Prisão
do desembargador Ernesto Dória: a vez de o Judiciário ser depurado
Desde a volta da
democracia, em 1985, o país tem passado por uma série de escândalos
na esfera institucional. No Poder Executivo, houve o impeachment de um presidente
e, recentemente, a demissão de ministros envolvidos em esquemas ilícitos.
No Legislativo, por seu turno, ainda se escutam os ecos do mensalão e não
empalideceram as imagens dos "anões" da Máfia do Orçamento
sendo banidos da vida pública. Agora, com a Operação Hurricane
(furacão, em inglês), deflagrada pela Polícia Federal para
prender os integrantes de uma quadrilha que explorava o jogo de caça-níqueis,
chegou a vez de o Judiciário ter exposta a sua banda podre. Três
desembargadores foram presos e um ministro do Superior Tribunal de Justiça
está afastado das suas funções. Pesa sobre esses togados
a acusação de venda de liminares. Com tais instrumentos jurídicos,
os exploradores do jogo conseguiam manter em funcionamento milhares de casas ilegais
de jogatina, dotadas de máquinas manipuladas para lesar o jogador. Há
indícios de que pode haver ainda outros altos integrantes do Judiciário
comparsas dessa máfia.
A sucessão de escândalos de corrupção no Brasil costuma
provocar nos cidadãos a impressão de que o país não
tem jeito. É como se a desonestidade fosse parte inextirpável do
caráter nacional. Compreende-se que os ânimos se arrefeçam,
mas é preciso enxergar o fenômeno de um ângulo mais amplo.
Em primeiro lugar, os escândalos só vêm à tona graças
ao bom funcionamento das instâncias responsáveis pela fiscalização
do poder entre as quais a imprensa livre, a polícia e, ressalte-se,
a imensa maioria dos integrantes do Poder Judiciário. Em segundo lugar,
a cada quadrilha estourada, a cada esquema desvendado, dá-se um passo a
mais para a depuração das instituições. Por isso,
pode-se analisar a operação da Polícia Federal ora em curso
como uma contribuição ao aprimoramento da Justiça, cuja distribuição
igualitária e eficiente é um dos pilares das sociedades abertas
e modernas. A continuar por esse caminho, o Brasil tem jeito, sim.