Em fase experimental,
transplante de retina consegue conter a degeneração macular
Adriana
Dias Lopes
Uma
das maiores dificuldades da oftalmologia é encontrar um tratamento efetivo
para a degeneração macular, principal causa de cegueira em pessoas
com mais de 60 anos. Na semana passada, durante um congresso médico realizado
em Sevilha, na Espanha, o oftalmologista Rubens Siqueira, pesquisador do departamento
de retina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, apresentou
os primeiros relatos de pacientes brasileiros submetidos a uma nova técnica
para o controle da doença – o transplante de retina. A cirurgia consiste
na retirada de 1 milímetro quadrado da camada mais externa da retina do
próprio doente e o seu implante na mácula, a estrutura responsável
pela visão central (veja o quadro). O objetivo é fazer com
que o tecido transplantado assuma as funções das células
da mácula e o paciente, assim, recupere o máximo possível
da capacidade de enxergar. A técnica ainda é experimental. No mundo
inteiro, foram realizados apenas quarenta transplantes de retina, sete deles no
Brasil. Em metade dos casos, a doença foi estabilizada. Outros 30% dos
pacientes registraram melhoras consideráveis na qualidade da visão.
"Serão
necessários pelo menos mais dez anos para que o procedimento possa ser
aplicado com segurança", diz Rubens Belfort, oftalmologista da Universidade
Federal de São Paulo. De qualquer forma, é um grande avanço
na busca por um tratamento para a degeneração macular, especialmente
a do tipo seca, para a qual não há nenhuma terapia de cura. Essa
forma da doença é responsável por 90% dos casos, o que equivale
a 2,7 milhões de vítimas no Brasil. O outro tipo de degeneração
macular é a úmida. Ambas se caracterizam pela diminuição
no aporte de oxigênio para a mácula, provocada pelo envelhecimento.
Como conseqüência, as células dessa região ocular morrem
– o que leva o doente à perda da visão central e, nos casos mais
graves, à cegueira. A diferença é que, na degeneração
macular úmida, para tentar vencer a falta de oxigênio, o organismo
cria uma rede anômala de vasos sanguíneos sob a mácula. "Além
de ineficientes, esses vasos tendem a se romper com facilidade, o que acelera
o processo de cegueira", diz Francisco Max Damico, oftalmologista da Universidade
de São Paulo.
A medicina só oferece tratamento para portadores da degeneração
macular úmida – e, mesmo assim, em situações muito específicas.
De medicamentos a cirurgias com laser, as terapias disponíveis limitam-se
a conter a proliferação da rede paralela de vasos sanguíneos.
Ainda não se conseguiu desenvolver nenhum método capaz de reparar
o dano causado pela morte das células da mácula. Se confirmado o
sucesso das experiências feitas até agora, a chave pode estar no
transplante de retina.