No
início do século XX, os relógios eram pendurados em correntes
e serviam muito bem a quem andava a cavalo ou a pé mas não
a Santos Dumont, que precisava manter as duas mãos no controle de suas
aeronaves. Sugeriu então uma solução a seu amigo Louis Cartier:
o relógio preso a uma pulseira. Com o charme de ter sido criada pelo joalheiro
mais chique de Paris especialmente para o então mais celebrado desportista
e inventor da França, a novidade foi um sucesso estrondoso, a ponto de
se tornar um item obrigatório da vida urbana. Pelo menos até pouco
tempo atrás. No momento, os fabricantes de relógios de pulso enfrentam
concorrentes inesperados: para ver as horas, cada vez mais gente recorre ao celular,
ao iPod, à tela do computador e a outras engenhocas eletrônicas.
Entre muitos jovens, os relógios de pulso adquiriram um certo ar de coisa
do tempo de seus pais. Nos Estados Unidos, segundo a consultoria Packaged Facts,
as vendas desse acessório caem desde o início da década e
encolheram 4,9% em 2005 os números de 2006 ainda não estão
disponíveis. A queda mais acentuada ocorre no segmento dos mais baratos,
com preço abaixo de 50 dólares, justamente aqueles destinados à
freguesia mais jovem. No Brasil, entre 2002 e 2006, o mercado de relógios
de pulso não cresceu: ficou estacionado na casa dos 400 milhões
de reais. Segundo uma pesquisa recente da indústria de celulares Nokia,
de cada dez donos de celular, seis dizem que o aparelho é a primeira opção
usada para ver as horas.
Diante
da ameaça de seu produto cair em desuso, como ocorreu com o chapéu
e com as polainas, muitos fabricantes estão agora empenhados em projetos
para tentar transformar o relógio em objeto de desejo, como foi no passado.
Alguns deles até aceitaram que ele deve servir mais como adorno do que
para ver as horas. Para ser vendido, é preciso que o relógio seja
visto pelo consumidor como acessório de moda e objeto de expressão
pessoal. O resultado como se nota nestas fotos são peças
bonitas, inusitadas e, algumas delas, extravagantes. Em certos modelos, inteirar-se
das horas fica até em segundo plano. O principal é causar sensação
com a estranheza do relógio.
Na busca pela inovação, grandes fabricantes têm investido
em parcerias com designers famosos para remodelar seus produtos. O francês
Philippe Starck, a estrela do design contemporâneo que coloca seu nome em
todo tipo de coisa, de cadeira a cadeia de hotéis, criou para a Fossil
relógios fiéis a seu estilo leve e alegre. O Wrappd Analog e o O-ring
Digi, desenhados por Starck, já ajudaram a aumentar as vendas da empresa.
A japonesa Seiko, por seu turno, buscou parceria com o conterrâneo Issey
Miyake, reconhecido por sua produção de vestuário.
Apesar dos esforços das grandes companhias, são os fabricantes menores
que estão tendo sucesso em virar o jogo. A japonesa Tokyoflash é
especialista na criação de relógios que causam surpresa.
Em alguns de seus modelos, como o JLr7, para ver as horas é preciso deslindar
um verdadeiro quebra-cabeça (veja quadro na pág. 99). Usando luzes
do tipo LED (as que estão sempre acesas nos eletrodomésticos) e
telas de cristal líquido, os relógios da Tokyoflash imitam sistemas
de radar, medidores de radiação e displays de equalizadores de som.
Um modelo da americana Nooka, associada ao badalado designer Matthew Waldman,
usa barras no lugar de ponteiros ou números. Funcionam de maneira semelhante
à das barras de progressão que aparecem na tela do computador durante
o download de um arquivo e são preenchidas conforme as horas vão
passando.
"As empresas pequenas
e independentes têm maior liberdade para ousar mais e criar relógios
cuja função de mostrar horas é secundária. Elas usam
o impacto visual como estratégia de marketing", disse a VEJA o americano
Timothy Dowd, analista da consultoria Packaged Facts e autor de um estudo detalhado
sobre o mercado de relógios nos Estados Unidos. O que os fabricantes tentam
agora é vender aquilo que os especialistas de marketing chamam de "experiência
de consumo". O modelo de todos eles é a suíça Swatch. Em
1983, quando a indústria de relógios da Suíça perdia
fôlego diante da concorrência japonesa, a empresa empreendeu uma mudança
ousada no estilo das peças e na estratégia de marketing de seus
relógios a quartzo. Com modelos muito coloridos, alguns superfinos, a Swatch
conseguiu associar seus relógios às emoções da juventude.
No Brasil, a estagnação do mercado, segundo os fabricantes, deve-se
mais à competição dos relógios piratas e contrabandeados,
vendidos pelos camelôs, do que ao uso alternativo. Mas, evidentemente, eles
estão conscientes de que o país não vai escapar das mudanças
na preferência da freguesia. Os relógios de estilo extravagante não
devem demorar para inundar as vitrines brasileiras.
NO MUNDO DO LUXO, O TITANIC
VIRA RELÓGIO
Fotos
divulgação
O
Titanic (à esq.) é feito com aço retirado dos escombros
do transatlântico que afundou em 1912. Preço:
173 000 dólares. O RM
012 (à dir.) deixa à mostra suas engrenagens. Preço:
105 000 dólares
Ao
contrário do que ocorre no Brasil e nos Estados Unidos, os fabricantes
de relógios da Suíça não têm do que se queixar
suas exportações cresceram 11% entre 2005 e 2006. Segundo
a Federação da Indústria Relojoeira Suíça,
o principal responsável pelo aumento das vendas é o segmento de
alto luxo, cujos ícones são os Rolex de ouro maciço e os
Cartier incrustados de diamantes. A surpresa é que fabricantes desse nicho
tão bem-sucedido também têm se aventurado no terreno da extravagância
para atrair novos compradores. Na semana passada, na Suíça, durante
a feira de relógios e jóias Baselworld, a Romain Jerome anunciou
o lançamento de relógios feitos com aço recuperado do Titanic,
o navio que afundou em 1912. Conhecida por seus relógios para golfistas,
a Romain Jerome comprou um pedaço da quilha do transatlântico antes
que seus escombros fossem protegidos contra a exploração de aventureiros.
O pedaço de metal, com 1,5 quilo, foi certificado pela Harland & Wolff,
fabricante do transatlântico, e transformado em peças para a nova
coleção. O Titanic-DNA, como é chamado, custa 173 000 dólares,
na versão mais cara.
No
Hautlence (à esq.) os minutos são marcados de trás
para a frente. Preço: 10 000 dólares.
O Vulcania (à dir.)
é inspirado em antigos instrumentos de navegação. Preço:
70 000 dólares
A
Romain Jerome faz parte de um grupo de oficinas independentes que surgiram nos
últimos anos e, com rapidez, ocuparam posições de prestígio
no segmento relojoeiro de luxo. Essas pequenas indústrias aplicam a seus
relógios a técnica e a precisão suíças, mas
valorizam a criatividade em lugar da tradição. O design ousado de
suas peças pouco lembra o dos relógios de empresas centenárias,
como Girard-Perregaux e Patek Philippe. As oficinas produzem poucos exemplares
de cada modelo e praticamente não fazem publicidade. A notícia de
seus lançamentos corre no boca-a-boca entre os muito ricos.