Nos
últimos quinze anos, o mundo assistiu a duas ações espetaculares
para extirpar a corrupção do poder público. A primeira delas
foi a Operação Mãos Limpas, deflagrada na cidade italiana
de Milão, a bela e industrializada capital da Lombardia. Em 1992, um episódio
aparentemente banal a denúncia de um empresário de que um
asilo do governo lhe cobrava propina pelos serviços que prestava
foi o estopim da faxina que em um ano colocou na cadeia 300 figuras graúdas,
entre deputados, senadores e funcionários públicos de altos escalões.
Além disso, nove ministros renunciaram ao cargo. "Vivemos o nosso 14 de
julho de 1789", comemorou na época o escritor italiano Umberto Eco. Na
Operação Mãos Limpas, comprovou-se aquilo que os italianos
desconfiavam: praticamente todas as concessões para obras públicas
envolviam propinas fornecidas por empresários para financiar os partidos
políticos. Durante a operação, a população
lavou a alma. A Itália já havia visto escândalos maiores,
envolvendo mais dinheiro e gente mais importante, como a quebra do Banco Ambrosiano,
nos anos 80. Mas as investigações nunca davam em nada, obstruídas
à sorrelfa pelos políticos.
A segunda grande campanha para varrer a corrupção em tempos recentes
foi feita em Nova York. Em 1994, o então prefeito da cidade, Rudolph Giuliani,
decidiu jogar duro contra o crime adotando a política batizada de tolerância
zero. A estratégia de Giuliani tinhas duas diretrizes básicas
não tolerar nenhum delito, por menor que fosse, e manter todos os criminosos
presos. Mas havia uma pedra em seu caminho: os índices altos para
os padrões americanos de corrupção na polícia
de Nova York. Para tornar viável sua tolerância zero, primeiro Giuliani
determinou ao chefe de polícia, William Bratton, que limpasse seus quadros
de membros corruptos. Em 1995, 1.222 policiais passaram por uma espécie
de teste de integridade. Primeiro, investigavam-se a fundo suspeitas relacionadas
a eles. Depois, acompanhavam-se os policiais em ação para ver como
agiam ao encontrar grandes somas em dinheiro ou drogas nas mãos de criminosos.
Naquele ano, onze policiais foram demitidos. Em 1996, nova operação
malha fina com 1.320 policiais resultou no afastamento de 24 deles. Deflagrada
a política de tolerância zero, a criminalidade despencou. Nova York,
que ocupava o primeiro lugar entre as 150 cidades mais violentas dos Estados Unidos,
pulou para o último lugar em 1996. Para isso, o primeiro passo foi combater
a corrupção entranhada no poder público.