No começo
de maio, a mais recente invenção saída
da cartola de Steve Jobs, o chefão da Apple, deverá
ser lançada no Brasil. À venda nos Estados Unidos
desde março, o Apple TV estabelece uma ponte entre
a televisão e o computador. Com o tamanho aproximado
de um decodificador de TV a cabo, o aparelhinho pretende ser
para o vídeo aquilo que o iPod é para a música.
Por meio dele, o usuário transfere filmes, seriados
e afins do computador para a televisão. Ao ser lançado,
contudo, o Apple TV não obteve a mesma unanimidade
de público e crítica de outros produtos da companhia
de Jobs. Entre seus defeitos está o fato de (ao menos
em princípio) trabalhar apenas com os cerca de 400
filmes e 200 séries de TV à venda no iTunes,
a loja virtual da Apple. Também há problemas
técnicos como a qualidade de imagem, inferior
à de um DVD comum. Apesar dos pesares, o Apple TV aponta
no caminho certo. A união entre televisão e
computador é uma espécie de casamento do século
e, depois de mais de uma década tateando à
procura de formas de viabilizá-la, as companhias parecem
estar chegando a um denominador comum. O produto da Apple
não está sozinho no mercado. As concorrentes
Sony e Microsoft desenvolveram equipamentos parecidos. A primeira
já lançou no exterior a terceira geração
do LocationFree, que conecta o computador, a televisão
e o PlayStation na sua versão portátil. A Microsoft
colocará no mercado americano no fim deste mês
o Xbox 360 Elite, que, além de ser um console de jogos,
permite baixar e estocar grande quantidade de vídeos
da internet.
Não é
difícil compreender o que está em questão.
A TV ocupa um lugar central na vida das pessoas e nada
indica que isso deixará de ser verdade tão cedo.
Já o computador e a internet são o terreno em
que a revolução do vídeo independente
está acontecendo. Era natural que se buscasse aproximar
o eletrodoméstico da sala de estar daquele que costuma
ser acomodado no quarto ou no escritório. As possibilidades
abertas por essa integração vão mudar
a vida do espectador. O computador deverá se converter
numa videoteca. Por meio dele, um dia será possível
transportar para a TV o acervo inesgotável de vídeos
de sites como o YouTube. Ele funcionará, ainda, como
uma ferramenta de compra e locação o
que se vislumbra é nada menos que o dia em que os discos
de DVD poderão ser dispensados.
Segundo a consultoria
Adams Media Research, em 2006 foram gastos nos Estados Unidos
cerca de 28 milhões de dólares entre compra,
aluguel e assinatura de serviços de vídeo pela
internet. A projeção para este ano é
que esse valor quintuplique. Em 2011, deverá chegar
à casa dos 3 bilhões de dólares. O número
parece baixo se comparado aos 16,5 bilhões de dólares
que se faturou com os DVDs nos Estados Unidos no ano passado
mas a tendência a médio prazo é
que essa vendagem fique estagnada. Não por acaso, as
duas tecnologias que até pouco tempo atrás duelavam
para se viabilizar como sucessoras do DVD o Blu-ray,
da Sony, e o HD-DVD, da Toshiba caíram em desgraça.
Por outro lado, as locadoras virtuais vão de vento
em popa. Somente o iTunes contabilizou 1,3 milhão de
filmes e 50 milhões de programas de TV vendidos desde
outubro de 2005, quando se lançou nesse negócio.
Hoje, ele enfrenta quatro concorrentes de peso: Netflix, Amazon
Unbox (da livraria virtual Amazon), Movielink e BitTorrent.
Até a gigante do varejo Wal-Mart passou a oferecer
vídeos em seu site.
Se esse comércio
já começa a ter uma feição bem
definida, ainda há várias questões em
aberto sobre a forma como se dará a ligação
entre televisão e computador. No passado, houve experiências
tão frustrantes nesse sentido como a WebTV. Surgido
em 1995, o conjunto que permitia acessar a caixa de e-mail
e páginas da rede na tela da televisão era um
híbrido mal resolvido. Além da qualidade de
conexão sofrível, não era nada confortável
de operar basta dizer que o espectador, esparramado
no sofá, tinha de ficar com um teclado de computador
no colo o tempo todo. Uma pesquisa recente apontou que a complicação
é a principal razão pela qual 80% dos americanos
ainda preferem valer-se da TV a cabo e de sistemas que vendem
programação à la carte, como o TiVo,
a obter o que querem ver por meio do computador. Por isso,
os aparelhos que estão chegando ao mercado buscam concentrar-se
no essencial: dar ao espectador a chance de armazenar seus
vídeos favoritos e assistir a eles quando bem entender.
O Xbox deverá ter capacidade para guardar mais de 100
horas de material o triplo do que tem o Apple TV. O
LocationFree possibilita que se acessem os arquivos do computador
do usuário e o sinal da TV a cabo de qualquer lugar
abre caminho, enfim, para usufruir tudo isso num laptop.
Não há
dúvida de que a nova geração de aparelhos
dá um passo adiante mas ainda há muito
chão para que cumpram tudo o que a integração
promete. Uma questão crucial continua sem solução:
como reproduzir na TV de forma satisfatória os vídeos
veiculados em tempo real na internet? Sem isso, nem pensar
num YouTube na tela da TV de plasma, por exemplo. Isso sem
falar nas restrições que o espectador encontra
para baixar arquivos nesses equipamentos. Por meio do novo
Xbox, só se poderá assistir aos vídeos
disponíveis num serviço da Microsoft, o Live.
Ao se comunicar apenas com o iTunes, o Apple TV priva o usuário
de milhares de filmes e programas à venda em outros
serviços. Como quase sempre acontece nos computadores,
é possível burlar essas restrições
mas isso requer algum conhecimento técnico e
gastos extras. O dono do Apple TV pode, sim, descarregar no
aparelho os DVDs de sua coleção caseira, ou
os vídeos armazenados na memória de seu computador,
mas precisará arranjar programas especiais (como o
VideoHub) para fazer a conversão.
Os interessados
brasileiros, aliás, já podem se preparar: por
enquanto, lançar mão de programas desse tipo
será o único meio de usufruir o Apple TV. Embora
os usuários de internet do país estejam entre
os mais ativos do mundo, o mercado nacional ainda não
se tornou atraente o bastante para as locadoras virtuais.
As razões por que iTunes e seus congêneres não
operam no país são várias as principais
delas, a baixa penetração das conexões
de banda larga e o temor da pirataria. Esses problemas retardam
a inclusão dos brasileiros no novo mundo do vídeo.
Mas ela vai acontecer.
REINADO CONTESTADO
Divulgação
Ato anti-DRM: abaixo as
barreiras
O reinado da Apple no mercado de música digital
nunca foi tão contestado. A empresa de Steve
Jobs encontra-se no meio do fogo cruzado num debate
sobre direitos autorais, ponto crítico dessa
área. Em várias partes do mundo, sofre
pressões para que o código que protege
os fonogramas vendidos em sua loja virtual, o iTunes,
seja abolido. Em fevereiro, Jobs admitiu em seu blog
que os consumidores acabarão por impor isso (até
porque as músicas vendidas em CDs não
dispõem de proteção semelhante).
No início deste mês, a EMI, uma das quatro
grandes gravadoras do mundo, revelou que abrirá
mão do DRM, o sistema em questão, na venda
avulsa de suas músicas na internet e tudo
indica que as demais logo farão o mesmo. Uma
semana depois, a União Européia anunciou
uma ação antitruste contra a Apple e as
gravadoras. Para além dos direitos autorais,
o que está em jogo é a primazia do próprio
iTunes e do iPod. Hoje, músicas protegidas com
o DRM da Apple só podem ser tocadas nesse último.
Sem o DRM, ficaria aberto o caminho para as pessoas
baixarem músicas de qualquer site no iPod e usar
o iTunes para alimentar aparelhos de outras marcas.
A eliminação desse vínculo, obviamente,
tira uma vantagem da Apple. Mas não é
o único flanco pelo qual sua liderança
é atacada. Os esforços das concorrentes
para tirar um naco das vendas do iPod (foram 100 milhões
de unidades desde 2001) até agora foram em vão.
Mas em março chegou às lojas americanas
um aparelhinho que, na opinião de analistas,
pode ameaçá-lo de fato. O Sansa Connect,
da SanDisk, tem aplicações inéditas
para a internet sem fio. O usuário que estiver
num ambiente com esse tipo de conexão pode acessar
serviços de música e imagens. Coisa que
o iPod não faz.