Na maior devassa da
história do Judiciário, a polícia prende juízes
sob suspeita de vender decisões e dá início a
uma faxina que tem tudo para fazer bem ao país
Alexandre
Oltramari
Montagem
com fotos de Andre Dusek/AE, Alaor Filho/AE, Celso Meira/Ag. O Globo, Eduardo
Nicolau/Ae, Ed Ferreira/AE e reprodução
Cenas
da operação policial que iniciou uma devassa nos tribunais: liminares custam entre
600 000 e 1 milhão de reais
Na
madrugada de 23 de novembro, uma quinta-feira, um delegado e dois agentes da Polícia
Federal entraram discretamente num escritório de advocacia no número
121 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro. A sala pertence ao escritório
Borges, Beildeck e Medina Advogados, e um dos sócios é Virgílio
Medina, irmão do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
Paulo Medina. Durante uma hora e quinze minutos, numa ação sem precedentes
na crônica policial brasileira, os policiais fizeram filmagens, tiraram
fotografias e, com uma máquina portátil, fotocopiaram documentos,
planilhas, anotações. Encerrado o trabalho, fecharam silenciosamente
a porta do escritório e saíram sem deixar pista de sua passagem
pelo 6º andar do edifício. Com ações inéditas
como essa, a Operação Hurricane (furacão, em inglês),
que levou 25 pessoas à cadeia, deu início à maior devassa
já sofrida pela Justiça e, no escritório da Rua do
Ouvidor, encontrou fortes evidências de venda de decisões judiciais,
num esquema criminoso que pode ter chegado ao STJ, a mais alta corte do país
para assuntos não-constitucionais.
Na sexta-feira passada, o bote sobre a Justiça continuou com a Operação
Têmis, nome da deusa da Justiça na mitologia grega. Desta vez, cerca
de 300 policiais federais cumpriram setenta mandados de busca e apreensão
e vasculharam o gabinete de três desembargadores do Tribunal Regional Federal
em São Paulo Roberto Haddad, Nery da Costa Júnior e Alda
Basto. Além deles, os agentes federais estiveram no gabinete de dois juízes
da Justiça Federal paulista, Djalma Moreira Gomes e Maria Cristina Cukierkorn.
A suspeita investigada em relação aos cinco magistrados é
a mesma: a existência de um esquema clandestino de venda de sentenças
e liminares, quase sempre destinadas a beneficiar empresários que exploram
o jogo ilegal, sobretudo casas de bingo que operam com máquinas de caça-níqueis,
o que é proibido por lei desde 2000. O esquema incluiria o pagamento de
mesadas de 20 000 a 30 000 reais a desembargadores, juízes e outros funcionários
públicos. Até a noite de sexta-feira, o único dos cinco magistrados
a falar sobre o assunto foi a juíza Maria Cristina Cukierkorn. Ela interrompeu
a licença-maternidade, voltou ao seu gabinete e, por meio da assessoria
de imprensa, declarou-se "perplexa" com as investigações. Afirmou
que não faz idéia do motivo de ter sido incluída na operação.
Reprodução/STJ
MINISTRO
À VENDA O ministro Paulo Medina, do STJ,
é a maior autoridade investigada pela PF na Operação Hurricane. Seu irmão, o advogado
Virgílio Medina, foi preso depois de ser pilhado negociando três decisões do ministro.
Uma delas, que beneficiava a máfia da jogatina, saiu por 600 000 reais. Foi deferida
por Medina nos termos exatos do que foi acordado duas semanas antes entre seu
irmão e a máfia dos bingueiros. O ministro diz que é honesto e que não sabia das
negociatas.
No Brasil, o governo federal
e o Congresso Nacional já foram alvo de amplas investigações
desde que o país voltou ao regime democrático, em 1985. No Executivo,
aconteceu o impeachment de um presidente e a recente demissão de ministros
envolvidos em ilicitudes. No Legislativo, descobriu-se a existência da máfia
dos anões que assaltava o Orçamento da União e, mais recentemente,
vieram à luz os mensaleiros e sanguessugas. Mas é a primeira vez
que uma devassa se realiza na banda podre da Justiça o que é
uma notícia alvissareira para o país. Já houve casos envolvendo
magistrados corruptos, como os desvios de dinheiro na construção
do TRT que levaram o juiz Nicolau dos Santos Neto à cadeia em 2000 ou a
venda de sentenças que resultou na prisão do juiz João Carlos
da Rocha Mattos em 2003, mas nunca uma ofensiva policial envolvera magistrados
em diversas instâncias da Justiça, sugerindo a existência de
uma rede criminosa. Só na Operação Hurricane, três
desembargadores foram parar atrás das grades e o ministro Paulo
Medina, do STJ, mesmo sem ser preso, foi parar no olho do furacão. É
a mais alta autoridade do Judiciário sob investigação.
O ministro Paulo Medina é suspeito de vender liminares com a ajuda de seu
irmão, o advogado Virgílio Medina. Com gravações telefônicas,
escutas ambientais, filmagens e fotografias, a Polícia Federal documentou
Virgílio Medina vendendo três decisões judiciais do irmão.
Uma delas, a favor de empresários de casas de bingo no Rio de Janeiro,
custou, segundo a polícia, 600.000 reais. "Sou um homem rigorosamente de
bem, da prática do bem que realizo em toda a minha vida", disse o ministro
Medina numa nota divulgada no domingo passado. No inquérito de 2 878 páginas,
ao qual VEJA teve acesso, Virgílio aparece negociando a propina com o advogado
Sérgio Luzio Marques de Araújo, da empresa Betec Games, que tinha
900 máquinas caça-níqueis apreendidas pela Justiça.
A empresa queria liberá-las. Em dezenas de telefonemas e três encontros
pessoais, Virgílio e o advogado da Betec discutem valores. No começo,
era 1 milhão de reais. "Tem 20% de entrada", diz Virgílio, num dos
diálogos grampeados. O preço caiu para 600.000 reais num telefonema
de seis minutos no dia 1º de agosto do ano passado. Duas semanas depois,
o ministro Paulo Medina deu uma liminar cancelando a apreensão das máquinas.
Era uma decisão tão esdrúxula que chamou a atenção
da PF e acabaria revogada mais tarde no Supremo Tribunal Federal.
Roberto
Stuckert Filho/Ag. O Globo
"PARTE
EM DINHEIRO, TÁ? " O desembargador Carreira
Alvim, do TRF no Rio (na foto, ao ser preso), descobriu que estava sendo investigado.
Comprou linhas de telefone celular em nome de terceiros e conseguiu desmontar
uma escuta ambiental em seu gabinete. "Por corrupção, eles não vão me pegar nunca",
disse. Foi pego por corrupção ao orientar o genro sobre o pagamento de sentenças.
Quando entraram
no escritório de Virgílio Medina durante a madrugada, os policiais
encontraram mais indícios de crime. Ali, havia anotações
sobre a liminar de 600.000 reais. Acharam mais. Antes, em conversas telefônicas
monitoradas, os agentes desconfiaram que Virgílio estava negociando um
adiamento num processo do delegado Edson de Oliveira, o mesmo que prendeu PC Farias,
que foi condenado, em primeira instância, por corrupção em
1995. No escritório, havia anotações sobre o caso do delegado
que se encontra parado no STJ, nas mãos do ministro Medina. Na devassa
noturna, os policiais ainda acharam dois lotes de documentos internos do STJ,
que só podem ser obtidos por funcionários da corte. Numa declaração
de imposto de renda, de 2005, constataram que os irmãos tinham um elo financeiro:
Virgílio fez um suposto empréstimo de 440.000 reais ao ministro.
Diz Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado do ministro: "O dinheiro
foi declarado à Receita Federal pelos dois. O ministro está tentando
vender dois terrenos em Minas Gerais para pagar o irmão".
Aos 64 anos, membro do STJ desde 2001, Medina não apareceu para trabalhar
nos últimos dias, abatido com as denúncias. Nos telefonemas do ministro,
não consta uma única conversa com os empresários de bingo
e, nos diálogos com seu irmão, não há menção
à venda de decisões. Existe, portanto, a possibilidade de que Virgílio
mercadejasse liminares à revelia do irmão. Mas o inquérito
da Operação Hurricane traz outro caso constrangedor para o ministro.
Os grampos sugerem que ele interferiu de forma irregular para que seu genro, o
advogado mineiro Leonardo Bechara Stancioli, fosse aprovado num concurso público
para juiz no Paraná. Nos diálogos gravados, o ministro diz que não
pode "abrir o jogo" por telefone, afirma que consegue que a sustentação
oral do concurso seja feita por "outra pessoa", informa que já conversou
com os desembargadores e que a banca já fora devidamente informada sobre
seu genro. "O esquema tá montado", diz ele. "A missão está
cumprida, viu, Leo?". O genro de Medina foi aprovado em 17º lugar no dia
28 de novembro do ano passado. O resultado do concurso foi homologado duas semanas
depois.
Roberto
Stuckert Filho/Ag. O Globo
"CONFIE
NO MEU TACO" O desembargador Ernesto
da Luz Pinto Dória, do TRT em Campinas (na foto, sendo preso), é o mais
falastrão da quadrilha da toga. Atuando como lobista em outras esferas judiciais,
é suspeito de embolsar mesada de 10 000 reais para ajudar donos de bingos a manter
seus negócios em funcionamento. Também tentava subornar agentes públicos com relógios
e viagens. "Confie no meu taco", dizia.
A Operação Hurricane foi uma das maiores da história policial,
mobilizou 400 agentes e apreendeu 2 toneladas de documentos, em papel e meio magnético,
além de capturar 19 armas, 51 veículos de luxo, 523 jóias,
160 relógios de marcas famosas e muito dinheiro em cheque e moeda sonante,
no valor de 10 milhões de reais. Numa cena da operação, filmada
pelos próprios policiais, aparece um agente derrubando uma parede falsa
no escritório de um advogado do Rio e, atrás dela, surgem 4 milhões
de reais em dinheiro vivo. Um policial exclama, entusiasmado: "Muita grana, moleque!".
Mais do que pelo robusto resultado das apreensões, a investigação
policial chama atenção pela ousadia da máfia dos bingos
formada por empresários, advogados e pela velha cúpula do jogo do
bicho no Rio de Janeiro, como os veteranos Aniz Abrahão David, Antônio
Petrus Kalil, o "Turcão", e Ailton Guimarães Jorge, o "Capitão
Guimarães", todos presos. Além das suspeitas de que pode estar envolvido
um ministro do STJ, a investigação descobriu que os criminosos chegaram
a tentar aproximar-se até da presidente do Supremo Tribunal Federal, a
ministra Ellen Gracie, que tomou uma decisão contrária aos interesses
da máfia. Nas conversas monitoradas, fica claro que nada conseguiram.
Nos seus primeiros desdobramentos, as operações policiais estão
concentradas nos Tribunais Regionais Federais, cortes que tratam da legalidade
do jogo assunto com uma história tão controvertida no país
que já sofreu influência até de primeira-dama (veja o quadro).
Em São Paulo, no âmbito da Operação Têmis,
os policiais vasculharam o gabinete de três desembargadores na Avenida Paulista,
em busca de indícios da venda de decisões para casas de bingo. No
Rio de Janeiro, na Operação Hurricane, monitoraram os passos de
dois desembargadores do TRF e conseguiram autorização para prender
ambos. Um é o desembargador José Eduardo Carreira Alvim, cujo genro,
Silvério Nery Júnior, foi flagrado negociando liminar do sogro por
1 milhão de reais com emissários de bingueiros. Além disso,
o genro recebeu de presente da máfia um Mercedes-Benz de mais de 300.000
reais, foi fotografado embolsando dinheiro de bingueiro num shopping do Rio de
Janeiro e grampeado em conversas com o sogro. Numa delas, Carreira Alvim explica
que quer seu quinhão em moeda sonante. "Aquela idéia sua..., parte
em dinheiro, tá?", diz ele ao seu genro, que responde: "Pode deixar, tá
tudo na cabeça aqui, não se preocupa". Carreira Alvim, em decisão
inteiramente descabelada e sem amparo legal, concedeu a tal liminar logo
cassada.
Eduardo
Knapp/Folha Imagem
Joedson
Alves/AE
Uma
apreensão feita pelos agentes federais na Operação Anaconda, realizada em 2003
(à esq.), que acabou resultando na prisão do juiz Rocha Mattos (à
dir.): era o começo do bote sobre a banda podre da Justiça, que vende sentenças
e liminares
O outro
desembargador preso é José Ricardo de Siqueira Regueira, o mais
discreto e desconfiado dos investigados, mas que, apesar de todos os cuidados,
já apareceu envolvido na venda de sentença para a máfia que
adultera combustíveis. Para enfrentar a investigação de agora,
Regueira montou até um sistema antiespionagem em seu gabinete, impedindo
a instalação de escutas ambientais. Ainda assim, foi fotografado
em animados almoços em restaurantes com o advogado Jaime Dias, que faz
o papel de trem pagador da máfia dos bingos, e acabou flagrado na escuta
instalada no gabinete do seu colega Carreira Alvim um diálogo que
mostrou indícios eloqüentes de que ambos atuavam em conjunto. Um terceiro
desembargador também foi preso. É Ernesto da Luz Pinto Dória,
que despacha no Tribunal Regional do Trabalho, em Campinas. Ele é o oposto
de Regueira. Falastrão, foi flagrado em conversas prometendo milagres jurídicos
e fazendo lobby junto a assessores de desembargadores, aos quais oferecia relógios
e viagens. Num caso, oferece regalos a um assessor para que ele pressione o chefe,
um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio, a tomar determinada decisão.
Ao seu cliente, um advogado que começa a desconfiar dos seus serviços,
o desembargador faz autopropaganda. "Não é para ter medo. Quando
a Polícia Federal estourar o escritório de vocês, aí
pode ter medo. Confie no meu taco. Não fui feito desembargador federal
nas coxas", diz. Por esse lobby, que acabou não dando certo, o desembargador
foi pilhado pela polícia cobrando 25 000 reais.
Apesar da amplitude do bote policial sobre a banda podre da Justiça, ações
ainda mais ousadas estão por vir. VEJA apurou que está nas mãos
do ministro do STF Joaquim Barbosa um pedido de prisão de ministros do
STJ supostamente envolvidos com a venda de sentenças. O caso diz respeito
ao advogado e lobista Roberto Bertholdo, preso em Curitiba no fim de 2005. Bertholdo
foi pilhado numa escuta telefônica tramando a compra de uma liminar, por
600.000 reais, do ministro Vicente Leal, do STJ. Leal se aposentou recentemente
sob suspeita num outro caso, o de venda de decisões judiciais a traficantes.
No grampo, Bertholdo antecipa ao seu cliente as decisões que serão
tomadas e, mais tarde, tudo acontece do modo como prevê. Diz, por
exemplo, que Vicente Leal dará uma decisão favorável ao cliente.
E isso acontece. Depois diz que, quando a decisão fosse analisada pelos
demais magistrados, o ministro Paulo Medina entraria em ação, retardando
o processo. E isso também acontece. As investigações colheram
a suspeita de que Bertholdo tinha ligações com outro advogado, Octávio
Fischer, que vem a ser filho de Felix Fischer, ministro do STJ, o mesmo que, na
semana passada, proibiu a Operação Têmis de prender magistrados
em São Paulo.
Carlos
Magno/Ag. O Globo
DISCRETO
E SILENCIOSO O desembargador Ricardo
Regueira, do TRF no Rio, era íntimo dos compradores de sentenças. Impediu as escutas
em seu gabinete ao instalar um sistema de antiespionagem. Gravado no gabinete
de um colega, Regueira aparece como cúmplice nas ações para beneficiar a máfia
da jogatina
Nada é mais fulminante para a credibilidade do Judiciário do
que a suspeita sobre a legitimidade de suas decisões que, num estado
de direito democrático, são soberanas e devem ser cumpridas por
todos. Mas é preciso compreender que, apesar da vastidão das operações
policiais, a Justiça brasileira é um poder íntegro e correto.
É a sua banda podre e corrupta que está sendo exposta à luz
do dia e isso é altamente positivo. Tanto que as operações
policiais aconteceram com o apoio decisivo da própria Justiça. No
caso da Operação Hurricane, por exemplo, tudo começou num
incidente em Niterói no qual uma juíza autorizou a polícia
a usar escutas telefônicas. Agora, o caso é conduzido pelo ministro
Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, que tem trabalhado em sintonia com
a Polícia Federal. "As operações cortam o Judiciário
na própria carne", afirma o juiz Rodrigo Collaço, presidente da
Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). "Mas considerar que
o Judiciário, que tem 13.000 juízes, está podre por causa
de meia dúzia de magistrados não condiz com a verdade."
Examinando-se o quadro geral da Justiça, não existe nenhum sinal
de que a corrupção esteja se expandindo de modo alarmante entre
os magistrados. As operações da semana passada podem dar essa impressão,
mas elas devem ser atribuídas muito mais a um salto de qualidade no trabalho
policial. Na Operação Hurricane, por exemplo, os agentes federais
usaram algumas das técnicas mais avançadas de investigação
para cercar a quadrilha. O aparato inclui a instalação de escutas
ambientais, filmagens e o monitoramento de investigados em tempo real, além
de discretas incursões noturnas em escritórios, com a devida autorização
judicial, sem deixar pistas. O aspecto que deve chamar a atenção
das autoridades do Judiciário é que tudo começou no âmbito
policial, um sinal inequívoco de que a própria Justiça não
dispõe de mecanismos eficazes para detectar a corrupção entre
os magistrados. Nos quinze anos em que trabalhou em tribunais em São Paulo,
Luiz Flávio Gomes, juiz aposentado e ex-professor da Universidade de São
Paulo (USP), diz que jamais viu uma investigação interna punir um
juiz. "As corregedorias funcionam precariamente, sem estrutura, e são dominadas
pelo corporativismo. Investigações contra escreventes costumam ir
a fundo, mas as que envolvem juízes são sigilosas e quase sempre
são arquivadas", afirma. O próximo passo será fazer com que
a Justiça comece a trabalhar no sentido de se autofiscalizar com eficiência
para o bem dos magistrados, cuja maioria é formada por profissionais
honestos, e para o bem do Brasil, que precisa acreditar na Justiça que
tem.