaria um colapso na produção de
mel, na agricultura e também na proliferação de plantas e
flores na natureza. Em resumo, um grave desastre ambiental.
As abelhas ocupam papel fundamental na agricultura (veja
o quadro), pois são responsáveis pela polinização
(a fecundação das plantas). Anualmente, apicultores americanos alugam
2 milhões de colméias para polinização da lavoura,
deslocando os enxames de um canto a outro do país de acordo com a época
de floração de cada plantação. "O principal negócio
dos apicultores atualmente é o trabalho de polinização. O
mel já virou um subproduto", disse a VEJA o apicultor brasileiro Paulo
Roberto de Oliveira, estabelecido na Flórida. A nova praga já inflacionou
o preço de locação das colméias. No ano passado, o
aluguel de cada caixa com 50 000 abelhas estava na faixa de 75 dólares.
Depois do CCD, aumentou para 150 dólares. A previsão é que
faltem abelhas para polinização neste ano nos EUA. Somente as lavouras
de amêndoa da Califórnia, responsáveis por 80% da produção
mundial, necessitam de 1,4 milhão de colméias. Alguns agricultores
já estão importando colônias de abelhas encaixotadas da Austrália.
Pragas que atacam esses insetos
não são novidade o que é a extensão do problema.
As pragas ocorrem com freqüência e se repetiram algumas vezes ao longo
dos últimos vinte anos, em diversos países. "Em 1950 havia 5 milhões
de colméias nos EUA. Esse número já caiu pela metade. E nesse
mesmo tempo a área das plantações aumentou. Hoje, o país
precisa muito mais de abelhas", diz o pesquisador David De Jong, formado pela
Universidade Cornell. Em 1987, o ácaro Varroa acabou com milhares
de colméias nos EUA, na Europa e no Brasil. A abelha é um dos insetos
mais sensíveis da natureza e um dos primeiros a sentir qualquer tipo de
alteração no meio ambiente. Em 1986, depois do acidente nuclear
de Chernobyl, milhares de abelhas começaram a morrer nos países
vizinhos da antiga União Soviética. Foi um dos principais indícios
que levaram pesquisadores europeus a descobrir a gravidade do desastre, que o
governo russo ainda escondia do mundo. No entanto, como se disse, nunca se viu
um problema com a dimensão atual. Na semana passada, congressistas americanos
ouviram um grupo de especialistas em apicultura para saber a extensão dos
danos e as possíveis saídas. Nada de conclusivo foi dito. As especulações
são muitas, mas os alarmistas de plantão devem se conter antes de
acusar o aquecimento global. Por enquanto, não há nenhum indício
de que, previdentes, as abelhas tenham detectado prenúncios do cataclismo
climático e se mandado.