Frank Rowland descobriu
os danos ao ozônio. Agora luta
contra o aquecimento global
Ronaldo
França
Caetano
Barreira/Reuters
Poluição
à vista: a boa notícia é que se pode evitar o pior, mas é
preciso agir agora
Quem
acha que já deu uma importante contribuição ao planeta, como
plantar uma árvore ou economizar água no banho, precisa conhecer
o químico americano Frank Sherwood Rowland, prêmio Nobel de Química
de 1995. Seus estudos, na década de 70, em parceria com o químico
mexicano Mario Molina, levaram à conclusão de que a humanidade estava
causando danos à camada de ozônio, uma década antes de o buraco
sobre a Antártica ser descoberto. Graças a ele, o mundo conheceu
o diagnóstico e a cura a tempo de reagir. O fim das emissões do
gás clorofluorcarbono (CFC), causador dos danos, foi determinado por um
tratado internacional, o protocolo de Montreal, em 1987. O problema caminha agora
para uma solução. Aos 79 anos, Rowland continua estudando a atmosfera
e alerta que as conseqüências já anunciadas do aquecimento global
são imprevisíveis. Ele tem autoridade para isso. "Molina e eu não
previmos o buraco no ozônio. Isso era algo totalmente inesperado quando
publicamos nosso artigo sobre o assunto", diz.
Karl
Schoendorfer/Rex Features
Rowland:
alerta ao mundo contribuiu para impedir uma catástrofe
Professor
de química na Universidade da Califórnia, Rowland é um cidadão
global. Não no sentido em que se costuma usar o termo, para identificar
quem passa a vida entre um continente e outro, fechando negócios ou freqüentando
festas. Ele vive no condado de Corona del Mar, também na Califórnia,
mas seu ambiente predileto é o globo terrestre, objeto de seus estudos
há 34 anos. Rowland e Molina descobriram que o clorofluorcarbono, em contato
com a radiação solar, provocava a redução das moléculas
da camada de ozônio, a chamada ozonosfera. O CFC era produzido pelo homem
e tinha na época apenas aplicações como gás de geladeira
ou em sprays para cabelo. Algo tido, então, como inofensivo, pois o volume
fabricado era pequeno. Coube a eles, portanto, a tarefa de informar que o ser
humano estava estragando o planeta. No momento, Rowland monitora a quantidade
de metano na atmosfera. Esse é o segundo gás na lista dos que acentuam
o efeito estufa. Perde apenas para o famigerado dióxido de carbono, que
brota dos canos de descarga dos automóveis e das chaminés das fábricas.
E tem boas notícias a dar. "A concentração de metano não
tem aumentado nos últimos anos", diz.
Quando ele fala, o mundo inteiro ouve. Suas descobertas, em 1974, tiveram receptividade
imediata nos Estados Unidos. O artigo de Rowland e Molina foi aceito pela prestigiosa
revista Nature e causou comoção nacional. Imediatamente,
iniciou-se uma investigação federal para averiguar o problema. Quatro
anos depois, os Estados Unidos proibiram a fabricação do CFC no
país. Quando o buraco na camada de ozônio foi descoberto, em 1985,
por cientistas ingleses, o mundo viu as hipóteses dos dois cientistas se
confirmarem. A aceitação às suas teses foi facilitada graças
a outro cientista. O químico holandês Paul Crutzen, ao estudar o
efeito de outro gás, o óxido nitroso, já havia feito um alerta
sobre os problemas com a camada de ozônio. Não teve o mesmo impacto,
mas abriu caminho. Tanto que Crutzen dividiu o Prêmio Nobel de Química
com Rowland e Molina. Desde então, Rowland não parou. Na próxima
semana, será uma das estrelas do Fórum de Desenvolvimento Sustentável,
que a Associação das Nações Unidas-Brasil, braço
civil da ONU no país, realizará em Nova York. Antes, conversou com
VEJA sobre as mudanças climáticas. O que ele diz:
A CULPA É DO HOMEM Somos claramente responsáveis pelo
aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2), que
é o fator mais importante na mudança do clima. Acho que temos de
atentar para o fato de que pela primeira vez a humanidade está se dando
conta de que pode realmente influenciar as coisas em bases globais, de uma forma
como nunca fizera antes.
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS Os problemas que estão
por vir são imprevisíveis. Vou dar um exemplo: o abeto-vermelho
(árvore conífera rica na produção de resina, comum
nas florestas temperadas) tem crescido por séculos em Kenai, península
do sul do Alasca. As árvores começaram a ser atacadas por um tipo
de inseto. Isso se tornou um problema, mas nunca havia chegado a ponto de ser
uma ameaça maior, porque boa parte dos insetos morria nos meses mais frios.
Quando o Alasca começou a esquentar um pouco mais, os escaravelhos deixaram
de morrer no inverno e eliminaram completamente as árvores de abeto. Para
que prevíssemos uma conseqüência como essa, precisaríamos
de um modelo meteorológico e biológico muito complexo.
O INIMIGO É O CO2Estudamos as mudanças
que vêm ocorrendo na troposfera, a parte mais baixa da atmosfera. Há
mais ou menos sete anos não vemos um aumento significativo de metano. Não
sabemos por que isso aconteceu, mas é uma mudança importante do
ponto de vista do aquecimento global. Por outro lado, a concentração
de CO2 tem crescido mais rapidamente do que na década de 1960
por causa da queima de carvão, gás e petróleo. Esse é
nosso grande problema.
OS EUA TERÃO DE REVER SUA POSIÇÃO A visão
da população americana é que será necessário
fazer alguma coisa, mesmo que o governo não faça. Será muito
difícil para os Estados Unidos manter sua posição se um número
substancial de pessoas e grandes corporações mudarem sua posição,
mas as corporações realmente grandes, na maior parte, lidam com
os combustíveis fósseis. E até agora a maioria dessas empresas
está protelando a tomada de medidas a esse respeito.
UM RECADO AOS CÉTICOS Uma coisa que se dizia repetidamente
quando eu e Mario Molina publicamos nosso primeiro artigo era que o mundo tem
tamanha magnitude que somente um idiota acreditaria que as ações
dos seres humanos poderiam ter algum efeito visível. E que apenas pessoas
duplamente idiotas poderiam sugerir que sprays para cabelo contribuiriam para
esse efeito.
O DEVER
DE CASA Se entendermos o planeta suficientemente bem, talvez possamos
encontrar caminhos que nos levem a um resultado positivo. É como devemos
proceder com relação ao aquecimento global e às mudanças
climáticas. Enquanto isso, o que nos resta fazer é reduzir as emissões
de CO2.