Sempre
que surge uma luz no fim do túnel, novas matanças sepultam qualquer
esperança de estabilidade no Iraque. Na quarta-feira passada, quatro carros-bomba
mataram cerca de 200 pessoas em Bagdá. Em um dos atentados, num mercado
de Sadriya, bairro de população xiita e curda, morreram 140 pessoas,
no pior ataque com uma única bomba desde a invasão americana, em
2003. A série de atentados violentos colocou em xeque o plano de segurança
dos Estados Unidos para a capital iraquiana. Desde fevereiro, reforços
americanos tentam limpar os bairros de milícias e insurgentes. Para os
americanos, o plano já apresenta resultados positivos em reduzir o número
de sunitas assassinados. O saldo parecia tão bom que o primeiro-ministro
Nuri al-Maliki anunciou que os iraquianos iriam assumir as operações
de segurança do país até o fim do ano. Ironicamente, o anúncio
foi feito horas antes das grandes explosões de quarta-feira.
A escalada de ataques da semana passada não revela apenas uma falha na
estratégia americana. Expõe um problema maior: a falência
do estado iraquiano. "A invasão americana desmantelou as instituições
do país, como o Exército, que era o único com autoridade
de alcance nacional, e o partido Baath, que tinha a memória administrativa",
diz o americano Mark Danner, autor do livro O Caminho Secreto para a Guerra,
sobre o conflito no Iraque. Com eleições e acordos entre facções
rivais, os americanos tentaram dar um governo legítimo ao país.
Não funcionou. Grupos étnicos, religiosos, tribais e políticos
aproveitaram o colapso estatal para uma sangrenta disputa de poder.
Kent Porter/AP
Enterro de soldado americano: sem um plano de
retirada
Para que
o Iraque volte a ter estabilidade, a solução, diz Toby Dodge, do
Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, é o estado iraquiano
recuperar sua autoridade. Fácil de dizer, difícil de fazer. As milícias
xiitas e seus inimigos, os insurgentes sunitas e os terroristas da Al Qaeda, ignoram
a tênue autoridade do governo iraquiano, que depende dos americanos para
existir. Washington parece não ter idéia de como resolver o impasse.
"Um primeiro passo seria ter forças policiais mais competentes e em número
razoável", sugere Richard Stoll, da Universidade Rice, no Texas. Para Stoll,
os soldados iraquianos precisam entender que sua missão é defender
todos os iraquianos, e não se misturar às milícias. "Só
com a eliminação das milícias ou o seu desgaste é
que se vai conseguir fazer acordos para iniciar o processo de reconstrução
do Iraque", diz John Mueller, professor de ciência política da Universidade
de Ohio. A idéia de dividir o país em áreas autônomas
para cada uma das três principais etnias (xiitas, sunitas e curdos) voltou
à mesa de debate, mas há um enorme entrave: o petróleo. As
reservas estão concentradas nas áreas de predominância xiita
e curda. Seria necessário dividir a receita petrolífera de forma
igualitária. Isso só seria conseguido com um longo processo de reconciliação,
o que depende de confiança e segurança. Duas palavras que ainda
não se ouvem no Iraque.